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segunda-feira, 27 de junho de 2016

Michel, o Claudicante. Por Pedro Nascimento Araujo


Nomes de batismo são mais do que as preferências dos pais. Todos eles têm significados e simbolismos que, por vezes, ficam perdidos na areia do tempo. Tome-se Iago como exemplo. Na origem, Iago é uma variante de “Jacó” e faz alusão à figura bíblica. Uma origem certamente digna. Depois, em “Otelo”, William Shakespeare tornou Iago sinônimo da perfídia, com sua descrição de um obcecado que manipula e mente deliberadamente com muita habilidade. Por muito tempo, os pais evitavam batizar um filho como Iago. E eis que, atualmente, Iago voltou a ser um nome relativamente comum – e poucas pessoas associam o nome à sinistra personagem shakespeariana. Michel é o nome de batismo do presidente ainda não efetivado no cargo. Para Temer, os pais escolheram o nome do arcanjo guerreiro, comandante das falanges celestes. Michel, em hebraico, significa “semelhante a Deus”. Bela origem. Todavia, a se julgar por algumas ações que Michel Temer tomou em sua primeira semana no Palácio do Planalto, talvez os pais tivessem acertado mais se tivessem escolhido Claudio para batizá-lo. Claudio significa alguém que manca, hesita. Uma pessoa que não é firme em suas decisões. Enfim, uma pessoa que claudica.

Com sua indecisão na montagem do ministério, Michel Temer passou uma perigosa imagem de fraqueza. Começou pela própria indefinição acerca de quantos ministérios seu governo teria, depois dos absurdos quase 40 ministros de Dilma Rousseff. Em um balão de ensaio, Temer vazou que teria uma quantidade de ministérios que seria compatível com a quantidade de prédios na Esplanada dos Ministérios. Ou seja, cortaria pela metade o total de ministros. Depois, com as legendas de aluguel cobrando cada vez mais caro pelo apoio parlamentar, outro balão de ensaio dizia que Michel Temer cortaria algo entre três a cinco ministérios. Essa sugestão foi pessimamente recebida pela opinião pública às vésperas da aprovação do processo de impeachment na Câmara dos Deputados. Afinal, se era para mudar quase nada, ficava difícil convencer a sociedade acerca da necessidade de trocar a pessoa que dá expediente no terceiro andar do Palácio do Planalto. E então Temer voltou atrás e reduziu as pastas para pouco mais de 20. O número é inexato de propósito – ao final de sua primeira semana no poder, o nascente governo de Michel Temer deu a mais patética sinalização de fraqueza e quiçá de um misto entre demagogia e necessidade de aprovação pueril: recriou o Ministério da Cultura, que havia há poucos dias fundido ao Ministério da Educação. Nunca um governo recém-empossado se mostrou tão pateticamente claudicante.

A fusão, a recriação ou a extinção do Ministério da Cultura não são o ponto mais importante. Afinal, o fato de se ter um ministro a menos ou a mais, em si, não afeta muito o pantagruélico estado brasileiro. E, além disso, é possível se ter uma política cultural péssima com ministério e uma política cultural excelente sem ministério – e vice-versa – e, no Brasil, já tivemos exemplos de tudo no comando da política cultural nacional, de Gustavo Capanema a Marta Suplicy. Ou seja, estritamente falando: Michel Temer pode fazer sua política cultura com ou sem um ministro da Cultura. A decisão dele, depois das já tradicionais claudicadas, foi pela recriação do Ministério da Educação e da Cultura, o tradicional MEC. Nesse momento, Temer estava afinado com o sentimento da amplíssima maioria da população brasileira, que enxerga no hipertrofiado número de ministros uma metonímia do gigantesco estado nacional. Menos ministérios significa, no mais direto entendimento popular, menos gastos do governo – e, portanto, menos impostos e mais dinheiro no bolso. Porém, menos de uma semana depois, Michel Temer deu a maior das claudicadas. Ativistas políticos contrários ao impeachment viram na recriação do MEC uma bandeira para mobilizar artistas também contrários ao impeachment e dar-lhes palanque. Dito e feito.

Com a espontaneidade milimétrica de uma cena inúmeras vezes repetidas, artistas de renome começaram a protestar. Declarações contrárias ao novo governo espocaram nas mídias. A emblemática sede do MEC no Rio de Janeiro, o Palácio Capanema, foi ocupado e faixas de protesto foram espalhadas. Cantores famosos fizeram shows nas ocupações, avalizando-as nada tacitamente. Todos se diziam contra a política cultural de Michel Temer. É bem verdade que, com uma semana de governo, Michel Temer nem mesmo tinha uma política cultural que pudessem criticar, mas aparentemente ninguém atentou para esses detalhes. Afinal, esses artistas são contrários ao impeachment e, portanto, contrários a qualquer coisa que Michel Temer faça – aliás, ainda que ele fosse o próprio arcanjo Miguel disfarçado de homem e se revelasse comandando a vitória das forças celestes na apocalíptica batalha contra Satanás, esses artistas não o aprovariam simplesmente porque são contrários ao impeachment e ponto final. Por isso, não faz qualquer sentido a decisão claudicante Temer tomou de recriar o recém-extinto posto de ministro da Cultura. Ao fazer isso, Michel, o Claudicante deu mais do que a mais ridícula prova de que seu apodo é apropriado. Ele tentou fazer uma demagogia rasteira e inútil com a parcela da classe artística que nunca o apoiará. Gastar dinheiro público para adular pessoas que não gostam dele é uma demonstração de insegurança juvenil que não combina com um governo que tem tão numerosos desafios na proa. Michel, o Claudicante cedeu à pressão de alguns artistas e não vai ganhar um iota de apoio desses artistas em retribuição: eles são contrários ao governo Temer n’importe quoi. Aliás, não seria de se estranhar se, agora que perceberam que Michel Temer não é firme, ativistas e artistas contrários ao impeachment resolverem aumentarem as ocupações com o intuito de tumultuar a vida política do governo de Michel, o Claudicante. Com esse início vacilante, ele anda fazendo por merecer.


Pedro Nascimento Araujo é economista.

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