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terça-feira, 26 de abril de 2016

Crônica: "Barata-voa" por Pedro Nascimento


Barata-voa

Muito se escreveu sobre os últimos dias de Adolf Hitler no bunker construído sob a Chancelaria (“Reichskanzlei”) em Berlim, o infame Führerbunker (literalmente, “Casamata do líder”). De algum modo, o que ocorria nos últimos dias do nazismo a quase 10 metros abaixo da superfície e protegido por paredes de três metros diz tanto sobre o regime de terror que tomou a Alemanha e o mundo de assalto quanto o que ocorria nos campos de batalha. As derradeiras decisões de Hitler são uma aula sobre a esquizofrenia do poder. Magistralmente retratados no cinema em 2004 pelo diretor Oliver Hirschbiegel no clássico filme Downfall (“A queda! – as últimas horas de Hitler”, no nada surpreendentemente prolixo título em português), os acontecimentos narrados pela jovem secretária particular de Hitler mostram que as últimas decisões do III Reich foram insanas. Pelo que se depreende da leitura das memórias de Traudl Junge (a secretária que narra os eventos), Hitler estava com sua proverbial paranoia em estado inédito, alternado momentos de euforia com momentos de depressão, ambos absolutamente desproporcionais e desligados da realidade. Um traço comum a governantes arrogantes em situação de queda iminente, como Lula da Silva e Dilma Rousseff no momento atual. Obviamente, não há aqui qualquer insinuação de tentativa de comparar um dos maiores genocidas que a humanidade já produziu com nossos atavicamente incompetentes líderes (ou líder, uma vez capacidade de liderança não é uma característica do currículo de Dilma Rousseff). Todavia, é forçoso reconhecer que o comportamento de completo descolamento da realidade e de alternância de momentos de euforia e de desespero nas derradeiras decisões é um traço comum entre Adolf Hitler, Lula da Silva e Dilma Rousseff. Isso e um fenomenal barata-voa de seus aliados, mais preocupados com seus próprios futuros do que com o destino de um líder que não mais lidera.

O Führerbunker foi um prodígio da sempre prodigiosa engenharia alemã. De lá, Adolf Hitler poderia comandar uma das mais fabulosas máquinas de guerra que o mundo já viu em ação. Tanto que, para derrotar os alemães, foi necessário juntar as duas superpotências ascendentes (Estados Unidos e União Soviética), uma superpotência decadente (Reino Unido) e um sem-número de potências de menor calibre. Para se ter uma ideia, o sistema de comunicação e comando dos alemães era tão eficiente que permitiu que as inúmeras ordens militarmente irracionais de Hitler chegassem aos teatros de guerra a tempo de fazer os nazistas perderem batalhas cruciais, como em Stalingrado, ponto de inflexão da guerra. Aliás, para entender a dimensão do efeito das paranoias expressadas por teimosias transformadas em trapalhadas do cabo austríaco que virou comandante-em-chefe dos militares alemães, uma leitura excelente é o livro Stalingrad, de Antony Beevor, um historiador militar britânico especializado em II Guerra Mundial. Portanto, doFührerbunker emanavam as decisões naquele abril de 1945, quando os americanos já haviam estacionado as tropas no limite combinado com os soviéticos e quando os soviéticos ocupavam os subúrbios de Berlin. Aliás, Antony Beevor também é autor de Berlin 1945, um pungente livro no qual narra as atrocidades cometidas pelo Exército Vermelho em território alemão – estupros, saques e execuções – realizadas com o beneplácito dos comandantes soviéticos. Então, enquanto os soviéticos literalmente barbarizavam na superfície, Hitler barbarizava no subsolo: ele falava em reviravolta e vitória. Suas tropas estavam derrotadas. A defesa de Berlin foi confiada a jovens e crianças doutrinadas em lavagens cerebrais, em um dos mais vergonhosos crimes dos nazistas – algo notável em um regime que se caracterizou por competir com o comunismo pelo título de regime mais cruel jamais implementado. Ainda assim, ele falava em contra-ataques. Em vitória. Mas não era necessariamente uma negação no estilo clássico das negações de realidade sistematizadas pela psicologia. Não, não era a primeira das cinco fases do luto de Elisabeth Kubler-Ross. Antes de ser uma autonegação, uma negação para consumo interno, era uma negação para consumo externo, uma negação para manter seus comandados animados. Uma negação que essencialmente nada mais foi do que um show de animação farsesco, como a que fez Lula da Silva após ter sido conduzido para depor: em um discurso que mais parecia um delírio, o ex-presidente repetiu o comportamento de Hitler nos últimos dias do Führerbunker. Ao se comparar a uma jararaca, na já clássica declaração (“Se tentaram matar a jararaca, não bateram na cabeça. Bateram no rabo. A jararaca está viva!”) feita diante de seus acólitos, Lula da Silva jogou para sua torcida. É justo registrar que Traudl Junge jamais testemunhou Adolf Hitler se comparando a uma cobra peçonhenta, mas Lula da Silva foi além. Conclamou seus áulicos ao combate. Como Hitler dando ordens aos seus generais remanescentes e suas tropas esfarrapadas e com equipamento depauperado para que virassem a guerra contra o mundo, Lula da Silva ordenou à sua claque que partisse para o combate em defesa do governo de Dilma Rousseff, mesmo com ela tendo o apoio de apenas um em cada 10 brasileiros. Dilma Rousseff é importante notar, está 100% alheia à realidade. Ela simplesmente ainda não percebeu que seu governo já acabou e é mera questão de quando terá seu final formal: se no último dia de 2017 ou antes. Pouco importa: o governo dela já acabou, ainda que ela arraste correntes até o final. É uma ex-presidente em exercício. Que, se levar a cabo o plano de transformar Lula da Silva em Chefe de Governo de facto, nem mais isso será.

