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quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

A quarta chance - Por Pedro Nascimento Araujo


A quarta chance

Em Paris, o final da XXI Conferência das Partes (COP-21, na sigla em inglês) da Convenção-Quadro Sobre Mudanças Climáticas atingiu um resultado espetacular. A Cidade-Luz, que um mês antes havia sido tomada pelas trevas dos agentes do Daesh, ficará marcada também como o nome do pacto que encerrou a Era do Carbono, doravante conhecida como Era do Petróleo, que foi responsável por um avanço fenomenal para a humanidade. A onipresença do petróleo em nossas vidas era tal que cometemos usualmente o erro de pensar nele apenas como sinônimo de gasolina ou diesel. Nada mais distante da realidade. Na verdade, quando estamos dirigindo um automóvel em uma rodovia, a gasolina em nosso tanque é a menor parte. De fato, o asfalto da estrada é petróleo. O pneu do veículo é petróleo. Os lubrificantes do motor são petróleo. Todas as partes de plástico do carro são petróleo. As telas de refração das placas também são petróleo. As folhas do sanduíche que o motorista come foram adubadas com organoclorados de petróleo e usam pesticidas também baseados em petróleo. A própria embalagem do lanche que o motorista come despreocupadamente também é petróleo. Aliás, sem o diesel extraído do petróleo, nem o plantio, nem a colheita e nem o transporte do próprio lanche seriam possíveis. Obviamente, também há petróleo no sanduiche em si, na forma de corantes, conservantes, espessantes etc. E por aí vai: para aonde quer que se olhe com um pouco mais de atenção, fica imediatamente claro que o petróleo só não é mais onipresente do que Deus em nossas vidas – e, para os ateus, nem essa relativização pode servir de consolo... A partir de Paris, a humanidade combinou algo que, em retrospecto, soa bastante óbvio: parar de queimar um recurso finito e tão cheio de possibilidades e se concentrar em usá-lo para todas as outras coisas. Para a economia baseada em queima de carbono: obrigado. E adeus.

É curioso entender sobre como era o mundo antes do petróleo iniciar seu reinado. Cidades eram inviáveis sem automóveis. Em Nova York, três pés (algo em torno de um metro) de sujeira de cavalo se acumulavam nas guias das ruas todos os dias. As charmosas entradas com entradas elevadas por escadas são testemunhos de uma época na qual as pessoas literalmente escalavam montes de estrume antes de entrar em casa. Diariamente, dezenas de cavalos que quebravam as patas eram sacrificados por agentes públicos no meio da rua e suas carcaças eram deixadas nos cantos para serem recolhidas junto com o estrume ao final do expediente. Além disso, as casas eram iluminadas com óleo de baleia, o que ensejou a caça predatória aos grandes cetáceos. Sem plástico, embalava-se tudo em papel e cozinhava-se com lenha, fatores que ajudaram a dizimar florestas. Não, a humanidade sem petróleo não era melhor para o mundo. Porém, enamorados que estivemos com o hidrocarboneto, passamos a utilizá-lo para tudo, literalmente tudo. E resolvemos queimá-lo para produzir energia. Agora, chegou a conta na forma do efeito-estufa: o fim do caminho para a encarnação do petróleo (e do carvão também, bien sûr!) como combustível foi decretado em Paris.

Quando 188 nações se dispõem a aceitar abrir mão de usar petróleo e carvão como combustíveis, algo muito importante acontece: o tiro de partida para a corrida para estabelecer quais novas formas de geração de energia vão substituir os hidrocarbonetos foi dado de forma inequívoca. Conforme já vimos, o petróleo será usado nas formas mais inteligentes - basicamente, para a indústria petroquímica enquanto para o carvão restará uma inexorável e progressiva irrelevância para as próximas décadas. Tendo isso em mente, a questão que nos interessa é como o Brasil deveria posicionar-se diante desse cenário. Vamos recapitular: em Paris, o mundo decidiu que o petróleo como fonte de geração de energia pode acabar reduzido a zero até o final do Século XXI. Em outras palavras, com o petróleo paulatinamente sendo direcionado apenas para o uso petroquímico, vai sobrar petróleo – o “ouro negro” será rebaixado a bauxita: em bom português, o petróleo não mais será caro e não mais será fonte de poder para tiranetes. Por isso, em que pesem os discursos ufanistas acerca do pré-sal brasileiro, o mais provável é que não seja economicamente viável perfurar quilômetros de sal para extrair um recurso que pode ser facilmente bombeado a custos gritantemente inferiores das gigantescas reservas abaixo das areias sauditas em um cenário de abissal queda de consumo. A geração de energia no mundo será direcionada para fontes limpas. Assim, o Brasil precisa aproveitar a zeragem da corrida por fontes de energia. E, nesse ponto, as vantagens podem acorrer para as terras tupiniquins: há um conceito econômico bastante explorado nos meios acadêmicos chamado cadeias globais de produção e de valor. Basicamente, leva os preceitos econômicos clássicos de especialização e divisão internacional da produção, desenvolvidos a partir de Adam Smith por David Ricardo e outros (com destaque para o modelo de Hecksher-Ohlin), para a logística da globalização. Ou seja, países não se especializariam mais em produtos ou serviços, mas sim em etapas do processo de geração de valor. O exemplo de livro-texto para as cadeias globais de valor é a produção de aeronaves: cada componente é produzido em um país. Assim, o produto final da Embraer, por exemplo, conta com projeto brasileiro, motor americano, asa europeia etc. Essa lógica tende a prevalecer cada vez mais no mundo. E, por causa da CPO-21, essa lógica enseja uma oportunidade de ouro para o Brasil para ser o foco de energia da cadeia global de produção.

