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quarta-feira, 28 de outubro de 2015

A geopolítica de Aleksandr Dugin. Por Pedro Nascimento Araujo


A geopolítica de Aleksandr Dugin

Uma das maiores certezas sobre as teorias geopolíticas é a de que elas surgem em momentos de instabilidades sistêmicas. De fato, Friedrich Ratzel, considerado o pai da disciplina, começou a tratar do tema antes que ele tivesse esse nome ainda no Século XIX. O momento era de instabilidade: a Alemanha estava em inexorável processo de consolidação como potência emergente. Ratzel justificou a matriz expansionista prussiana por meio de um conceito bastante cínico, o Lebesraum, ou Espaço Vital. Era um expansionismo baseado no conceito racista de superioridade germânica, algo que, não supreendentemente, embasou as ações teutônicas nas Guerras Mundiais, levadas ao paroxismo pelos nazistas. E assim foi com as teorias clássicas de geopolítica, do Poder Naval de Alfred Mahan ao Heartland de Halford Mackinder e chegando à tese do Confinamento de Nicholas Spykman, que embasou a Doutrina Truman de contenção do comunismo no final dos anos 1940. E só. Desde então, com a Guerra Fria estabelecida, não havia perspectiva de mudança geopolítica: ou as duas superpotências se mantinham estáveis, como de fato aconteceu, ou o mundo desapareceria em um cogumelo termonuclear. A derrocada do Império Soviético gerou novas teses, como a famigerada ideia de “Fim da História” de Francis Fukuyama, mas nada disso teve impacto concreto. Até que surgiu Aleksandr Dugin.

A ascensão de Putin I como novo Tzar de todas as Rússias foi o fator preponderantes para que Aleksandr Dugin passasse a ser um nome relevante no atual expansionismo russo. Putin I fez seus primeiros ensaios na Chechênia, depois na Geórgia e, finalmente, na Ucrânia, quando seu expansionismo começou a ser combatido de frente pelo Ocidente. A tomada da Crimeia em uma mal disfarçada ação clandestina do Kremlin foi o ponto de inflexão. Putin I passou a ser um pária no sistema internacional, ao menos diante das nações mais desenvolvidas e democráticas do mundo. As sanções que União Europeia e Estados Unidos lhe impuseram por tentar fracionar a Ucrânia manu militari deixaram a economia russa de joelhos. Putin I precisava de um fato internacional forte para unir o país em torno dele. E a resposta encontrada foi dar as cartas na Guerra Civil Síria. Na verdade, a questão é mais geopolítica do que parece. Na Síria, fica o único porto russo com acesso às chamadas “águas quentes”, o único que não congela em uma parte do ano. E eis a ironia geopolítica: durante o ápice da expansão dos tzares, no Século XIX, a Mãe Rússia chegou a controlar da Finlândia ao Extremo Oriente – sem contar o Alasca. Todavia, com o Reino Unido sendo dono dos mares, todo esse vasto império de nada serviria para dominar o mundo – e, em uma época na qual os britânicos não viam o Sol se pôr, para deixar de ser um império grande demais para a Europa e pequeno demais para o mundo, era necessário poder contar com portos que simplesmente não congelassem, bem como controlar os estreitos (Bósforo e Dardanelos) que permitiram sair do Mediterrâneo para controlar o Atlântico Norte. Em suma, era necessário ter um porto como o atual porto que a Rússia controla em Tartous, na Síria. Tudo isso fazia sentido em uma época de conquistas neocoloniais e, principalmente, antes de os Irmãos Wright voarem em Kitty Hawk. No Século XXI, não faz. Exceto para Aleksandr Dugin.

Desde os dias dos tzares, o objetivo da Rússia é se tornar algo além de a maior massa de terra da Terra isolada pelo Oceano Ártico. Porém, os Tzares sofreram derrotas dolorosas: a perda da Finlândia significou que a saída para o mar quente no Atlântico Norte não seria pelo Golfo da Finlândia, a derrota para os japoneses (um povo que a teoria racial considerava inferior aos povos eslavos, já considerados inferiores aos arianos) significou que não seria pelo Extremo Oriente e o fiasco da Guerra da Crimeia significou que o acesso aos estreitos sempre seria negado à Rússia. Mais do que nunca, ficou claro que o urso não poderia nadar, como na metáfora usada à época. Assim como os tzares, os comunistas tentaram reconstruir o Império Russo, mas fracassaram na Polônia (1922) e na Finlândia (1941) e foram ultrapassados pelos americanos com a bomba atômica antes de tomar o Japão (1945). Restou-lhes como espólio da Segunda Guerra Mundial o enclave de Königsberg (que eles rebatizaram como Kaliningrado) e, como herança da Guerra Fria, Tartous – e, agora, a Crimeia. É pouco, muito pouco para quem almeja ir do Golfo da Finlândia ao Mar da China, mas perder esse muito pouco seria humilhante para quem evoca a vocação de grandeza da Mãe Rússia como elemento de legitimidade de seu governo. Putin I da Rússia usa a geopolítica. E, como um de seus assessores nesse campo é Aleksandr Gelyevich Dugin, é mister conhecer a obra dele para entender o que é a geopolítica do Kremlin na atualidade.

A aparência de Aleksandr Dugin lembra aquela de um patriarca ortodoxo russo, mas as semelhanças terminam por aí. Ele defende uma Eurásia com comando russo, ecoando a tese deHeartland de Mackinder. É um entusiasta das políticas expansionistas dos tzares e dos comunistas, bem como um conselheiro de Putin I da Rússia. Não é por acaso que Putin se aproxima da Igreja Ortodoxa Russa, comprando seu apoio com subvenções e privilégios: Dugin é a mente por trás disso. Ele é um fascista-comunista assumido, que defende o Nacional-Bolchevismo, uma surreal conjugação de grupos de extrema direita e de extrema esquerda na Rússia que se dizem inspirados pelos nazistas e pelos comunistas. Pois é. O teórico de Putin I é comunista e nazista. Em “A quarta teoria política”, sua obra mais influente, Dugin defende ser o sucessor da democracia liberal, do comunismo e do nazismo. Essa teoria, que ele não apresenta de forma clara, seria uma junção das virtudes de cada uma delas e seria aplicável por meio do neoeurasianismo que a Rússia parece estar retomando. Em “Missão Eurásia”, ele argumenta que o mundo nunca deixou de ser bipolar, em que pese o colapso do Império Soviético: para Dugin, há os Eurasianistas (que, não surpreendentemente, desejam a “liderança” russa) e os Atlanticistas (que, menos supreendentemente, são obrigados a se submeter ao jugo americano). Para Dugin, eurasianos e atlanticistas fatalmente entrarão em conflito porque os atlanticistas são expansionistas, ditatoriais e não respeitam a diversidade e a autodeterminação dos povos, recorrendo a atos de terrorismo para impor sua vontade. Apenas para ficar claro: para Aleksandr Dugin, esse é o Ocidente. Portanto, segundo o embasamento teórico do Kremlin, a Rússia nada mais faz do que defender os valores corretos na Crimeia e na Síria. Portanto, não há como se esperar que a Rússia haja diferentemente: a única forma de conter o expansionismo russo é por meio de confrontação direta, sem tergiversações, uma vez que eles já deram mostras de que recuam quando fica claro que perderão. Diante de ideias geopolíticas como a de Aleksandr Dugin, que parecem saídas de manuais do Século XIX, não é necessário criar novas teorias geopolíticas para contrabalançar: basta usar o que já existe, como a teoria da contenção de Spykman, e começar a agir o quanto antes.


Pedro Nascimento Araujo é economista.

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