Leal Porto

Leal Porto

RESTAURANTE DA PONTE

RESTAURANTE DA PONTE
"O lugar certo de comer peixe" - Em cima do Mercado Municipal do Peixe (22) 2647-5341

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Dilma Pinotti. Por Pedro Nascimento Araujo


Dilma Pinotti

Dilma Rousseff está vivendo os piores dias de seu segundo governo desde que seu segundo governo começou. Na verdade, seria mais correto dizer que ela os vive desde antes do início do seu segundo governo. O ponto de inflexão foi o Junho de 2013, com os colossais protestos de rua que tomaram o Brasil de assalto e a classe política de surpresa. Naquele momento, ficou patente que a reeleição dela seria complicada, mas ninguém imaginava que o sucesso seria alcançado a um custo tão alto. De fato, as pedaladas para esconder o real estado da economia foram tão absurdas que fizeram lembrar a tristemente famosa foto de Tancredo Neves em 25 de março de 1985, exatos dez dias após a data prevista para a posse dele como o primeiro civil a comandar o país em 21 anos. O responsável pela farsa foi o chefe da equipe médica, Henrique Walter Pinotti. Como se sabe, não adiantou esconder a verdade e Tancredo Neves jamais viria a receber alta. Assim como Henrique Walter Pinotti, Dilma Rousseff foi artífice da tentativa de manter a economia brasileira viva com base nas aparências durante seu primeiro mandato. O resultado é conhecido: a verdade veio à tona avassaladoramente durante seu segundo mandato. Como Henrique Walter Pinotti, Dilma Rousseff preferiu insistir no erro e matar o paciente a admitir que havia errado. Pinotti nunca se livrou da sombra do erro que cometeu com Tancredo, convivendo com questionamentos acerca de suas atitudes até o final da vida. Rousseff, por sua vez, nos deixou uma sombra gigantesca: pelas previsões mais recentes, a economia brasileira só começará a se recuperar após 2018 – ou seja, quando acabar o período previsto para o segundo mandato dela. A plausibilidade de Dilma Pinotti, uma hipotética junção de duas almas comandadas e flageladas pela vaidade, é o que tentaremos demonstrar a seguir.

É interessante pensar na analogia entre Rousseff e Pinotti, mas antes alguns senões têm de ser colocados. Primeiramente, Henrique Walter Pinotti era um homem competente em sua área de atuação. Catedrático de cirurgia na Universidade de São Paulo, Pinotti era uma sumidade acadêmica – ao menos até a patacoada com o presidente eleito. Dilma Rousseff, por sua vez, não tem o que mostrar nessa área, exceto a vergonhosa falsificação de um doutorado que nunca teve no Currículo Lates. Aliás, também não tem o que mostrar como executiva – na única experiência administrativa real que teve, faliu a lojinha. Por isso, a comparação de carreiras é injusta para com Pinotti. Todavia, a comparação de atitudes é perfeita. Pensemos nos momentos cruciais. Primeiro, em 25 de março de 1985. Naquele momento, um médico como Pinotti já sabia que Tancredo estava morrendo por conta do erro que cometera. Ainda teria salvação se algo fosse feito, mas isso significaria admitir que o grande catedrático errou. Talvez Pinotti tenha pensado que isso seria muito pior do que deixar um paciente definhar, mas não há como se saber ao certo. O que se sabe é que nada foi feito. Ou melhor, Pinotti deliberadamente preparou uma foto no melhor estilo soviético para parecer que o paciente estava bem. À direita de Tancredo, sua esposa o abraçava; à esquerda dele, um sorridente Henrique Walter Pinotti, gastroenterologista responsável pela equipe médica que os ladeava, parecia apoiar seu braço atrás de Tancredo Neves. Na verdade, Tancredo estava ligado a muitos equipamentos industriais na hora da foto. Mais do que isso: o próprio Pinotti segurava atrás de Tancredo uma bolsa de sangue oculta que estava mantendo vivo o sedado paciente, conforme relatado por Luis Mir em “O Paciente – o caso Tancredo Neves”. Tancredo Neves foi erroneamente diagnosticado por Pinotti e sua equipe como tendo uma apendicite. Ao abrir o paciente, Pinotti e sua equipe notaram que ele tinha um tumor e resolveram operar na hora, embora não fosse necessário para um paciente da idade dele. E, pior, erraram na sutura (algo que, se algum aluno dos multidiplomados médicos fizesse, seria motivo de reprovação sumária) a ponto de fazer Tancredo literalmente sangrar até a morte – ou melhor, até o sistema imunológico dele enfraquecer-se a ponto de sucessivas moléstias oportunistas levarem ao óbito por falência múltipla de órgãos. Em suma, não haveria como o resultado ser outro exceto a morte do paciente: Pinotti errou no diagnóstico e errou na solução. E, pior, para não admitir seus erros, adotando comportamentos irresponsáveis. Nesse ponto, Henrique Walter Pinotti e Dilma Rousseff se igualam, em que pese terem trajetórias tão díspares. Ambos erraram no diagnóstico. Ambos erraram na solução para o diagnóstico errado. E ambos não admitiram seus erros, adotando comportamentos irresponsáveis. A plausibilidade de Dilma Pinotti está, portanto, justificada pelo lado Henrique Walter Pinotti. Falta, no entanto, justificar pelo lado Dilma Rousseff.