É um momento crucial. Ou agimos agora ou ficaremos para trás em mais uma revolução industrial. Seria uma inacreditável quarta vez em quatro séculos (circa 1760: I Revolução Industrial – baseada nas máquinas, aumentou a produtividade dos trabalhadores e levou os britânicos ao topo do mundo; circa 1850: II Revolução Industrial – baseada em comunicações e petróleo, levou americanos, alemães e japoneses ao rol dos países mais poderosos do mundo; circa 1970: III Revolução Industrial – baseada em informação, manteve os americanos na liderança e está em curso, com a redução de custos e o aumento de produtividade propiciados pela robotização e pela internet sendo seus mais visível efeitos) que perderíamos o bonde da prosperidade. Uma hipotética IV Revolução Industrial, baseada em fontes renováveis de energia, tem o potencial de mudar o mapa de geração de valor do mundo. Senão, vejamos. A chave para isso é entender a energia, notadamente sob a forma de eletricidade, como um insumo produtivo. Muitos dos produtos industriais mais importantes do mundo são intensivos no uso de energia. O caso mais emblemático é o do alumínio. Grosso modo, o que conhecemos como alumínio é a composição de três matérias-primas: óxido de alumínio (alumina processada, extraída da bauxita por refinamento), carbono e eletricidade. Em uma reação química (eletrólise), a eletricidade induz a quebra do óxido de alumínio para gerar alumínio puro (líquido) e gás carbônico. A eletricidade corresponde a um terço do valor do alumínio. Como a bauxita tem preços iguais em qualquer lugar do mundo (definido na Chicago Mercantile Exchange) e com o carbono não é muito diferente, será competitivo na produção de alumínio quem tiver menores custos de geração de eletricidade. Em uma economia baseada em petróleo ou carvão, África do Sul e Austrália são grandes produtores de alumínio porque geram energia basicamente por queima de petróleo e carvão, enquanto o Brasil tem uso bem maior de hidroeletricidade para produzir alumínio – não é exagero dizer que Tucuruvi foi construída para gerar energia para transformar a bauxita em alumínio e, com isso, o Brasil exportar o produto final de maior valor agregado ao invés da commodity. Em uma economia sem petróleo e carvão, sul-africanos e australianos estão automaticamente fora do jogo. A mesma lógica se aplica diretamente na cadeia produtiva do aço: exportamos minério de ferro, mas poderíamos exportar ligas de aço de altíssimo valor agregado usando nióbio (temos muitas reservas) e eletricidade. A lista é longa e inclui virtualmente todo produto processado industrialmente, inclusive alimentícios – com a tendência de disseminação da robotização, o diferencial de salários tende a diminuir e o custo da eletricidade passa a ser o fiel da balança na composição das cadeias globais de produção e de valor. Resumindo, é simples assim: quem for mais eficiente na geração de energia sem petróleo e carvão será ponto focal na logística mundial. E o Brasil tem potencias vantagens comparativas nesse aspecto: litoral sem incidências de tsunamis permite a geração maremotriz, ventos constantes são base para a energia eólica, ausência de atividade vulcânica permite uso de energia geotérmica, drenar mais de 20% da água doce de superfície do mundo permite um uso hidroelétrico sem similar no mundo, ter a maior parte do país nas faixas tropical e equatorial é uma dádiva para a energia solar, grandes reservas de urânio asseguram fornecimento autônomo de combustível nuclear etc. As possibilidades estão dadas e são enormes. O Brasil tem a chance única de se preparar para ser o ponto focal de logística na produção de bens intensivos em energia: basta envidar esforços para desenvolver tecnologia nessa área, aonde seriamos um dos poucos países a unir capacidades técnica e material. Se fizermos isso a contento, seremos líderes mundiais na IV Revolução Industrial, cujo passo inaugural foi dado em Paris na última semana, quando se encerrou a COP-21. Simplesmente, não podemos nos dar ao luxo perder a quarta chance de liderar uma Revolução Industrial. A julgar pela média histórica, a próxima será apenas no Século XXII. Se já estamos atrasados demais agora, não é bom sequer pensar como seríamos com mais um século de atraso nas costas.


Pedro Nascimento Araujo é economista.

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