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segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Dois antipríncipes presos. Por Pedro Nascimento Araujo


William Shakespeare eternizou o triste destino dos Príncipes da Torre, como ficaram conhecidos Eduardo e Ricardo, filhos de Eduardo IV da Inglaterra. O ano era 1483 e Ricardo III, tio dos meninos que contavam 9 e 11 anos respectivamente, mandou trancá-los na Torre de Londres. Os meninos nunca mais seriam vistos após a prisão e a versão segundo a qual Ricardo III, que havia sido designado protetor dos príncipes, os assassinou para garantir sua usurpação do trono inglês é a mais aceita pelos historiadores (contribui para isso o fato de duas ossadas de crianças terem sido encontradas escondidas em uma capela no local dois séculos depois) e a mais popular, por conta da peça Ricardo III, uma das mais célebres do bardo de Stratford-upon-Avon: é nessa obra que Shakespeare incluiu a famosa frase “Meu reino por um cavalo!”, dita por um Ricardo III à beira da derrota na Batalha de Bosworth Field (a morte dele, o último plantageneta, marcaria o fim da Guerra das Rosas em 1485, com a ascensão da Casa Tudor), em uma das mais marcantes passagens sobre a fragilidade da sordidez humana jamais escritas. A inocência dos dois príncipes é contrastada com o frio calculismo de Ricardo III e o monstro parece mais monstruoso nesses momentos. Saindo do final da Idade Média inglesa e chegando ao Rio de Janeiro contemporâneo, encontramos dois antipríncipes encarcerados no mesmo presídio. Aliás, é mister que se diga que Anthony Garotinho e Sérgio Cabral estão presos a partir de processos distintos – mais ainda, por justiças distintas. Pouco importa. Testemunhar dois ex-governadores do Rio de Janeiro serem presos na mesma semana é algo inédito e marcante, sem dúvidas, mas também é um sintoma inequívoco de que ninguém está acima da lei – ao menos, em tese. Os dois antipríncipes estarem presos não é prenúncio de uma tragédia; antes, é sinal de uma redenção, embora ao final do cárcere, ao contrário do que aconteceu com os príncipes, cada um deva encontrar um caminho diferente diante de si.

Comecemos por Anthony Garotinho. Estamos talvez diante do último fenômeno de massas na política brasileira. Garotinho é um líder comunicativo incontestável. Com Leonel Brizola morto e Lula da Silva perigosamente próximo de uma prisão por corrupção, Garotinho era o último líder popular de facto. Na cidade do Rio de Janeiro o nome de Garotinho (e, por extensão, de sua família) enfrenta rejeições cavalares, mas no resto do estado não é assim. Na verdade, Garotinho é muito popular até hoje no interior, mesmo estando fora do governo há uma década. Não é por acaso: durante os governos dele e de Rosinha Garotinho, o interior foi bastante prestigiado – não apenas com obras, mas também (e há quem diga que principalmente) com atenção do governador. Garotinho é um ás no trato pessoal. Mesmo os mais ferrenhos desafetos dele reconhecem que há nele um carisma inegável e uma forma de lidar com as situações – mesmo as mais adversas – que faz com que convergências sejam encontradas de uma maneira ou de outra. É um político que pecou muito por ser passional demais e pragmático de menos no seu zênite, um erro que não teve remédio nem com a maturidade: Garotinho sabe que nunca mais será uma liderança nacional capaz de disputar o Palácio do Planalto competitivamente como fez em 2002, mas sabe também que se manterá uma liderança estadual até o final da carreira e, por isso, centrou esforços em construir uma sólida rede de apoio que o defendeu até agora. Até agora – e apenas até agora: a prisão dele mudou tudo. Poucas imagens são mais marcantes do que um político indo parar atrás das grades. Quando se trata de um ex-governador, mais ainda. Quando se trata de Garotinho, que comanda Campos dos Goytacazes como um coronel de há mais de um século, nem se fala. Aliás, qualquer boa olhada em Campos dos Goytacazes serviria para provar que o jugo de Garotinho nada tem de leve ou de suave: a cidade, campeã de arrecadação de royalties nos anos de bonança, não tem legado para mostrar – é uma cidade com as mazelas de há mais de um século. O mundo político sabe que Garotinho é um político do século retrasado, com práticas do um século retrasado, que mantém Campos dos Goytacazes no século retrasado. Mas os políticos do interior gostam dele assim mesmo, em boa parte por causa do jeito de século retrasado com que ele trata todo mundo – especialmente quando olharam para o Palácio das Laranjeiras e viram lá como Sérgio Cabral, o outro antipríncipe preso na semana passada, os tratava: como um príncipe do milênio passado. Assim, Garotinho goza da simpatia dos políticos e de quem quer que tenha convivido com ele: mesmo discordando, os políticos tendem a ser mais condescendentes um político que os trata bem e cumpre com a palavra. Claro que a prisão dele reduz o escopo de líder estadual (que já era uma redução de líder nacional) para líder municipal. Garotinho continuará a ser um nome de peso, embora cada vez menor: sua prisão foi por crime eleitoral – crime, claro, mas longe de ter o peso político de crime de corrupção. Tal fato (caso não haja posteriores prisões por corrupção, bien sûr!) soma-se ao histórico político dele para permitir afirmar que o antipríncipe Garotinho manterá relevância política após sair de Bangu 8, ainda que menor devido à própria prisão. Decididamente, não é o caso de Sérgio Cabral, que goza da antipatia generalizada – que ele fez por merecer, diga-se, com muito esforço: o antipríncipe Sérgio Cabral não terá relevância alguma na política após sua prisão.

