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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Chicken game eterno. Por Pedro Nascimento


Chicken game eterno

A Petrobras está em queda livre, mas ninguém ainda fala em risco de falência da empresa. É bem verdade que cada ação da empresa vale 15% do que valia em seu ápice (2008). Uma situação como essa já seria suficiente para acender alertas de falência em quaisquer outras empresas em quaisquer outras situações – mas estamos falando da estatal de petróleo do Brasil, cujo sócio principal é o governo – e esse é um sócio que, por mais falido que esteja, sempre pode socializar o prejuízo e usar dinheiro do povo para salvar a maçã dos seus olhos: o governo já insinuou a possibilidade de fazer uma “recapitalização” da empresa. Mesmo considerando-se isso, o cenário é tenebroso – e fica ainda pior quando se sabe que o prognóstico de médio prazo não é nem um pouco animador. O petróleo está em queda livre no mundo, com o barril arriscando chegar à marca de 20 dólares (menos de 20% do que valia há pouco mais de dois anos), situação que, se confirmada e mantida por muito tempo, faria o Brasil simplesmente parar de bombear petróleo e passar a importar tudo o que consome. Em bom português: a Petrobras acumularia prejuízo atrás de prejuízo com os investimentos já realizados, algo que nem a venda de derivados (gasolina, querosene de aviação etc.) a preços exorbitantes conseguiria cobrir. Em bom português: com o barril a 20 dólares, a Petrobras passa a correr um risco não desprezível de falir. Todavia, se os proverbiais sheiks realmente estiverem em um chicken game (uma brincadeira na qual quem desviar o olhar primeiro perde) eterno contra o resto do mundo, eles podem levar o barril até 10 dólares daqui até o fim da Idade do Petróleo. Aí, a Petrobras estaria quebrada. E não seria a única.

O mundo do petróleo mudou muito de 2007 para cá, quando foi anunciada a descoberta das reservas de óleo leve na camada de pré-sal. Primeiramente, o barril chegou a 140 dólares naquele ano – hoje, caminha para 20 dólares. Com o petróleo tão valorizado, havia apenas uma coisa a se fazer: buscar produzir mais petróleo. Para países como a Arábia Saudita, bastaria abrir as torneiras dos seus gigantescos campos petrolíferos. Sabiamente, os sheiks não o fizeram para não inundar o mercado e manter a cotação em alta. Mas a Arábia Saudita perderia a supremacia exatamente por conta do alto preço: nos Estados Unidos, pequenas empresas começaram a explorar o petróleo não convencional (folhelho) por meio do fracionamento rochoso. No Canadá, as areias betuminosas de Alberta passaram a ser literalmente cozidas para retirar o óleo que estava grudado nelas. No Brasil, quilômetros de sal passaram a ser vencidos na busca por reservas de óleo leve. Na Venezuela, o óleo ultrapesado da Bacia do Orinoco (que demanda um refino extremamente caro) começou a ser explorado pela atavicamente ineficiente estatal local. Com o barril a mais de 100 dólares, todas essas formas de exploração tornaram-se economicamente viável. E o resultado foi direto: os EUA assumiram a liderança na produção mundial de hidrocarbonetos no ano passado. Obviamente, pensar a América como um petroestado nada mais é do que uma piada geopolítica que ilustra bem a força da inovação americana: a partir deste ano, os EUA recomeçaram a exportar petróleo – algo que não faziam há quatro décadas, na esteira das medidas de proteção que se seguiram ao I Choque do Petróleo. Muita produção, pouca demanda (EUA produzindo mais do que consomes e China crescendo cada vez menos): como ensina qualquer livro-texto de economia, isso resulta invariavelmente em queda do preço.

