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quinta-feira, 6 de julho de 2017

Réquiem tucano. Por Pedro Nascimento Aruajo


Dentre as obras-primas da música ocidental, réquiens são uma tradição à parte. Mozart, Brahms, Verdi, Stravinsky e muitos outros compositores notáveis escreveram suas versões para a missa de encomenda das almas dos cristãos católicos. Basicamente, são missas cantadas, com peças para cada parte da liturgia. Com o tempo, porém, compositores diferentes foram tornando o réquiem cada vez menos missa e cada vez mais sinfonia em forma de missa; nesse contexto, muitos apontam a sequência Dies iræ (Dia da Ira) de Wolfgang Amadeus Mozart como a peça musical mais intensa já feita – sem, no entanto, deixar de ser fúnebre. Na verdade, ouvir Dies iræ de Mozart separadamente e sem conhecer a letra em latim causa uma impressão bem diversa de ouvir Dies iræ no contexto e conhecendo a letra em latim. E eis o ponto: uma mesma peça pode ser bela, dramática e virtuosa fora do contexto adequado ou bela, dramática e trágica no contexto adequado. A recente decisão do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) de continuar no governo de Michel Temer pode ser vista como virtuosa quando não se conhece a letra: apoio incondicional às reformas que o Brasil tanto precisa. Quando se conhece a letra, todavia, a decisão é trágica: manter o mandato de Aécio Neves. Um autêntico réquiem para um partido que se queria diferente do PMDB do qual nasceu e virou dissidência e que, na hora crucial, se provou apenas uma versão bem-vestida dele.

O Brasil deve muito ao PSDB em termos políticos – e isso torna sua voluntária descida ao inferno ainda mais amarga. Quando o Regime Militar chegou ao fim, o PMDB, encarnação multipartidária do bravo MDB, se envolveu em um ardil humilhante: sob o comando do neófito (no PMDB, não na política!) José Sarney, o partido bancou um golpe branco que transformou a Carta de 1988 de parlamentarista em presidencialista com o intuito de garantir um ano a mais de governo para Sarney. Como se dizia na piada da época: eleito para um mandato de quatro anos, Sarney renunciou a um e ficou com cinco – e a Constituição, estruturada para um sistema parlamentarista, trocou apenas o nome para presidencialista e, com isso, deu gênese ao brasileiríssimo e surrealíssimo presidencialismo de coalizão, o envergonhado semiparlamentarismo sob a égide do qual ora vivemos. Por não concordar com os métodos da colcha de retalhos chamada PMDB, peemedebistas históricos e ilustres foram fundar o PSDB: Mario Covas, Franco Montoro, Fernando Henrique Cardoso, Afonso Arinos de Mello Franco, Heloneida Studart, Artur da Távola, Ronaldo Cezar Coelho e muitos outros. Um Dream Team da política brasileira foi montado em 1988 – ao menos no time titular, porque no banco de reservas estavam Renan Calheiros e outros menos cotados. Embora, com o tempo, o partido tenha depurado a lista por um lado (Calheiros rapidamente sairia para acompanhar Fernando Collor de Mello nas eleições de 1989), a prática política levou o PSDB a um pragmatismo que culminaria com o apoio do PMDB durante os governos de Fernando Henrique Cardoso – pragmaticamente, o PSDB blindou setores estratégicos do governo da sanha do PMDB que eles tão bem conheciam. Sob o comando de Fernando Henrique Cardoso, o Brasil derrubou a hiperinflação, maior mecanismo de concentração de renda, e reformou o estado pela primeira vez desde o Programa de Ação Econômica do Governo (PAEG), feito em no governo de Castello Branco (em plena ditadura, portanto) por Roberto Campos e Otávio Bulhões de Gouveia. Fernando Henrique Cardoso conseguiu reformar o estado e acabar com a hiperinflação em regime democrático, pagando para isso o preço (talvez o plural seja mais adequado aqui) de ter o PMDB consigo. Ao menos naquela época, associar-se ao PMDB, o PSDB tinha um objetivo que, mesmo que não totalmente pio, era defensável. Agora, nem isso; agora, o único interesse é garantir o mandato de Aécio Neves. Algo de fazer os fundadores mortos se contorcerem nos túmulos e fazer os vivos que ainda guardam o espírito de 1988.

