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segunda-feira, 9 de maio de 2016

O último desejo da pata de macaco de Dilma Rousseff. Por Pedro Nascimento


O último desejo da pata de macaco de Dilma Rousseff

Assim que o primeiro turno das eleições presidenciais de 2014 aconteceu, citamos (06-Out-2014) um conto de William Jacobs chamado “A pata do macaco” para analisar o cenário que se delineava. Dado que o conto não é muito popular no Brasil, uma pequena digressão faz-se mister. Em “A pata do macaco”, Jacobs conta a triste sina da família White. O patriarca, um típico oficial vitoriano a serviço da Coroa na Índia, toma posse de uma pata de macaco que realiza três desejos a quem a possuir. Seu dono anterior a atirou ao fogo após ter pedido como derradeiro desejo a própria morte – algo que deveria ter despertado suspeitas no resoluto Mr. White, mas, se o fez, elas foram rapidamente obnubiladas pela cobiça. Mr. White fez à pata um primeiro desejo franciscano: a quantia exata para quitar sua hipoteca. E a pata atendeu-lhe: o valor do seguro de vida de seu filho único correspondia exatamente ao que ele pedira, com o rapaz sofrendo um acidente fatal na hora em que seu pai formulou o pedido. Uma semana depois, a pedido da esposa, Mr. White gastaria o segundo desejo para pedir o filho vivo de volta à casa. Dito e feito. Todavia, quem bateu insistentemente à sua porta foi o cadáver putrefato há uma semana do que havia sido o filho do casal. Conquanto as batidas do defunto em sua porta não cessavam, Mr. White gastou seu último desejo pedindo a morte do filho. A obra de Jacobs resume-se em um conselho muito comum nos países de língua inglesa: deve-se tomar muito cuidado com o que se deseja. Quando o primeiro turno de 2014 acabou, Dilma Rousseff provavelmente arrependeu-se do que tanto desejou à sua metafórica pata de macaco: ao destruir Marina Silva, tornou inevitável a até então altamente improvável aliança entre ela e Aécio Neves. Primeiro desejo, primeira maldição. Então, ela gastou seu segundo desejo para vencer Aécio Neves. Venceu, mas, como sói ser quando a pata de macaco age, o custo é impagável: desde a vitória, Dilma Rousseff comanda um governo natimorto. Ela conseguiu a nada invejável proeza de desagradar tanto a quem não votou nela quanto a quem votou nela, chegando ao estágio atual: presidente mais rejeitada pelo povo brasileiro da história e responsável pela maior depressão econômica da história brasileira. Seu governo, em suma, é desastre ambulante – e com um metafórico último desejo na mais metafórica ainda pata de macaco.

Primeiramente, não há porque imaginar que Dilma Rousseff usaria sabiamente seu último desejo em nossa paródia do conto de William Jacobs. É improvável que ela tenha a lucidez dos donos anteriores e peça para que seu governo há muito acabado de facto finalmente acabe de jure. Objetivamente falando, não há governo central no Brasil atual. As decisões políticas e econômicas de Dilma Rousseff são um desastre completo. Economicamente, o Brasil já está vivendo uma nova Década Perdida – e há risco de ela durar bem mais de uma década. Mais do que isso: em alguns indicadores, regredimos mais de duas décadas. Sua incompetência atávica será sentida gerações após ela ter desaparecido do mundo político. Seu legado político resume-se a apenas um consenso: Dilma Rousseff não tem mais condições de comandar sequer uma loja de R$ 1,99 (nesse caso, não é metáfora: na única vez em que se aventurou a fazê-lo, faliu a loja – em retrospecto, algo que deveria ter merecido mais atenção por parte dos eleitores), quanto mais um país de 200 milhões de pessoas. De fato, certamente não há salvação para o governo de Dilma Rousseff. Senão, vejamos. Com ridículos 10% de aprovação popular, Dilma Rousseff só teria uma forma de governar: fazendo reformas estruturais ortodoxas fortíssimas, que geralmente levam a popularidade de quem as propõe a patamares não muito acima dos que ela exibe agora. Todavia, para tentar se manter no cargo, ela toma medidas opostas e recorre ao populismo rastaquera, flertando novamente com a irresponsabilidade fiscal – a mesma base legal para o atual processo de impeachment contra ela em curso no Congresso Nacional. Na prática, Dilma Rousseff está penhorando o futuro dos brasileiros para manter seu cargo, engajando-se em uma barganha capaz de fazer a pata de macaco de William Jacobs soar pueril. Se estivéssemos no campo penal, diríamos tratar-se não de um movimento suicida, mas de um homicida – ou genocida. E, ainda assim, o resultado final é o mesmo: Dilma Rousseff não terminará seu mandato, ocorra o que ocorrer. Com o final trágico indelevelmente inexorável, a experiência da pata de macaco recomenda usar o último desejo para se ter um fim menos sofrido. É a racionalidade que se espera que Dilma Rousseff tenha, mas que, por experiência, se sabe que ela não terá.

