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terça-feira, 22 de novembro de 2016

Esfinge topetuda. Por Pedro Nascimento Araujo


Donald Trump venceu as eleições presidenciais americanas. Contrariando quase todas as expectativas, o dono do mais famoso combover do mundo assumirá como o 45º presidente americano em pouco mais de dois meses. Muito se especulará sobre as razões da vitória dele – inclusive que foi mais uma derrota de Hillary Clinton do que propriamente uma vitória de Donald Trump – e muito se falará sobre tudo o que ele fizer durante os próximos quatro ou oito anos. É justo, porque o topetudo Donald Trump é um fenômeno político que tomou o mundo de assalto e vai passar a ser o chefe de governo e de estado dos Estados Unidos da América, simplesmente o país mais rico e poderoso do mundo. Donald Trump, todavia, é uma esfinge: na ausência de um histórico político, tem-se declarações políticas que são marcadas por inconsistência e, não raro, incoerência. Donald Trump é associado ao conservadorismo republicano, mas ele não é um republicano histórico: seria mais correto dizer que ele está republicano e que o verdadeiro Donald Trump é uma esfinge em vias de ser decifrada: em breve, saberemos se ele realmente é um republicano. Aparentemente, sim – com todas as contradições expostas a seguir e muitas mais que descobrimentos ao longo de seu período na Casa Branca. Vamos analisar as contradições da esfinge topetuda em duas áreas, economia (que interessa mais aos americanos do que ao resto do mundo) e relações internacionais (que interessa mais aos resto do mundo do que aos americanos).

Economicamente falando, uma característica definidora do Partido Republicano em termos econômicos é a defesa do liberalismo. Nesse sentido, virtualmente todos os presidentes republicanos advogam por menos intervenção estatal. Os republicanos defendem como ninguém os valores do puritanismo cristão que são a base moral dos EUA: trabalho duro e honesto merece ser recompensado e prosperar é dever de cada pessoa – o ethos da sociedade americana é a quintessência da ética protestante que Max Webber definiu como o espírito do capitalismo. Para os republicanos, o governo deve limitar-se a garantir que trapaceiros não vinguem e a arbitrar conflitos – e isso inclui combater gratuidades ou quaisquer legislações que possam reduzir a livre iniciativa. Um republicano tem como mantra jamais interferir na economia e, principalmente, garantir que os mais eficientes serão financeiramente recompensados por sua eficiência, em um processo que Schumpeter definiu como “destruição criativa”. Na economia, Donald Trump é mais esfinge do que nunca. O topetudo defende meritocracia a ponto de gabar-se diuturnamente de ter trabalhado duro e virado bilionário graças ao seu trabalho, vendendo-se como uma prova viva de que o sonho americano existe – noves fora o fato de ter recebido um polpudo cheque do pai como capital inicial, o fato é que Donald Trump construiu um império. Portanto, aparentemente temos nele um perfeito, mas só até a quarta página: durante a campanha, ele defendeu uma retomada dos empregos industriais nos Estados Unidos. E aí reside uma questão controversa. O discurso de Trump foi entendido como um compromisso para trazer de volta os empregos industriais que migraram para países como México e China – e o candidato, que domina a mídia e o entende os anseios populares, tratou de reforçar essa percepção. Ocorre que o empresário Trump sabe que não é economicamente viável fazer isso acontecer: seria necessário fechar a economia (para efeitos didáticos, vamos supor que ele pudesse denunciar acordos comerciais sem a aprovação congressual e que tais acordos não tivessem em cláusulas restritivas em seus corpos), o que, obviamente, elevaria sobremaneira os preços de produtos e serviços para os americanos – trata-se da mais básica das identidades econômicas: se os custos de produção aumentam, o preço final aumenta. Sem choro nem vela, esse é o resultado esperado de uma guinada protecionista patrocinada por Trump para aumentar o emprego industrial: inflação. Mas pode não ser isso. Trump é sagaz o suficiente para saber que há uma revolução silenciosa em curso no setor industrial, cujo resultado deve ser exatamente o retorno das indústrias aos países centrais. Basicamente, a automação demanda níveis elevadíssimos de tecnologia na indústria e, ao tornar o capital mais preponderante, tende a reduzir as vantagens comparativas decorrentes de salários menores em países como México e China. Com isso, para as indústrias passa a compensar voltar para países com técnicos de alta qualidade (como os EUA), que terão suas produções industriais aumentadas, mas os empregos industriais não voltarão, ao menos não para as pessoas com baixa qualificação – todavia, com o retorno das indústrias, tais pessoas poderão trabalhar no setor terciário para atender às indústrias. Sem que Trump precise mover uma palha sequer, é possível que ele consiga cumprir (ainda que parcialmente) sua promessa de trazer indústrias de volta à América – e sem sair do receituário clássico, que inclui redução de impostos e de gastos públicos, inclusive as despesas com o complexo industrial-militar, conforme veremos a seguir. Ou seja, Trump pode se provar um republicano de almanaque na economia, implantando um liberalismo muito bem-vindo em um país que se mostrou perdulário do começo do milênio até agora. Decifrar essa parte da esfinge topetuda é o maior interesse dos americanos.

