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sexta-feira, 28 de abril de 2017

Uma solução elegante, eficiente e factível. Por Pedro Nascimento Araujo


Há 35 anos a Argentina iniciou a ocupação manu militari das Ilhas Falklands, um minúsculo arquipélago no Atlântico Sul – os mapas argentinos deliberadamente aumentam o tamanho das ilhas para uma proporção surreal. As Falklands têm clima inóspito. É um território tão hostil ao ser humano que lá a agricultura é praticamente inexistente e apenas ovinos são criados. O frio intenso é reforçado por ventos de magnitude tão intensa que inviabiliza o tráfego aéreo repetidas vezes – e faz a sensação térmica assumir contornos polares. Apesar de, ao menos em 1982, não haver indícios de riquezas naturais ou população em perigo de extermínio que justificassem uma defesa do território firme como a que os britânicos tiveram, um olhar mais aprofundado identifica as razões de os súditos da Rainha Elizabeth II brigarem pela manutenção dos arquipélagos de Falklands, Geórgia do Sul e Sanduíche do Sul, locais que os argentinos tomaram dos ingleses por um breve período naquela época – trata-se de uma espinha dorsal britânica no Atlântico Sul, com seis valiosíssimas reminiscências do Império Britânico, a saber: Falklands, Santa Helena, Ascenção, Tristão da Cunha, Geórgia do Sul e Sanduíche do Sul. São seis enclaves do Reino Unido (e, por extensão, da OTAN) entre a América do Sul e a África. A Junta Militar que comandava a ditadura da Argentina na época só poderia completamente embriagada para não saber que um tesouro geopolítico desses jamais seria abandonado de mão beijada por qualquer hóspede de Downing Street, 10 – nenhum premier aceitaria a pecha de entrar para a história como o responsável por perder territórios pelos quais seus antecessores brigaram. Muito menos Margareth Thatcher. Ela viu, veio e venceu – e mudou a história inglesa. Agora que o Brexit mudou a história inglesa mais uma vez, a América do Sul e o Reino Unido têm uma oportunidade excelente de virar a página das Falklands e ter uma solução elegante, eficiente e factível.

Margareth Thatcher foi uma das mais importantes mulheres na política mundial. Com disposição para enfrentar resistências arraigadas, acabou com a apropriação do Reino Unido pelos sindicatos e foi fundamental para o colapso do Império Soviético. Make Britain Great Again poderia ter sido facilmente seu slogan, pois foi o que ela fez: trouxe o Reino Unido de volta ao centro da política mundial em plena Guerra Fria. Reformou a economia do país, enfrentando uma surreal estatização que tomou de assalto o berço do liberalismo após a queda de Churchill. Aliou-se a Ronald Reagan e a Karol Wojtyla para sufocar o Império Soviético e libertar centenas de milhões dos grilhões do comunismo. Combateu o terrorismo católico do IRA e avançou nas negociações de pacificação da Irlanda do Norte, e não esmoreceu mesmo quando foi vítima de atentado terrorista. Pois a Junta Militar resolveu simplesmente afrontar a essa mulher há exatos 35 anos, quando tomou Falklands, Geórgia do Sul e Sanduíche do Sul. Não tinha como dar certo – e não deu. Foi uma das mais desastrosas decisões políticas de toda a história. Um mês depois, os britânicos já haviam se deslocado por 12 mil quilômetros e estavam na região com seus moderníssimos armamentos para aplicar a sova da vida dos argentinos: como sói ser, a espinha dorsal insular dos britânicos no Atlântico Sul foi mantida intacta, como estava desde o Século XIX. Afinal, é um trunfo geopolítico único na região: uma base avançada dos britânicos (e, por metonímia, da OTAN) para operações militares na América do Sul e na África.

A espinha dorsal britânica no Atlântico Sul é um ativo e tanto. Em 1833, após várias ocupações, os britânicos tomam posse definitivamente das Ilhas Falklands. As ilhas britânicas na região são postos avançados que, em caso de guerra, podem ser utilizadas como bases militares relativamente perto dos continentes sul-americano e africano. Ali, os britânicos podem formar bases de suprimento para operações de assalto deles ou de alianças militares das quais façam parte, como a OTAN. Esse é um fator que Leopoldo Galtieri, chefe de facto da Junta, não ponderou entre suas muitas doses de whisky: os americanos não veriam vantagem em perder bases de uso certo da OTAN sob comando britânico para a Argentina. Além, principalmente, de um detalhe que mudaria tudo: a Casa Branca tinha pactos de defesa coletiva com a Casa Rosada e com Downing Street; assim, a Junta pensou que ambos os pactos (Pacto do Rio de 1947 e Pacto de Washington de 1949) se anulariam mutuamente e, portanto, o Tio Sam permaneceria neutro. Erraram feio – e nem falamos de desconsiderar a aliança especial entre os dois países forjada em duas Guerras Mundiais e inúmeros conflitos menores ou mesmo de menosprezar a relação umbilical entre Reagan e Thatcher – ao desconsiderar o adjunto adnominal: pacto de defesa. Ou seja, a rigor o Reino Unido poderia fazer chover toda a OTAN sobre a Argentina se assim quisesse, nos termos do Artigo 5º do Tratado de Washington. Para a sorte dos argentinos, não foi necessário. A guerra foi rápida e o status quo ante foi restabelecido – e seria confirmado há poucos anos em um plebiscito no qual a quase totalidade dos pouco mais de três mil habitantes (97% dos kelpers como eles são chamados) optou por permanecer sob o guarda-chuva britânico. Autodeterminação dos povos obedecida, restou uma bandeira de lamentos para líderes populistas argentinos e, na prática, o assunto está encerrado até aonde a vista alcança – mas não enterrado. Até que surgiu o Brexit.

Com o Brexit, temos a melhor oportunidade de garantir que a espinha dorsal britânica no Atlântico Sul não seja uma base avançada da OTAN na região. Uma chance de ouro: como a incompetência de David Cameron levou os britânicos a ter de buscar novos mercados após decidirem sair da maior zona de livre-comércio, a América do Sul surge como uma excelente alternativa. As vantagens econômicas são mútuas e amplas. Para a América do Sul, diversificação tanto de mercados quanto de produtos de exportação – sem mencionar o acesso a todos os mercados da Commonwealth of Nations. Além disso, há uma relação histórica entre os países do subcontinente e os britânicos, que foram fundamentais para impedir uma vitória napoleônica que significaria uma Reconquista, ou mesmo para inviabilizar intervenções da Santa Aliança com esse mesmo intuito – sem falar o papel de investidor pioneiro na infraestrutura e na industrialização regional. Eis a ideia: com a chance aberta pelo Brexit, o Mercosul poderia buscar um tratado que selaria o livre-comércio e a amizade com o Reino Unido, tendo como bases o abandono permanente do pleito sul-americano de soberania argentina sobre as Falklands e a garantia britânica de que jamais utilizaria suas possessões no Atlântico para atacar os países da América do Sul. Uma solução elegante, eficiente e factível para questões respectivamente históricas, econômicas e geopolíticas. Seria lamentável perder essa chance de ouro.

Pedro Nascimento Araujo é economista.

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