A economia de um país é frequentemente comparada ao corpo de uma pessoa. De fato, há regras de ouro que se aplicam a ambos. Se uma pessoa adotar um comportamento de risco (tabagismo, obesidade, alcoolismo etc.), mais cedo ou mais tarde sua saúde vai sofrer os efeitos deletérios. Para algumas pessoas, a conta demora mais a chegar por diversos fatores, como predisposição genética – mas, invariavelmente, mais cedo ou mais tarde, ela chega. Algum gatilho fará com que o organismo desequilibrado entre em colapso. O mesmo vale para a economia. Se um governo começa a adotar comportamentos inadequados, a economia não vai sofrer no dia seguinte. Pode demorar um, dois, cinco e até mais anos, mas, em algum momento, a economia desequilibrada não mais aguentará os abusos e entrará em colapso. E, assim como para as pessoas, o período de recuperação dependerá diretamente da extensão dos danos. Nesse ponto, podemos dizer que Dilma Rousseff fez o pior possível. A malfadada Nova Matriz Macroeconômica, termo que vem imediatamente à cabeça quando se pensa nos descalabros econômicos de Dilma Rousseff, é como o diagnóstico errado de apendicite que Tancredo Neves recebeu de Henrique Walter Pinotti. Um desastre, sem dúvidas – mas não um desastre irreversível. A sutura errada que deu origem à hemorragia interna insolúvel de Dilma Rousseff foi a gestão econômica a partir de 2013, não por acaso após os massivos protestos. Falamos, claro, das infames “pedaladas fiscais” que permitiram que foram sangrando paulatinamente a economia nacional, tanto no aspecto factual da deterioração fiscal quanto no componente psicológico da perda de credibilidade. O resultado era mais do que esperado: chegaria uma hora em que não seria mais possível sustentar tal descalabro. Dilma Rousseff sabia disso, assim como Henrique Walter Pinotti sabia que havia condenado Tancredo Neves quando comandou a desastrada sutura. Mas Dilma Rousseff e Henrique Walter Pinotti compartilham um traço nefasto de personalidade: fazem parte de um tipo de pessoas que se consideram superiores, à beira da infalibilidade. São pessoas que não admitem seus erros em hipótese alguma – e ainda atacam quem quer que os aponte. Como se não bastasse ser tratado como “doutor”, o catedrático Pinotti exigia que o termo antecedente do seu nome fosse sempre “professor-doutor”. Evidentemente, as semelhanças com alguém que se recusa a utilizar “senhora presidente” e aceita apenas “senhora presidenta” saltam à vista. Mas o argumento central que justifica Dilma Pinotti pelo lado Dilma Rousseff não é esse. O argumento central é que Dilma Rousseff fez sua versão da foto de 25 de março de 1985: sua campanha à reeleição em 2014 foi uma mentira capaz de fazer inveja a Henrique Walter Pinotti. Como o médico, a presidente sabia que havia feito sangrar quem deveria proteger, mas não se abalou: ela escondeu os tudo (fios, cabos, tubos, canos etc.) para apresentar ao Brasil um retrato tão farsesco da economia nacional quanto aquele que Henrique Walter Pinotti comandou em 1985. Deu certo e ela venceu a reeleição. Porém, a inconsequente e egoísta postergação da ação necessária deixou vítimas, tanto no caso de Tancredo Neves quanto no caso do Brasil. Após uma recessão recorde de 4% do PIB em 2015, o FMI já trabalha com número semelhante para este ano, o que, caso seja confirmado, faria com que fosse o pior período da economia nacional desde sempre. Pior: as previsões de uma recuperação em 2017 já estão sendo abandonadas. Agora, o horizonte de começo de recuperação é 2018. Já ficou claro que a sombra dos erros de Dilma Rousseff no primeiro mandato simplesmente vai cobrir todo o seu segundo mandato (isso, supondo que ela sobreviva aos processos de cassação de seu mandato em curso em dois dos três poderes republicanos) e ela não cogitou admitir qualquer tipo de participação no desastre que ela criou. Exatamente como Henrique Walter Pinotti, Dilma Rousseff errou no diagnóstico, errou na solução e, não satisfeita, escondeu seus erros. Isso evidencia o quão semelhante a Henrique Walter Pinotti ela é. Portanto, Dilma Pinotti é factível. Quod Erat Demonstrandum.


Pedro Nascimento Araujo é economista.

0 comentários:

- |