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segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Ahab tucano. Por Pedro Nascimento Araujo


Ahab tucano

Talvez – e este é um talvez particularmente duvidoso – os tucanos tenham chegado, finalmente, ao quinto estágio do luto e, um ano após a derrota de Aécio Neves para Dilma Rousseff, estejam começando a se libertar de sua obsessão com o impeachment dela. Talvez. Para que o PSDB não se iguale ao PT na perda de credibilidade, é bom que o partido esteja realmente abandonando sua obsessão. Não que Dilma Rousseff esteja livre de um processo de impeachment caso as condições jurídicas dela permitam isso. Uma vez que as condições políticas para a permanência dela no cargo são péssimas no momento atual, basta uma centelha jurídica para que o mandato da atual ocupante da Presidência da República exploda como um paiol. Essa condição manter-se-á até o final dos dias de Dilma Rousseff no Palácio do Planalto: simplesmente, o elo que a ligava ao povo brasileiro se rompeu definitivamente. Politicamente, Dilma Rousseff é um ectoplasma com a robustez de um invertebrado gasoso e a densidade de um espectro rondando Brasília: assusta, mas não pode . Alguém precisa avisar ao PSBD que não se pode matar quem já está morto. É mera obsessão. A literatura tem muitos casos de obsessões que não acabam bem, mas há um particularmente adequado ao caso tucano: Ahab, o capitão obcecado que segue o cachalote Moby Dick no livro homônimo de Herman Melville.

Como ocorreu com Ahab em Moby Dick, a obsessão tucana cobra um preço alto: a própria sanidade. O velho Ahab vendeu tudo o que tinha para se lançar em uma jornada de vingança contra o cachalote Moby Dick, que já lhe havia imposto uma derrota, fisicamente impressa em uma perna mecânica. Ahab vai-se tornando uma pessoa obcecada que perde progressivamente sua humanidade. Um partido político obviamente não tem humanidade, mas tem valores, posições e referências – em outras palavras, enquanto uma pessoa perde sua humanidade, um partido político perde sua essência. E, quando a perde, torna-se uma pálida caricatura do que já foi. É muito comum associar o PMDB a um partido que perdeu sua essência, o que não é de todo errado: podemos apenas imaginar o que diria Ulysses Guimarães se ressuscitasse hoje e visse o que foi feito do glorioso MDB que ele fundou e que teve na anticandidatura de 1974 um momento épico. O PSDB, que, ironicamente, nasceu de uma costela desse mesmo PMDB para se distanciar da desvirtuação que seus fundadores já anteviam, andava trilhando pelo mesmo caminho e perdendo sua razão. O melhor exemplo foi dado pelo comportamento do partido nas votações em 2015 no Congresso Nacional. A posição do partido de ser contra o fator previdenciário não tem explicação lógica. Era Ahab se desfazendo de tudo o que tinha para caçar Moby Dick: obsessão. Para cassar Dilma Rousseff, o PSDB renegou sua própria essência. Ao fazer isso, o PSDB se aproximou demais da velha UDN, que, para prejudicar politicamente Getúlio Vargas, enfiou-lhe goela abaixo o monopólio estatal da Petrobras, algo que seu programa político jamais comportaria. E, assim, com incoerências, a UDN foi-se perdendo até desaparecer na poeira da história. Do mesmo modo, o PT seguiu um curso semelhante.

A derrocada do PT é muito comentada como fait accompli, como se fosse inevitável tal desfecho. Isso não é verdade. O PT teve inúmeras chances de mudar seu próprio destino – apenas, como a UDN antes dele, não quis fazê-lo. Preferiu se eternizar no poder e defender figuras como José Dirceu mesmo quando já estavam criminalmente bem claras as situações de figuras como ele. A favor do PT, diga-se que o partido fez tal transição suavemente. Entre o PT que se recusou a apoiar a Carta de 1988 e o PT que negou a existência do Mensalão se passaram duas décadas. Entre o PSDB que reclamava dos desmandos fiscais de Dilma Rousseff e o PSDB que apoiou novas farras fiscais não se passou sequer um ano. Não dá para se levar a sério um partido assim. O desmanche do PSDB foi muito mais veloz e muito mais profundo do que o desmanche do PT. Felizmente para os tucanos, também foi muito mais superficial. Chamado à razão por seus líderes históricos, o PSDB parece ter desistido de uma oposição nos moldes da UDN. Melhor para os tucanos. Ao colocarem seu partido como um ser sem escrúpulos, os caciques do PSDB se igualaram àqueles do PT. Simples assim. Emulam Ahab em sua caça a Moby Dick ao tentar cassar Dilma Rousseff. Vendem o que têm e o que não têm nessa sanha. Espera-se que o PSDB não caia nessa esparrela e volte a votar de acordo com o que a legenda defende como o interesse nacional em detrimento do interesse da legenda. Essa é a verdadeira grandeza. A conferir nas próximas votações se o PSDB é sério ou não: afinal, não há como ser a favor da responsabilidade fiscal no discurso e votar contra a responsabilidade fiscal na prática apenas para prejudicar um adversário. Casuísmos assim não são combinam com seriedades programáticas. O PSDB precisa urgentemente definir o que quer ser: ou um partido sério e consistente que pode perder votos no curto prazo exatamente por ser sério e consistente ou um partido oportunista. Ou um ou outro, pois são conceitos incompatíveis. O que é óbvio é que não há como ser ambos. Simplesmente, não há como isso acabar bem: o PSDB precisa descer do proverbial muro e definir seu caminho o quanto antes – se demorar muito, pode ser tarde demais. Em tempo: esse tipo de obsessão não tem como acabar bem na vida real. Aliás, não acabou bem nem na literatura – Ahab afundou com Moby Dick para nunca mais ser visto. Ou o PSDB passa a agir como um partido sério ou vai virar mais um Ahab.


Pedro Nascimento Araujo é economista.

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