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terça-feira, 2 de julho de 2013

Oriente Médio: McDonald’s e Mursi




Por Pedro Nascimento Araujo

Israel e Egito fazem fronteira – uma fronteira que já foi turbulenta e cuja pacificação custou a vida de Anwar El-Sadat, o presidente egípcio vencedor do Nobel da Paz por ter assinado os históricos acordos de paz de Camp David em 1978 com Menachen Begin, patrocinados pelo presidente americano Jimmy Carter, que devolveram a Península do Sinai ao Egito em troca do reconhecimento de Israel. Em cada lado da outrora turbulenta fronteira, que testemunhou as hostilidades entre israelenses e egípcios na Guerra de Independência (1948), na Guerra dos Seis Dias (1967) e na Guerra do Yom-Kippur (1973), todas iniciadas pelos egípcios e vencidas pelos israelenses, ambas as sociedades definem seus futuros, embora de formas bem diferentes.

Em Israel, a polêmica envolve a cidade de Ariel não contar com um restaurante da cadeia McDonald’s, alvo preferencial de qualquer manifestação anticapitalista, antiocidental ou antissemita. Nada de mais, não fosse um detalhe: Ariel é um assentamento judaico fundado em 1978, localizado nos territórios ocupados da Cisjordânia – para ser exato, o 4º mais populoso assentamento, com 18 mil habitantes. Omri Padan, presidente do icônico fast-food no Estado Judeu é um dos fundadores de um dos mais importantes grupos pacifistas israelenses, o Shalom Ajshav (algo como “Paz Agora”). Para Padan, Ariel é ilegal por estar 10 milhas além da fronteira de 1967; portanto, em território que não pertenceria a Israel.

A recusa de Padan em abrir um McDonald’s em Ariel é um assunto complicado em Israel. Soa como discriminação. Para um povo cuja história é eivada de lutas contra a discriminação, a recusa em atender uma determinada população judaica geograficamente isolada traz lembranças dos terríveis guetos a que muitos judeus foram confinados. Ariel, que conta com uma universidade, aparentemente não é um gueto, mas, na prática, é um enclave cercado por cidades palestinas, com segurança ostensiva bancada pelos impostos dos israelenses – inclusive, dos restaurantes McDonald’s de Omri Padan. O simbolismo é grande: sem um McDonald’s, Ariel não será uma cidade universitária padrão, como encontrada em outros cantos do mundo. Por mais anacrônico que pareça, os arcos dourados passam uma sensação cosmopolita. Sem o McDonald’s, ainda que esteja protegida pela mais eficiente força de defesa do mundo, Ariel é lembrada o tempo todo que não é uma cidade como as demais. Por causas aparentemente banais como um McDonald’s, Israel é forçada diariamente a se questionar acerca de manter ou não os assentamentos judaicos na Cisjordânia.

Do outro lado da fronteira, a urgência é maior, mais premente e mais violenta. Se em Israel os cidadãos se debatem sobre a legitimidade dos assentamentos na Cisjordânia devido à recusa do McDonald’s de endossar os assentamentos judaicos na Cisjordânia, no Egito os cidadãos morrem em protestos contra o governo da Irmandade Muçulmana nos dias em que Mohammed Mursi, presidente do país, completa um ano de governo. Há protestos em todo o país, com milhões de pessoas nas ruas. O motivo é simples: o grupo mulçumano radical Irmandade Mulçumana, do qual Mursi foi líder, vem tentando islamizar o país durante o governo de seu filiado. Para tanto, ignorou promessas de não participar das eleições presidenciais e de fazer uma constituição para todos os egípcios. A Irmandade Muçulmana não apenas participou das eleições como as venceu com Mursi e patrocinou uma constituinte sem participação da oposição e com artigos islamizantes.

Na prática, a sociedade egípcia que, durante a Primavera Árabe conseguiu, com muita luta, retirar o ditador Hosni Mubarak do poder após 3 décadas de despotismo, se viu diante de um novo protoditador – pior, um protoditador muçulmano radical: Mohammed Mursi, que chegou a dar-se poderes ditatoriais. Com Mursi radicalizando para um lado, o país se dividiu. Choques constantes entre islamistas e seculares tornaram o Egito um lugar pouco atraente para turistas, privando o país de uma de suas principais receitas. Desemprego e inflação completaram o quadro. A resposta de Mursi foi radicalizar ainda mais. Resultado: milhões na rua, com a emblemática Praça Tahir tomada pedindo a saída de Mursi.

A situação de Mursi é insustentável. Ele já está morto politicamente, com apenas um ano de governo. Agora, o desafio do povo egípcio é encontrar um líder que una suas diferentes composições políticas e religiosas, não um que as acentue, como Mursi. A Primavera Árabe ainda tem muito chão pela frente antes de virar verão. Os egípcios não sabem quem querem no poder, mas já sabem que não querem outro ditador (Mubarak) ou protoditador (Mursi). Já é um começo, mas ainda é muito pouco. Assim como ocorre com os israelenses, que são lembrados das ocupações na Cisjordânia por fatos banais como a ausência de um McDonald’s, a Praça Tahir ocupada é uma lembrança constante aos egípcios que o caminho para a democracia é árduo e que mais sacrifícios terão de ser feitos. Como um tubarão, que morre se parar de nadar, a luta pela democracia não tem pausas.

Pedro Nascimento Araujo é economista.

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