Sérgio Cabral só não é o maior estorvo político que o Brasil já viu porque é impossível competir com Dilma Rousseff e Lula da Silva: por definição, estorvo estadual empalidece diante de estorvo federal. Sérgio Cabral é a versão política do sujeito que é bem-apessoado, bem-nascido, educado, culto e agradável no primeiro contato – mas que se prova cada vez mais desagradável, mentiroso, arrogante e inescrupuloso conforme o tempo passa e se revela paulatinamente. Ele teve tudo para fazer o melhor governo que o Rio de Janeiro já teve – e, em muitos aspectos, o fez: escolheu e deu carta branca a nomes como Joaquim Levy na Secretaria de Fazenda e José Mariano Beltrame na Secretaria de Segurança, verdadeiros craques em suas áreas que entregaram resultados maravilhosos. Reformou e racionalizou o Rio de Janeiro. Fez obras há muito necessárias e alinhou-se a Brasília, indo contra uma irracional tendência do Rio de Janeiro (estado e município) de fazer oposição ao Palácio do Planalto. Sérgio Cabral tinha, portanto, tudo para ser a referência política do Rio de Janeiro e uma liderança nacional capaz de disputar o Palácio do Planalto. Todavia, escolheu o caminho da arrogância e da corrupção. Deslumbrou-se com o poder como poucos antes dele. Deixava os políticos esperando horas para recebê-los – isso quando não simplesmente saía sem avisar. Prometia e não cumpria – e jactava-se disso diante de outros políticos. Humilhava subordinados. Era, em suma, a própria definição de pessoa desagradável. E, por fim, transformou seu governo em um vergonhoso balcão de negócios. Não é estranho especular se ele não deu as áreas técnicas do governo para tantas pessoas competentes apenas para que apenas ele e seus asseclas pudessem locupletar-se com as benesses do poder (como no patético caso de mandar o helicóptero oficial buscar seu cachorro) e com os dividendos privados de obras públicas. De acordo com as denúncias apresentadas, baseadas em várias colaborações premiadas no âmbito da Operação Lava-Jato, Sérgio Cabral comandou uma quadrilha que deliberadamente criou esquemas sofisticados para assaltar os cofres públicos por meio da corrupção. Ao contrário de Garotinho, Sérgio Cabral não conta com o apoio do mundo político por conta da arrogância desbragada com que tratava seus pares: ninguém o defenderá porque todos estavam apenas esperando o momento da queda dele para se vingarem das incontáveis humilhações sofridas. Se há um político que não fez senão plantar vento, esse político chama-se Sérgio de Oliveira Cabral Santos Filho. A colheita de tempestade será longa e profícua, para deleite de quase todos os políticos. Ele fez por merecer: ninguém sairá em defesa dele, ainda mais porque a condenação é por corrupção, e sua relevância política, que já andava em torno de zero (para ser sincero, apenas uma pessoa de peso – além de Luiz Fernando Pezão, o governador em desgraça – defendia o agora morador de Bangu 8: Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro em fim de mandato, irmão do dono do apartamento na Praia do Leblon estranhamente cedido de graça para Sérgio Cabral há anos), tende a convergir para o zero absoluto. Dos antipríncipes presos, Sérgio Cabral é o mais próximo da morte política, que de metafórica tem quase nada. Seu destino está traçado: quando sair da prisão, o que pode demorar bastante caso ele não opte por colaborar com a justiça entregando alguém acima dele (que, se houver, só pode ser ocupante do terceiro andar do Palácio do Planalto), ele não terá mais carreira política pela frente. Virtualmente todos os políticos e técnicos que conviveram com ele o detestam e comemoram a queda dele – que, repita-se, ele fez por merecer tamanha antipatia de volta. Dois antipríncipes foram presos na mesma semana. Em comum, apenas um fato: ambos foram governadores do Rio de Janeiro. Tudo o mais os separa. Ao contrário dos príncipes presos na Torre de Londres, terão destinos distintos, escolhidos por eles próprios, e não por um algoz usurpador como Ricardo III. Desses antipríncipes não devemos sentir pena. A prisão deles, ainda que por motivos distintos e com consequências mais distintas ainda, iguala a desgraça deles à redenção da sociedade.


Pedro Nascimento Araujo é economista.

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