E aí entra a situação da Petrobras. As estimativas mais aceitas pelo mercado situam o custo de produção da estatal brasileira entre 40 e 60 dólares por barril. Com isso, um barril cotado a 20 dólares é prejuízo de grande monta. Evidentemente, há casos piores: na Venezuela, estima-se que o custo de produção supere 90 dólares por barril. O próprio óleo de folhelho americano é viável, em média, a partir de 50 dólares, enquanto as areias canadenses custam quase 100 dólares por barril. Os sheiks sabem disso – e sabem também que o custo de produção deles é estimado em 5 dólares, no máximo. Ou seja, ainda há gordura para se cortar: um barril a 10 dólares é perfeitamente possível, embora tornasse o petróleo um monopólio do Oriente Médio: Arábia Saudita, Irã, Iraque, Kuwait e Emirados Árabes Unidos controlariam virtualmente todo o comércio mundial de petróleo – e teriam lucro de 100%. Uma conta de bolso, levando-se em conta um consumo anual de 35 bilhões de barris (previsão para 2016, quase 100 milhões de barris por dia), vendidos a 10 dólares e com custo de produção de 5 dólares, aponta para 175 bilhões de dólares de lucro em um ano. Nada que deixe uma nação milionária da noite para o dia, mas mais do que suficiente para quebrar todos os demais grandes produtores mundiais: EUA, Rússia, Nigéria, Venezuela etc. – e Brasil. Essa é a essência do suposto chicken game que os sheiks estão jogando. Eles perderam o protagonismo no mercado mundial de petróleo que tinham desde 1966, quando os americanos pararam de comandar os preços e estavam em vias de perdê-lo novamente, exatamente pela reentrada dos americanos na exportação. Em que pesem as divergências entre eles, o fato é que [e perfeitamente possível que Arábia Saudita, Iraque, Irã, Kuwait e Emirados Árabes Unidos fiquem juntos nessa ideia de quebrar todos os demais concorrentes.

Como sói ocorrer em casos como esse, há também reveses bastante plausíveis. O mais básico de todos: o mundo não vai mais ficar na dependência dos sheiks. Já aprendeu essa lição a duras penas nos anos 1970. Mesmo que o barril chegue a 10 dólares, todo país vai manter uma produção mínima, ainda que perdendo dinheiro, para, quando e se necessário for, poderem recuperar a autossuficiência em pouquíssimo tempo. Isso é fato. Mas, além disso, há outro fator a se pesar: desde o Protocolo de Paris, sabemos que o petróleo está entrando na sua fase de declínio. Pode demorar meio século ou mais, mas o hidrocarboneto vai progressivamente deixar de ser usado para queima. Em outras palavras, a tendência de longo prazo da demanda é de inexorável queda. Por isso, o que parece ser uma grande ação de dumping por parte dos sheiks pode ser apenas o reconhecimento de que o fim da Era do Petróleo começou. O vaticínio pode ter vindo de Paris, mas a melhor definição foi dada naquele longínquo 1973, ano em que o sheik Zaki Yamani, então Ministro do Petróleo da Arábia Saudita, disse que “assim como a Idade da Pedra não acabou por falta de pedra, a Idade do Petróleo não vai acabar por falta de petróleo.” Era a Casa de Saud sinalizando que o reino entendia que, por conta de pressões ambientais, boa parte das reservas mundiais de petróleo simplesmente não será retirada do subsolo – e isso mais de uma década antes do Protocolo de Paris. Se esse fator se confirmar, a queda de preços pode durar até o final da chamada Idade do Petróleo: os países produtores vão usar suas vantagens comparativas (sim, isso é David Ricardo na veia!) para dominar o mercado e manter os preços baixos até o ocaso do hidrocarboneto. Nesse cenário, as ações da Petrobras e de todas as demais petroleiras que não sejam as dos produtores com vantagens comparativas (Arábia Saudita, Iraque, Irã, Kuwait e Emirados Árabes Unidos) não verão senão quedas e mais quedas: em algum momento, quebrarão – e apenas serão mantidas com verbas públicas por questão de soberania petrolífera em um mundo que, cada vez menos, dependerá de petróleo. Por mais estranho que possa parecer, as ações da Petrobras, em que pese terem caído 85%, ainda estão sobrevalorizadas em um cenário de chiken game eterno entre os sheiks e o resto do mundo.


Pedro Nascimento Araujo é economista.

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