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quarta-feira, 5 de abril de 2017

Ciro, o boquirroto. Por Pedro Nascimento Araujo


É incompreensível, ao menos no primeiro momento, um político voluntariamente destruir seu futuro em praça pública. A crônica política nacional registra momentos memoráveis de incoerências que vão de Bernardo de Vasconcellos (cerrou fileiras com os liberais e com os conservadores) a Dilma Rousseff (reelegeu-se garantindo que nada mudaria na política econômica e, imediatamente após ser eleita, anunciou uma nova equipe econômica de viés diametralmente oposto), passando pelo surreal pedido de Fernando Henrique Cardoso para que os brasileiros se esquecessem do que ele havia escrito antes de ser presidente, entre muitos outros exemplos. Mas também registra declarações deploráveis, de pura grosseria, como Figueiredo dizendo que preferia o cheiro de cavalo ao cheiro do povo, Collor de Mello com o “aquilo roxo”, Maluf com o abjeto “estupra, mas não mata” e Marta Suplicy com o insensível “relaxa e goza” para os brasileiros que tiveram suas férias estragadas pelo caos aéreo – sem contar os caminhões de sandices proferidas por Lula da Silva em décadas de carreira. Declarações estapafúrdias, como se vê, não são novidade em terras tupiniquins. Porém, são raras, muito raras. Políticos tendem a saber evitar Ciro Gomes conseguiu a proeza de entrar para o seleto grupo ao dizer que, caso Sérgio Moro (metonímia para a Operação Lava-Jato) tomasse alguma decisão de prendê-lo, iria receber “a turma dele na (sic) bala” e ponto final. Com uma frase, Ciro Gomes conseguiu a incrível proeza de acabar com as suas nada desprezíveis chances de vencer a eleição presidencial de 2018.

Ciro Gomes é um político sui generis. É parte de uma oligarquia que remonta aos primórdios do século passado e que até hoje controla com mão de ferro seus rincões no interior do Ceará. Não que isso sirva para desqualificar Ciro Gomes per se, como se nascer em uma determinada família fosse condição para se julgar alguém. Porém, é razoável se esperar um pouco mais de comedimento em declarações públicas de quem nasceu em família de políticos e fez política a vida inteira. Ciro, todavia, não a possui, como já provou reiteradas vezes. E fez o mesmo em entrevista concedida hoje (27-Mar-2017) ao jornal Folha de São Paulo. A oportunidade que Ciro Gomes jogou fora não é uma barbada, mas também não é infactível, dependendo dos cenários. Ciro Gomes já disputou duas vezes a presidência (1998 e 2002) e perdeu, como se sabe, mas teve desempenho decente, chegando a mais de 10% em ambos os casos. Surgiu como uma liderança nordestina jovem e moderna, embora de família de políticos tradicionais. Como se vê, um quê de Fernando Collor de Mello sempre esteve presente em sua biografia, com a diferença de que Ciro ostentava uma precoce calvície quando despontou no cenário nacional. Mas o lado Collor de Mello de Ciro Gomes vai além da origem familiar e se mostra mais presente nas declarações desastrosas. Nisso, aliás, o cearense supera o alagoano nascido no Rio de Janeiro. Ciro Gomes tem momentos em que mais parece um destemperado. Arrogante como só filhos de coronéis conseguem ser, disse que um eleitor era “burro” em cadeia nacional e já foi capaz de declarar a jornalistas que o papel mais importante de sua esposa (à época, a atriz Patrícia Pillar) era o de dormir com ele. Já discutiu com pessoas em fila de hospital Pois é. Difícil acreditar que um sujeito com esse histórico poderia ganhar a eleição, mas é possível – com os avanços das investigações, supondo-se que Ciro Gomes não seja atingido e Lula da Silva seja. Nesse caso, Ciro Gomes seria o herdeiro da esquerda tradicional que ficou órfã de Lula da Silva, um contingente bastante robusto. O plano não era ruim. O executor que é boquirroto.

