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terça-feira, 22 de março de 2016

Obama em Havana. Por Pedro Nascimento Araujo


Obama em Havana

Barack Obama tantas fez que conseguiu um feito histórico. Ao chegar ontem (20-Mar-2016) em Havana para a primeira visita oficial de um presidente americano a Cuba desde 1928, ele demonstrou um inequívoco comprometimento dos Estados Unidos com a América do Sul e o Caribe. Com apenas um gesto, acabou com um poderoso pretexto para o antiamericanismo que grassa na região. A questão cubana era sempre invocada para acusar os americanos de imperialismo, embora uma análise mais detida revele que o assunto é muito mais complexo: nenhum dos dois é mais vítima do que verdugo. Ainda assim, a reaproximação entre Washington e Havana traz muitas possibilidades para ambos os lados. Para os americanos, significa oportunidades de negócios. Para os cubanos, mais um passo rumo ao mundo liberal.

Aos poucos, a cinquentenária ditadura cubana vai dando paulatinos sinais de fadiga, que combate com a truculência de sempre. Horas antes da chegada de Obama a Havana, dezenas de pessoas que protestavam por mais liberdade foram presas. Um lembrete claro de que a democracia está longe do cotidiano cubano, mas também um lembrete claro de que as pessoas hoje não correm mais o risco de ir para o malfadado El Paredón, como nos tempos em que Fidel Castro e Ernesto Che Guevara davam as cartas na ilha caribenha. O que a ditadura dos Irmãos Castro pretende fazer em sua ilha particular não é segredo. A ideia é sair do comunismo como sistema econômico – e só. A ditadura seria mantida, como na China e no Vietnam. Os Irmãos Castro sabem que não há mais como manter o falido sistema comunista. Eles querem a todo custo evitar uma implosão no estilo da que levou ao colapso da União Soviética em 1991. Na verdade, vinham fazendo ensaios nesse sentido desde o fim da Guerra Fria, mas apenas por questões pragmáticas: a mesada soviética que mantinha o regime acabou. Porém, quando Caracas substituiu Moscow como mecenas de Havana, a velocidade das mudanças retrocedeu. É interessantíssimo como sístoles e diástoles da distensão em Havana dependem da necessidade de dinheiro. Com o Palácio Miraflores sem condições sequer de manter-se, e quem dirá bancar os Irmãos Castro por propaganda ideológica, restou a Havana voltar-se para a Casa Branca. E a Casa Branca respondeu ao chamado. Mas, com Washington, a moeda de troca é outra: democracia.

Barack Obama está disposto a mudar Cuba. Não fala abertamente sobre isso, mas o preço de autorizar a irrigação da ilha com dinheiro privado americano é esse: democracia. Barack Obama conta com o fato de saber que é um símbolo poderoso: um negro na presidência americana. Isso tem um peso particularmente alto em Cuba, país que tem um terço da população de origem negra – e nenhum negro nos altos cargos do governo cubano, um constrangimento pouco explorado pelos detratores da ditadura dos Irmãos Castro que a mera presença de Obama evoca. Ele sabe que inspira os cubanos que buscam mais liberdade. E, como Obama sabe o que os cubanos buscam, não pretende repetir o erro que Richard Nixon cometeu quando “abriu” a China; ou seja, Obama não quer que a “abertura” de Cuba sirva para dar sobrevida capitalista a uma ditadura comunista. Um momento crucial será o discurso que ele fará ao vivo e sem censura para os cubanos. Espera-se que ele fale sobre direitos humanos. Espera-se que ele critique as arbitrariedades da ditadura cubana para os cubanos. Seria uma cena impensável há poucos anos. Espera-se, enfim, que ele faça o que dele espera-se. Todavia, ao fazer isso, Barack Obama estará expondo-se para críticas. O que é positivo. As principais críticas a que estaria exposto dizem respeito ao embargo econômico e ao status da prisão militar de Guantánamo. Ambas as críticas são válidas. É preciso que se diga que o embargo econômico não surgiu à-toa: foi uma reação a nacionalizações de ativos de americanos em Cuba sem pagamentos de indenizações. Uma medida correta, portanto. Mas, depois de mais de 50 anos, tornou-se simplesmente uma medida anacrônica, um fóssil ambulante da Guerra Fria. E, principalmente, hoje não é mais do que um obstáculo para que as empresas americanas invistam em Cuba. A expectativa é de que as mesmas pressões empresariais que levaram à decretação El Bloqueo em 1962 levem à suspensão dele em um futuro próximo. Por fim, há a questão da prisão militar de Guantánamo. A ocupação americana no local é decorrente da Guerra Hispano-Americana de 1898, que levou à independência de Cuba. Um tratado firmado poucos anos depois determinou que os EUA alugariam o local indefinidamente, a não ser que desistam. O valor anual é de pouco mais de quatro mil dólares – e os americanos pagam regularmente. Ou seja, Guantánamo não deve voltar a Cuba, mas o principal problema de lá é a prisão militar com detidos sem processo formal. Uma das promessas de campanha de Obama (nas duas eleições que ele venceu) era fechar a prisão, mas ele não conseguiu cumprir até agora. A existência da prisão de Guantánamo é uma mancha na tradição de defesa da liberdade e dos direitos humanos que caracterizam os Estados Unidos e Barack Obama. Como a existência de Guantánamo é uma crítica que ele faz repetidamente, é lícito supor que é uma que ele aceitaria ouvir. Ou seja, Obama pode terminar a semana com uma memorável ação dupla: uma pregação por mais direitos humanos em Cuba e nos Estados Unidos. Obama em Havana promete.


Pedro Nascimento Araujo é economista.

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