A racionalidade é direta. Suponhamos que Dilma Rousseff consiga impedir que o primeiro processo de impeachment tenha êxito em destituí-la. Nesse caso, ela ficaria tributária do apoio dos setores políticos mais radicalmente à esquerda – além, por óbvio, dos fisiologistas de plantão, cujas lealdades são absolutamente fiduciárias. Todavia, a realidade não é um palanque em um palácio com uma claque de audiência. Se sobreviver ao primeiro processo de impeachment, sob pena de falir oficialmente o Brasil, Dilma Rousseff terá de fazer exatamente o que os 10% que a apoiam não querem que ela faça: reformas estruturais ortodoxas extremamente profundas. Em bom português: reforma fiscal, reforma monetária, reforma previdenciária, reforma trabalhista etc. – ou seja, reformas econômicas, tanto na microeconomia quanto na macroeconomia e na economia pública. Reformas liberais, para sintetizar na palavra que provoca calafrios nos 10%. Com isso, o último apoio que ela tem ruirá como uma pirâmide de cartas ao vento. Um novo processo de impeachment (muito provavelmente o apresentado pela OAB) certamente ganharia força no Congresso Nacional – e, no caso em tela, seria turbinado pelos que impediram que o primeiro processo lograsse êxito. Afinal, em um cenário como o descrito, estaria configurado o virtual consenso que varreria Dilma Rousseff da vida política brasileira para sempre, não sem antes aprofundar e prolongar o sofrimento do povo brasileiro por longos, dolorosos e, principalmente, desnecessários meses – uma vez que o final será o mesmo. É bem possível, ainda, que o processo de cassação de sua chapa corra em paralelo no Superior Tribunal Eleitoral, levando a um desgaste de proporções épicas; de fato, não se tem registro de um chefe de Poder que estivesse concomitantemente sendo cassado pelos outros dois Poderes em processos distintos. Seria a suprema humilhação para ela, mas Dilma Rousseff, lunática como Hitler no bunker em 1945, continua a negar a realidade, como se estivesse eternamente presa à primeira das cinco fases do modelo de luto de Elisabeth Kubler-Ross, sem conseguir jamais evoluir na escala. Ou a uma maldição da pata de macaco, talvez dissesse William Jacobs a respeito dela. Em qualquer cenário que se trace, o final é o mesmo: tudo converge para Dilma Rousseff politicamente morta antes do final do seu mandato. O Brasil não tem mais tempo, dinheiro ou paciência para aturar por mais 30 meses uma incompetente que arrasta correntes há 18.

Não há mais salvação para Dilma Rousseff. O custo imposto ao país por sua insana – e inútil – tentativa de aferrar-se ao poder é tão elevado que dois dos três Poderes decidiram se juntar para, dentro das normas constitucionais, retirar a ocupante do Poder disfuncional. As patéticas tentativas de pespegar uma estampa golpista a um movimento previsto na Constituição e que, por sua excepcionalidade, exige que dois Poderes estejam de acordo, não pode ser considerado golpe exceto por vis tentativas de desqualificar tanto oimpeachment quanto a inteligência dos brasileiros – afinal, os que defendem essa tese apresentaram inúmeros pedidos de impeachment contra absolutamente todos os governos dos quais não participaram. A coisa é tão patética que se chegou a cunhar uma expressão que bem poderia fazer parte de 1984, a clássica obra de George Orwell: “golpe constitucional” é uma verdadeira pérola do Doublethink, uma perfeita expressão de Newspeak – uma contradição per se. Eis o nível de distopia a que chegou o governo de Dilma Rousseff. Com um desejo sobrando na pata de macaco, o racional seria desejar que o primeiro processo de impeachment acabasse com sua vida política. Dessa forma, ela ainda poderia tentar posar de vítima de um surreal “golpe constitucional” (Orwell deve estar se retorcendo de inveja no túmulo por não ter incluído essa expressão em sua obra-prima) e, com sorte, ser esquecida pelos brasileiros. Mas, não: Dilma Rousseff insiste em arrastar 200 milhões para o abismo por mera veleidade. Por conta da mais mesquinha avareza em relação ao cargo ao qual foi conduzida pelo voto popular, Dilma Rousseff está hipotecando um país. Ainda há tempo para ela se dar conta de que ela perde em todos os finais racionalmente possíveis. Ainda há o terceiro desejo da pata de macaco. William Jacobs não previu final para quem ainda não dá sinais de ter aprendido a lição, mesmo depois de testemunhar por duas vezes que é muito sábio tomar cuidado com o que se deseja. O governo de Dilma Rousseff em geral e Dilma Rousseff em particular constituem uma situação tão irracional que nem mesmo a melhor ficção considera crível a existência de tal nível de insanidade. Dilma Rousseff está tentando escrever um novo final para o último desejo de sua pata de macaco – um final no qual a personagem não aprende com os erros e não usa o poder para fazer cessar a maldição. Oxalá ela não consiga, pois fica cada vez mais claro que somo nós as vítimas dos usos insanos que ela faz dos desejos de sua nem tão metafórica assim pata de macaco.

Pedro Nascimento Araujo é economista.
nascimentoaraujo@hotmail.com

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