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terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Presídio da Papuda e Vergangenheitsbewältigung




Por Pedro Nascimento Araujo

Há uma velha máxima segundo a qual o alemão seria o idioma mais adequado para práticas filosóficas por conta de sua virtualmente infinita capacidade de criação de palavras: basta pensar em qualquer coisa e, se ainda não houver uma palavra enorme em alemão para designa-la, qualquer pessoa simplesmente poderá criar uma. De tão bem apropriadas, algumas palavras alemães acabaram sendo reconhecidas internacionalmente e passam a fazer parte do léxico de outras línguas: Zeitgeist (pensamento de uma época) e Schadenfreude (alegria causada pelo fracasso de outrem) são bons exemplos. Por fim, há outras palavras que são mais específicas e menos conhecidas, mas também muito importantes. É o caso especificamente de Vergangenheitsbewältigung, palavra quase impronunciável para quem não domina a língua germânica: conquanto comprida, Vergangenheitsbewältigung faz todo o sentido, pois Vergangenheits significa passado e Bewältigung significa superar; assim, Vergangenheitsbewältigung significa superar o passado – mais especificamente, o III Reich. Pois é: há, em alemão, uma palavra para designar o esforço que o país faz para ficar em paz com seu passado e reconhecer os erros – incluindo as inúmeras leis e reparações que adotou voluntariamente para deixar claro que não haverá outro Adolf Hitler. A Alemanha, ao contrário da Rússia, do Japão e da China, reconheceu as atrocidades cometidas em seu nome para poder purga-las e seguir adiante em paz – russos, japoneses e chineses, por outro lado, parecem fingir que não foi em seus nomes que se assassinaram milhões no mesmo Século XX dos nazistas. A Alemanha não teve vergonha de admitir os erros do seu passado; teve, ao contrário, a grandeza de expô-los tanto para aprender com eles quanto para garantir que nunca mais se repitam – coisa que não podemos afirmar, para manter o exemplo, sobre russos, japoneses e chineses. Negar os erros pregressos é um erro no qual a Alemanha não incorre, mas no qual o Partido dos Trabalhadores (PT) parece ser viciado, como mostram as caravanas de políticos ao Presídio da Papuda (DF) para visitar expoentes políticos da legenda presos.

O PT está jogando fora uma grande chance de se depurar. Está perdendo uma chance de fazer como a Alemanha e sair do Mensalão melhor do que entrou. Ao reconhecer os erros que cometeu no Mensalão, o PT faria um exercício de contrição que poderia resultar num crescimento extraordinário que garantiria a não repetição de um futuro mensalão. Porém, ao invés de optar por um Vergangenheitsbewältigung, o PT aparentemente preferiu optar pelo caminho infantilizante da vitimização, como se seus dirigentes ou militantes fossem naïves o suficiente para acreditar que o Mensalão não existiu – ou como se alguém que não seja seu integrante ou militante realmente acreditaria na versão segundo a qual os políticos presos – fato inédito e digno de aplausos – são, na verdade, presos políticos de uma democracia comandada pelo próprio PT há quase 11 anos. É lamentável que o PT tenha optado por uma ópera bufa ao invés de uma depuração altamente necessária e possivelmente redentora. Quanto mais o PT nega o Mensalão, mais o Mensalão assombra o PT. Dilma Rousseff e Lula da Silva deveriam estar usando seus pesos para comandar uma grande reinvenção do PT, mas preferem focar suas energias em garantir a reeleição nos mesmos moldes que permitiram o advento do Mensalão. Com o tempo, a falta de ação tende a cobrar seu preço: a arrogância de não admitir erros já é passado – hoje, o PT endossa esses erros. Não há outra maneira de definir as caravanas de deputados federais, senadores e até ministros de estado ao Presídio da Papuda para um deprimente beija-mão para políticos presos por corrupção. Tao triste quanto é perceber que a tradicional arrogância do PT não cedeu uma mísera polegada: para visitar os “seus”, mandatários ignoram solenemente os horários e as regras de visitação, recusando, por exemplo, a ser revistados, enquanto os parentes dos demais presos passam pelo processo normal, corroborando a ideia de que se consideram uma casta acima da lei.

É imaginável que Dilma Rousseff e Lula da Silva não tenham percebido que os próceres do PT estão acabando publicamente com o PT nas visitas ao Presídio da Papuda ou nos inúmeros desagravos que os políticos presos estão recebendo – eles certamente entendem isso, mas preferiram não agir. Estão, portanto, ajudando a acabar com o PT. Nenhuma palavra foi dita por Dilma Rousseff e Lula da Silva sobre como é bom para o Brasil que pessoas poderosas como José Dirceu, um homem que estava sendo preparado para assumir a Presidência da República, estejam presas por corrupção em um país tristemente célebre por aplicar a lei apenas aos inimigos dos poderosos de plantão e aos pobres e desvalidos em geral. Nenhuma palavra foi dita por Dilma Rousseff e Lula da Silva sobre como melhorar as instituições e impedir que um novo Mensalão aconteça, mesmo porque nenhuma palavra foi dita por Dilma Rousseff e Lula da Silva para reconhecer que o Mensalão existiu. Nenhuma palavra foi dita por Dilma Rousseff e Lula da Silva acerca de reduzir o tamanho do governo, que contava com 20 mil cargos de confiança na administração direta para distribuir entre seus correligionários e aliados quando assumiu a Presidência da República e vai terminar seus 12 anos de governo com 100 mil cargos de nomeação livre – inacreditáveis 5 vezes mais! Nenhuma palavra foi dita por Dilma Rousseff e Lula da Silva para criticar as ações de seus correligionários que incensam políticos presos por corrupção em horário de serviço, com carro oficial e desrespeitando as leis do Presídio da Papuda. Em suma, nenhuma palavra foi dita por Dilma Roussef e Lula da Silva sobre como fazer do PT um partido melhor após o Mensalão, o que é triste para a democracia brasileira: um PT forte na defesa dos valores corretos faz falta. A palavra que Dilma Rousseff e Lula da Silva deveriam adotar não existe na língua portuguesa, mas na língua alemã: chama-se Vergangenheitsbewältigung e quer dizer admitir os erros do passado para superá-los. Infelizmente quem tem saudades do PT histórico, só resta torcer para que ainda haja salvação quando e se o dia do Vergangenheitsbewältigung do PT chegar.

Pedro Nascimento Araujo é economista.

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