Se não falamos sobre corrupção é porque, até o momento, Ciro Gomes não aparece nas listas de corruptos – e Lula da Silva e Aécio Neves aparecem cada vez mais nelas; aliás, não só eles: virtualmente, todos os principais políticos tradicionais candidatos à eleição presidencial de 2018, talvez à exceção dos radicais de direita e de esquerda, provavelmente estarão com as imagens na lona. Ceteris paribus, pode-se dizer o óbvio: caso se só haja políticos tradicionais dentre os candidatos competitivos, Ciro Gomes seria um dos favoritos; afinal, bastaria que ele não falasse novas besteiras e demonstrasse amadurecimento – não estando envolvido nas corrupções e se mostrando moderado ele teria a seu favou um recall elevado e poderia realmente ser visto como uma solução palatável para tucanos e petistas diante de uma polarização de segundo turno contra um Bolsonaro, por exemplo. Ciro Gomes já esteve junto a ambos, embora sempre entre tapas e beijos, em momentos distintos. Devidamente temperado, Ciro Gomes deveria ser a terceira via, um político tradicional que não estaria envolvido nas falcatruas atuais. E, aparentemente, vinha trabalhando para se consolidar como tal. Até a desastrosa entrevista publicada hoje.

O que deveria ser mais uma etapa na construção de uma candidatura foi uma prova de que, em duas décadas, Ciro Gomes somou mais 20 anos de e zero de temperança. As pontes com tucanos e petistas estavam sendo bem erigidas. Ciro Gomes alternava críticas à corrupção nos governos petistas com elogios pontuais a Lula da Silva e exaltação a algumas políticas adotadas pelo PT. Idem em relação aos tucanos, aos empresários e aos autodenominados movimentos sociais. Se não era um primor de harmonia, a relação de Ciro Gomes com diversos atores da cena política nacional não era intragável e passava a ideia de que ele estava mais aberto a fazer política do que outra coisa. Ledo engano. A entrevista é um desastre enorme não por conta dos destemperos nos ataques a políticos, que fazem parte do jogo e sempre são relativizados, mas pelo ataque direto àquele que corporifica a insatisfação nacional contra a classe política: Sérgio Moro. Ao dizer que receberia uma ordem de um juiz federal “na (sic) bala”, Ciro Gomes não assassinou somente a sempre vilipendiada língua portuguesa: assassinou suas próprias chances para 2018. Sem estar envolvido em denúncias de corrupção, conseguiu registrar em vídeo que é contra o combate à corrupção. Impressionante: Ciro Gomes é o maior gênio às avessas da política brasileira. Noves fora a postura coronelista de anunciar que vai receber à bala, o que ele fez falou foi de uma estupidez tão grande que simplesmente o colocou em situação pior do que aquela dos políticos envolvidos em denúncias de corrupção: ao menos em público, protocolarmente, eles não apenas juram inocência, como também declaram apoio à Lava-Jato. São poucos segundos que colocaram um teto em toda uma carreira política. Não que Ciro Gomes não tenha vidraças – tem, e muitas, desde seus destemperos no passado a atuações muito além de questionáveis de seu irmão Cid Gomes no comando do Ceará, como levar a sogra em jatinho para passear na Europa, entre muitas outras situações espúrias. Mas a estufa de cristal de ser contra a Lava-Jato ele não tinha. Agora, tem. Indelevelmente. E por ação própria e direta. Na verdade, ao sair da disputa por força e obra do próprio destempero proverbial, Ciro Gomes fez um último ato político involuntário: ao atacar João Dória, posicionando-o como seu principal oponente de facto para 2018, o boquirroto colocou o arrivista prefeito de São Paulo sob os holofotes. Pois é: ser atacado por um desequilibrado como Ciro Gomes é a melhor propaganda que João Dória poderia sonhar ter. Merecida sina de um boquirroto.

Pedro Nascimento Araujo é economista.
nascimentoaraujo@hotmail.com

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