Leal Porto

Leal Porto

RESTAURANTE DA PONTE

RESTAURANTE DA PONTE
"O lugar certo de comer peixe" - Em cima do Mercado Municipal do Peixe (22) 2647-5341

terça-feira, 4 de julho de 2017

O Útero Portátil. Por José Facury


Qual homem se arvorará a manusear os apetrechos de uma bolsa feminina, totalmente livre e desprovido da insistente autocensura? Nenhum! Mesmo que elas a permitam, o nosso outro lado feminino, ainda uma mera desconhecida, ficará a nos vigiar como se estivéssemos cometendo um sacrilégio, pelo simples fato de termos que nos deparar com algo que não deverá ser visto. Não há intimidade que permita tal abuso. A bolsa feminina é mais insondável do que as liberdades que ao seu corpo permite. E nem sei qual delas é mais acessível se a sua bolsa ou a sua alma.

Para nós, pretensos seres, antes, repletos de um histórico poder e vivendo o ocaso dessa envergadura (com trocadilho, por favor), foi-nos a época em que essa plenipotência nos dava o direito de vasculhar delas o que quiséssemos. Temos toda a liberdade de manusear os mais recônditos lugares do seu corpo e do seu coração, mas nenhuma liberdade de chafurdar a sua bolsa. É como se estivéssemos metendo bedelho onde nunca seremos chamados.

Nós, cenógrafos, costumamos criar e desenhar objetos procurando seus signos e suas formas para um dia o colocarmos em prática. Imaginem um número de dança ou um enredo de escola de samba, só mostrando a relação entre a mulher e a sua bolsa. Não será preciso palavras... Esse objeto corriqueiro nos traz divagações com ampla carga simbólica. Desde quando elas saem de casa com os seus alforjes, checando o seu conteúdo; as coisas que tiram e colocam de volta; as suas aflições quando não sabem onde está o que procura; como a põe e os joga na mesa á procura do objeto perdido; como a utiliza como proteção, apertando-a contra o peito e quando a sustentam como um fardo.

Além de servir à sua função explicita - que é a de guardar e carregar objetos indispensáveis do cotidiano feminino - a bolsa demonstra que também pode simbolizar o peso da sua vida. Se Freud estivesse vivo, para estudar esse universo, hoje em dia, teria muito a dizer dessa mulher na relação orgânica com a sua bolsa. Essa junção seria uma fonte inesgotável de pesquisa para as suas teorias analíticas.

Para nós, a bolsa feminina pode ser considerada um microcosmo desse mundo cheio de obrigações e peso. Dentro de cada bolsa feminina reside uma miniatura da sua própria casa. Tudo que seja necessário para sobreviver no dia a dia, estão ali contidos. Tanto os objetos das necessidades básicas, como escova de cabelo, agenda, um lenço, um comestível qualquer, uma calcinha, absorvente etc. Na verdade, berloques sem nenhuma aparente utilidade prática são indispensáveis para a sua segurança.

Enfim, a bolsa de uma mulher não é igual à nossa bolsa. Ela é muito mais de que uma portadora de objetos que servirão ao seu dia a dia ou à sua vaidade. Ela é o seu útero portátil, recheado de pequenas lembranças afetivas e recordações das quais tem dificuldades de esquecer. Por isso as carrega, expurgando o supérfluo na próxima faxina. E hoje, a bolsa das mulheres também porta documentos, processos... Virgem, Maria! Pelo apego umbilical com que se agarra à sua bolsa doméstica, qual será o grau de aderência com as recheadas de processos e negócios na disputa acirrada do mercado? Lógico, que se for com a mesma intensidade: vencerão. Talvez seja por isso que aquele nosso tão esquecido, relegado e desconhecido “lado” nos contém e nos reprime quando nos aventuramos a mexer em uma bolsa feminina. 

0 comentários:

- |