A parte do desespero não poderia estar pior. A mera ideia de tornar Lula da Silva um ministro – em qualquer ministério – é sintomática do quão sem poder Dilma Rousseff está desde que fez “o Diabo” (sic) para vencer as eleições de 2014. Sua atávica incompetência está por trás da gênese da crise que a transformou na presidente mais fraca desde Deodoro da Fonseca, o homem que não queria derrubar o Imperador, mas “apenas” derrubar o Gabinete Ouro Preto e que, cego de cólera pelo falso rumor de que seu eterno desafeto Gaspar Silveira Martins havia sido escolhido por Dom Pedro II para formar o novo Gabinete, se deixou ser levado pelos conspiradores que perpetraram o Golpe da República, há 125 anos. Dilma Rousseff conseguiu a nada invejável proeza de ser mais fraca do que Hermes da Fonseca ou Arthur Bernardes, que enfrentou sublevações militares graves e, na prática, foi tutelado pelo Congresso Nacional durante seu mandato. Conseguiu, enfim, ser mais fraca do que João Goulart, que só pôde assumir o Palácio do Catete depois que seus poderes foram esvaziados por meio de um parlamentarismo de ocasião. Solução, aliás, que vem sendo aventada em Brasília para o caso de ela, sabe-se lá como, conseguir cumprir os mais de 30 meses que ainda lhe restam. Fraquíssima, sob qualquer aspecto – eis o resumo do que é Dilma Rousseff à frente de seu natimorto segundo mandato. A ocorrência ontem das maiores manifestações populares já registradas no Brasil são a proverbial pá de cal que sela o enterro simbólico de um governo que, de resto, é um incômodo espectro a arrastar correntes nas madrugadas do Palácio do Planalto. Como Adolf Hitler no Führerbunker, Dilma Rousseff está isolada, solitária e delira com o poder que não mais tem. Presa no Palácio do Planalto, ela está sitiada por uma rejeição popular recorde, de quase o Brasil inteiro, e por um meio político que abertamente se ocupa de decidir como tirá-la do poder de jure e, principalmente, de negociar quem e como a substituirá. De fato, tão logo os cardeais do Congresso Nacional decidam qual será o futuro, jogarão o que restará de Dilma Rousseff de algum penhasco. Ato contínuo, automático, emotions out; afinal, o governo dela já apodrece há muito.

