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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Deixando de ser a esquina do mundo. Por Pedro Nascimento


Há pouco mais de dois anos, Mossul (Iraque) tornou-se o que definimos como a “esquina do mundo”, pois o que acontecesse lá repercutiria em todo o globo. Eram os dias da tomada da segunda maior cidade iraquiana pelo então Estado Islâmico do Iraque e da Síria – após algumas mudanças na nomenclatura, o então ISIS é hoje conhecido internacionalmente por Daesh, seu acrônimo em árabe. A conquista de Mossul foi o ato simbólico que marcaria a maior expansão dos jihadistas. Como sói ser nesses casos, em retrospecto é possível ver que o zênite nada mais era do que o prenúncio do nadir: desde que tomou Mossul, o Daesh não mais experimentou uma ascensão fulminante sequer; do contrário, foi sendo paulatinamente fulminado. A iminente perda de Mossul tem contornos de início do fim para o Daesh. A esquina do mundo está em vias de deixar de ser santuário de terroristas islâmicos, uma boa notícia per se – e os antigos problemas voltarão à ordem do dia em uma região que está longe de ser estável. Mossul está para deixar de ser esquina do mundo: após sua retomada das mãos do Daesh, voltará a ser apenas mais uma cidade em um país ainda se recuperando de graves violências sectárias.

Em meados de 2014, quando Mossul passou para controle do Daesh, o mundo tomou um choque. Parecia natural que Bagdá fosse o próximo alvo. Naquela época, o Daesh crescia sem parar na Síria, aproveitando-se da guerra civil que opunha – e ainda opõe – o ditador hereditário Bashar al-Assad a grupos pró-democracia inspirados pelos ventos da Primavera Árabe. A brutal repressão de al-Assad para manter-se no cargo foi o fator de desestruturação do país, o que permitiu ao Daesh controlar áreas próximas à fronteira com o Iraque, enquanto Bashar al-Assad concentrou-se em garantir o controle de Damasco a qualquer custo. Entrar na parte iraquiana de um virtual Curdistão foi fácil para o Daesh, uma vez que o Iraque até hoje não consegue formar um governo que seja entendido como não-sectário por todos – uma tarefa que pode demandar muito sangue antes de todos aceitarem ceder, a julgar pela experiência do Líbano no mesmo assunto – e as forças armadas do país parecem-se mais um amontoado de milícias cujas lealdades religiosas e tribais são mais fortes do que a hierarquia. Controlando Mossul, a estrada para Bagdá parecia uma tentação irresistível: o Daesh agora tinha endereço (Mossul), renda (saques dos bancos e venda clandestina de petróleo), armas (abandonadas na fuga pelas forças armadas iraquianas em menor número) e homens (recrutamentos forçado e voluntário). Os americanos haviam irresponsavelmente abandonado o Iraque após todo o esforço para pacificar o país depois da deposição de Saddam Hussein – um dos maiores erros de política externa de Barack Obama, um presidente que passa a incômoda sensação de ser mais interessado em aplausos do que em qualquer outra coisa. Sem Washington de fiador, Bagdá poderia, sim, cair. Se o Afeganistão, um estado falido, ao cair nas mãos de terroristas já foi o suficiente para viabilizar algo do tamanho do 11 de Setembro, o medo do que não poderá ser viabilizado com o Iraque nas mãos do Daesh foi mais do que suficiente para o mundo se mexer. O resultado é que a retomada de Mossul está a caminho.

Porém, retomar Mossul não significa muito além da própria retomada de Mossul. A ameaça de o Daesh há vir a tomar Bagdá – e, por extensão, o Iraque, há muito deixou de ser crível: os jihadistas estão perdendo financiamento, armas, recrutas, território. No horizonte visível, não há muita opção para o Daesh além de voltar a ser um grupelho terrorista como tantos outros que pululam no caos do Oriente Médio e são instrumentalizados pelos tiranetes de plantão tão endêmicos naquelas plagas. Porém, a operação de retomada de Mossul permite um vislumbre do que será a região em um futuro mais distante, quando as fronteiras traçadas em plena Grande Guerra (o Acordo Sykes-Picot, de 1916, replicava o modelo do Século XIX, no qual a hegemonia colonial franco-britânico era a regra) já não mais forem a regra. E nesse futuro há lugar para um hipotético Curdistão, mas também há lugar para um Iraque democrático e multicultural. A atuação dos peshmergas, guerreiros curdos, é fundamental. No arranjo pós-Saddam, os curdos ganharam uma autonomia inédita. Para garantir que Bagdá não os massacraria novamente, foi estabelecido em lei que as forças armadas iraquianas não poderiam atuar na região autônoma curda sem expresso consentimento do governo local – um claríssimo indicativo do tamanho das desconfianças entre sunitas, xiitas e curdos. E eis a suprema ironia: o sunita Daesh, que estimula o sectarismo em todos os seus atos (massacra, além de outros ramos do Islã, como xiitas e curdos, sunitas que não aceitam sua liderança), acabou por reduzir involuntariamente as tensões sectárias porque, para combatê-lo, sunitas, xiitas e curdos estão lutando lado a lado – e recebem de bom grado o apoio de cristãos. Com tudo isso, parece ser inexorável que Mossul vá se ver livre do Daesh em breve. E, tão logo isso aconteça, Mossul deixará de ser esquina do mundo e voltará ao esquecimento. Já não era sem tempo. Dois anos de domínio do Daesh já são castigo demais para uma vida inteira.

Pedro Nascimento Araujo é economista.
nascimentoaraujo@hotmail.com

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