A outra área crucial é a política externa. Um presidente dos Estados Unidos da América é mais um chefe de estado do que um chefe de governo. País forjado no sistema inglês, os EUA optaram por não ter um monarca, mas mantiveram seus presidentes extremamente tolhidos pelo parlamento, que tem a palavra final sobre virtualmente tudo: na prática, presidentes americanos que têm mais semelhanças com monarcas britânicos do que com ditadores africanos – e com mais funções de chefia de estado do que de chefia de governo, essencialmente na política externa. Trump falou demais sobre o assunto antes das eleições, trazendo-o para o âmago dos debates presidenciais. Essa não é uma característica de países de grande território, grande população e grande economia e em tempos de paz – e os EUA se encaixam nos quatro casos. A regra é tratar de assuntos domésticos, como vimos nos debates entre Dilma Rousseff e Aécio Neves – as perguntas de populares tratavam de assuntos do cotidiano próximo de cada um; ninguém falou sobre política externa. Os EUA têm uma tradição isolacionista extremamente arraigada: basta lembrar que, quando Hitler e Stalin começaram a II Guerra Mundial, o país tinha um contingente militar menor do que o da então Tchecoslováquia. Após 1945, o país decidiu manter tropas ao redor do mundo para evitar ser atacado mais uma vez, uma decisão que foi ditada pelas necessidades do momento. E, mesmo após o colapso do Império Soviético, os americanos ainda mantêm mais de 100 mil militares em quase 150 países, com equipamento caríssimo à disposição, combustível, alimentação etc. nas mais de 800 bases fora do território americano. Trump tocou em um ponto nevrálgico ao questionar por que o Tio Sam precisaria pagar essa conta sozinho. Se há dezenas de milhares de soldados americanos defendendo o território de países ricos como Alemanha, Japão e Coreia do Sul, nada mais justo que esses países dividam a despesa. Foi um alvoroço quando ele falou isso, mas é uma medida pragmática: não há mais União Soviética, China e Coreia do Norte não vão atacar Japão e Coreia do Sul. Isso reduziria sobremaneira os gastos com o complexo industrial-militar. Claro que houve outras polêmica e gafes, como com o México (sugerindo que o país vizinho deveria pagar por parte do muro que ele pretende construir na fronteira sul) e com os muçulmanos, por exemplo. Mas, no frigir dos ovos, houve muito barulho, mas não se sabe ainda se ele será isolacionista de factoquando assumir. Isso porque Donald Trump vem falando em mandar tropas para a Síria para combater o Daesh e em tomar ações dissuasivas perante o Irã, o que faz supor um aumento da presença militar americana no exterior. Até 20 de janeiro, muita coisa vai ficar mais clara. É sempre bom citar o caso de Ronald Reagan e dos reféns na embaixada americana de Teerã em 1979: literalmente na véspera da posse do republicano, os aiatolás optaram por ordenar a libertação dos reféns após 444 dias de cativeiro ao invés de se arriscarem a pagar para ver se era ou não real a possibilidade de Reagan ordenar uma invasão do país persa para buscar os americanos – a propósito, era. Assim, enquanto Obama é o inquilino do número 1600 da Avenida Pensilvânia, Bashar al-Assad simplesmente ri das “linhas vermelhas” e coisas do tipo; todavia, a volta dos republicanos deixa muitas barbas de molho. De agora em diante, ele será testado de todas as maneiras, por amigos e inimigos para saber se ele é como Obama nesse assunto ou se deve ser levado a sério. E, ao final das contas, decifrar esse outro enigma da esfinge topetuda é o que mais interessa ao resto do mundo. Decididamente, de tédio não sofreremos nos próximos anos.

Pedro Nascimento Araujo é economista

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