Preso no Führerbunker, Adolf Hitler estava sitiado por tropas de quase o mundo todo. Barata-voa por toda a Alemanha. A imbatível Alemanha de 1939 tornou-se um monte de escombros naquele abril de 1945. Perdera todos os territórios que havia conquistado. Os americanos já estavam administrando sua parte ocidental. O Exército Vermelho chegava aos jardins da Reichskanzlei, abaixo dos quais estava o Führerbunker, deixado um rastro de atrocidades: expulsavam os judeus dos campos de concentração para utilizá-los no massacre de seus próprios prisioneiros de guerra, saqueavam tanto em nível pessoal (tudo, de louças a obras de arte) quanto em nível estatal (fábricas e laboratórios, notadamente os mais avançados, como os de estudos químicos, espaciais e, claro, nucleares, com técnicos, cientistas e pesquisadores incluídos, eram simplesmente trasladados para além dos Montes Urais) e estupravam sistematicamente mulheres e crianças, como não se via na Europa desde que a Grande Armée napoleônica havia barbarizado o continente mais de um século antes. Não havia escapatória para Adolf Hitler. Ainda assim, antes de se suicidar, ele dava ordens estapafúrdias que ninguém fora do Führerbunkercumpria. E, nos últimos dias, mesmo no Führerbunker havia pessoas aderindo ao barata-voa. Uma ordem estapafúrdia que, guardada as devidas proporções, poderia ter sido dada no Führerbunker, foi a inacreditável trapalhada de nomear Wellington Lima e Silva para o Ministério da Justiça. Por restrição constitucional, ele não poderia assumir o cargo se não renunciasse à carreira pública. Ainda assim, fora nomeado Ministro da Justiça. Foi nomeado, mas não assumiu: o Supremo Tribunal Federal imediatamente colocou a nomeação de Lima e Silva (vale lembrar, um ato discricionário da Presidência da República) sub judice. Instado a optar entre o cargo de Procurador de Justiça (BA) e cargo de Ministro da Justiça do moribundo governo de Dilma Rousseff, Lima e Silva foi mais um a optar pelo barata-voa, em mais uma prova cabal de que simplesmente não há governo no Brasil; afinal, um governo zumbi não inspira otimismo algum em pessoa alguma. Para terminar, Lula da Silva, aquele que Dilma Rousseff delira imaginando ser a tábua de salvação para seu iminente afogamento está mais para jacaré do que para tábua – ou jararaca, para ficar em um réptil que parece ser-lhe mais caro. Lula da Silva está fugindo do juiz Sérgio Moro como uma barata foge de um chinelo: por mero reflexo condicionado. Os discursos de Lula da Silva podem ter animado seus fiéis, mas animaram também seus adversários. Tivesse ele permanecido calado, muito provavelmente Lula da Silva e Dilma Rousseff não teriam o nada invejável título de alvos do maior protesto da história nacional. Quando dez milhões de pessoas saem às ruas em todos os estados brasileiros para pedir o fim do governo do PT, fica claríssimo que o governo do PT já acabou. Quando o Congresso Nacional ignora o governo do PT enquanto decide qual governo sucederá ao governo do PT, fica claríssimo que o governo do PT já acabou. Quando Dilma Rousseff dá ordens tão esdrúxulas que torna-se possível compará-las às derradeiras ordens de Adolf Hitler no Führerbunker, fica claríssimo que o governo do PT já acabou. Quando a única solução que o governo do PT propõe é chamar Lula da Silva, um homem que está na iminência de ser preso, para ser seu plenipotenciário Chefe de Governo de facto, em um bizarríssimo autogolpe parlamentarista, fica claríssimo que o governo do PT acabou já acabou. E, por fim, quando Lula da Silva se dispõe a embarcar na canoa furada e sem capitão que é o governo Dilma Rousseff menos para remendá-lo e comandá-lo e mais para evitar ser preso, fica claríssimo que o governo do PT já acabou. Barata-voa por todos os cantos. Barata-voa para todos os lados. Barata-voa para aonde quer que se olhe. Barata-voa nos derradeiros momentos de Dilma Rousseff e Lula da Silva. Eis a melhor definição para o que estamos testemunhando no fim formal do governo do PT, marcado por decisões insanas: barata-voa.


Pedro Nascimento Araujo é economista.

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