Aécio Neves virou um morto-vivo. Suas conversas com Joesley Batista são o que de mais baixo surgiu desde que uma pequena loja de câmbio em um posto com serviço de lavagem expressa começou a ser investigada em Curitiba e deu origem à Lava-Jato. O nível é tão baixo que é difícil se acreditar que propinas e palavrões fluam com tanta naturalidade nos bastidores de um homem que quase foi eleito presidente do Brasil em 2014 – e que era a principal aposta para 2018. O espantoso no áudio de Neves é a como a persona privada difere da persona pública. Nos tempos de Torquemada, certamente alguém falaria em possessão demoníaca, dada a diferença entre as, digamos, instâncias de Aécio Neves. Não há como a opinião pública não depreender das gravações que o Aécio Neves de verdade é o da coxia e não o da ribalta. Politicamente morto, Aécio Neves propôs ao PSDB que se sacrifique em meio a algum pentagrama invertido para salvá-lo. Bizarramente, o PSDB aceitou. Em troca de o PMDB barrar a cassação de Aécio Neves (corolário da cassação: a quase certa prisão imediata pelas mãos de Sérgio Moro) no Conselho de Ética do Senado, o PSDB aceita barrar a autorização para o STF julgar Michel Temer no plenário da Câmara dos Deputados. É um enredo tão aloprado que é risonho imaginar um político do PSDB explicando aos filhos/sobrinhos/netos de sete anos de idade que está protegendo um corrupto para proteger um obstrutor de justiça – e a ordem respectiva pouco muda aqui: ambos estão investigados pelos dois crimes. Obviamente, se não é possível explicar claramente um negócio a uma criança de sete anos de idade sem ser questionado sobre a moralidade de tal negócio, então muito provavelmente se trata de um negócio imoral, para dizer o mínimo.

Ocorre que o negócio imoral (para dizer o mínimo) de tentar fazer do abraço de afogados entre Michel Temer e Aécio Neves uma tábua de salvação mútua é um péssimo negócio, mesmo desconsiderando-se toda a ausência de moralidade nele contida. É um péssimo negócio porque tem chances remotas de dar certo. Primeiro porque os aproximadamente 50 milhões de eleitores que votaram em Aécio Neves no segundo turno de 2014 não são devotos do mineiro, como eram muitos dos também aproximadamente 50 milhões de eleitores que votaram na ungida de Lula da Silva no mesmo pleito: esses eleitores querem que Aécio Neves pague pelo que fez. E, segundo, porque dificilmente vai dar certo no final. O cenário mais provável é Aécio Neves ser preso e Michel Temer não terminar o mandato. PMDB e PSDB sabem disso. Por que, então, esse abraço de afogados? O PMDB não tem um nome a zelar há muito; afinal, foi exatamente essa falta de compromisso com os ideais de Ulysses Guimarães que levou a dissidência de notáveis (não podemos nos esquecer de que Renan Calheiros também estava lá) a criar o PSDB em 1988. Mas o PSDB tem e, mais do que isso, tem intenções de voltar a ocupar o Palácio do Planalto em 2018. Mais do que isso: o PSDB defende a necessária retomada da reforma do estado, com reformas previdenciária, trabalhista, tributária, eleitoral etc. etc. etc. E, por fim, o argumento mais óbvio e negligenciado de todos: o PSDB tem quadro livre da Lava-Jato para disputar em 2018. Com Doria na disputa, os tucanos têm um candidato que pode apontar o dedo para os demais e dizer que é a novidade e que não participou da corrupção generalizada e institucionalizada que virou o condomínio de poder PT-PMDB a partir de 2003 – afinal, foi Lula da Silva quem inventou a nefária prática da “porteira fechada” na administração federal. Assim, o PSDB tinha tudo para ser o vencedor em 2018: sairia do governo Temer e se comprometeria a continuar votando a favor do seu próprio programa, independentemente de quem estiver despachando no Palácio do Planalto. Seria coerente e ético. Entraria para ganhar ano que vem com João Doria e comemoraria sua volta por cima com um vibrante Allegro. O roteiro estava pronto. Ao invés disso, todavia, o PSDB parece ter optado por ensaiar seu próprio réquiem para 2018.

Pedro Nascimento Araujo é economista.
nascimentoaraujo@hotmail.com

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