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quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Poliomielite: a estupidez ameaça vencer a genialidade




Por Pedro Nascimento Araujo

1962 foi um ano marcante para o mundo. Há 5 décadas, fomos apresentados a uma revolução que mudou a face da humanidade. Não, não foi o lançamento de “Love me do”, primeiro single do The Beatles, nem a primeira apresentação do The Rolling Stones, ambos fatos marcantes da cultura popular desde então, tampouco o lançamento de Dr. No, primeira aventura de James Bond, a maior franquia cinematográfica da história. Em 1962, mesmo ano no qual o mundo chegou mais perto da III Guerra Mundial quando os soviéticos instalaram mísseis balísticos intercontinentais em Cuba, a humanidade foi apresentada a umas gotinhas salvadoras: a Vacina Sabin contra a poliomielite começou a ser aplicada em larga escala naquele ano já bastante memorável.

O sucesso da vacina de Albert Sabin foi impressionante. Meio século depois, o que diria Sabin sobre os efeitos de sua obra? Um homem que conseguiu sobrevier ao obscurantismo religioso – o judeu chamado Albert Saperstein nasceu na Polônia ocupada pelo antissemita Império Russo (os Czares de Todas as Rússias, é sempre bom lembrar, criaram os Pogroms, perseguições e eliminações sistemáticas de judeus feitas diretamente pela Okhrana, a temida polícia secreta subordinada diretamente aos soberanos russos) e depois se naturalizou americano, quando mudou o nome para Albert Sabin – ficaria decepcionado: o obscurantismo religioso coloca seu sonho de erradicar a poliomielite em risco.

Se, quando Sabin nasceu (1906), os fundamentalistas cristãos (ortodoxos russos) o perseguiam por sua religião, hoje sua criação é perseguida por fundamentalistas islâmicos. A bem da verdade, o obscurantismo recebeu uma ajuda valiosa do Ocidente. Quando ignorância, fundamentalismo e incompetência se encontram no terreno propício, a tempestade perfeita da estupidez humana está pronta. A ignorância é dada pelos habitantes das regiões mais miseráveis de Paquistão, Nigéria e Afeganistão. O fundamentalismo é por conta do Taliban. E a incompetência é cortesia da CIA.

A utopia de erradicar a poliomielite foi possível apenas com a Vacina Sabin, porque, além de não ser injetável, tem um componente prosaicamente perfeito para sua disseminação em locais muito pobres, nos quais a rede de esgotos são precárias: os excrementos das pessoas imunizadas atingem os esgotos e podem imunizar quem tiver contato com eles. Com isso, em 1994 a poliomielite foi declarada erradicada na América em 1994 e na Europa em 1999. Parecia ser mera questão de tempo para que o mundo ficasse livre da temida paralisia infantil, que ceifou tantas vidas e deixou marcas em tantas pessoas desde que a humanidade começou sua saga terrestre. Só que não.

Um bilhão de dólares por ano: esse é o custo da tentativa de erradicar a poliomielite, que atualmente vitima apenas em países pobres como os supracitados. Em locais dominados pelo Taliban ou seus correlatos nesses países, é simplesmente impossível imunizar com segurança. Não é raro que aplicadores da Vacina Sabin sejam mortos: o Taliban acredita que a imunização faz parte de um plano do Ocidente para esterilizar as crianças muçulmanas. Tamanha insanidade recebe credibilidade por conta da ignorância total e da pobreza absoluta na qual aquelas pessoas vivem – ignorância que o Taliban faz questão de manter, beneficiado que é delas quando recruta material humano para atentados terroristas. Ignorância e fundamentalismo já são razões suficientes para aleijar crianças. Porém, quando a CIA e suas notórias trapalhadas entram em cena, a tempestade perfeita da estupidez humana desaba sobre a humanidade nesses locais miseráveis.

Em 2011, na busca por provas de que Bin Laden estava em Abbottabad (ele realmente estava lá, onde foi morto em combate com uma força de elite americana enviada para prendê-lo), a CIA pagou médicos paquistaneses para que, sob o pretexto de imunizar contra a hepatite, obtivessem amostras de sangue de crianças que poderiam ser filhas do terrorista. A história, verídica, vazou. Era tudo o que o Taliban precisava para proibir quaisquer vacinas – naturalmente, usando o único método persuasivo que conhece: o terror. Matando aplicadores da Vacina Sabin e pais que deixam seus filhos ser vacinados, os arautos das trevas do Taliban, com a ajuda da ignorância crônica da população e da incompetência mais crônica ainda da CIA, estão conseguindo trazer de volta uma doença que deveria estar erradicada para lugares como Paquistão, Nigéria e Afeganistão. Em 2012, meio século após o triunfo de Sabin, 250 crianças tiveram poliomielite nesses lugares. Deveria ser nenhuma. A estupidez humana, formada pela pobreza e pela ignorância, explorada pelos fundamentalistas do Taliban e alimentada pela incompetência da CIA, pode vencer a genialidade humana de Albert Sabin.

Pedro Nascimento Araujo é economista.

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