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quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Novidade na berlinda. Por Pedro Nascimento Araujo


É um daqueles raros momentos em que se pode ver um líder mundial ascender ao estrelato. Emmanuel Macron é o que há de novo na política internacional – e ele parece gostar disso um pouco demais, diga-se. Sem ser esperado, vem sendo bem recebido mais por seu magnetismo do que suas ações, até mesmo porque assumiu a França há pouco. Mas as ideias que traz consigo são uma nova leitura do liberalismo e da globalização, do respeito aos regimes internacionais e da inserção da França (singular e improvável caso de potência decadente há dois séculos que ainda consegue manter relevância internacional) no mundo. Evidentemente, Macron ganha ainda mais relevância em um mundo em eterna rusga com Donald Trump, que simplesmente não consegue levar para a Casa Branca seu carisma de apresentador de reality shows e parece atravessar a rua apenas para poder escorregar em uma casca de banana com o nome dele colocada na calçada oposta. Com Macron no Élysée, Angela Merkel não está mais sozinha e a Europa e o mundo podem pensar em uma nova fase de cooperação e de progresso nos regimes internacionais, desde que Emmanuel Macron confirme o que se espera dele. Por ele ser a novidade, estará na berlinda por um tempo ainda.

Regimes internacionais são, na clássica definição de Stephen Krasner cunhada em 1983, um conjunto de normas, práticas e processos decisórios que norteiam a comunidade de países acerca de algum tema. Há diversos regimes internacionais reconhecidos pela maioria dos estudiosos de relações internacionais, como os regimes de direitos humanos, não-proliferação de armas nucleares, combate ao narcotráfico, combate ao terrorismo etc. No seio de cada um deles, há uma crescente concertação entre as principais nações do mundo para aprimorá-los e aprofundá-los com base na ideia de que são valores que transcendem as fronteiras nacionais e para os quais, portanto, o soberanismo de outrora é simplesmente obsoleto. Trata-se de uma inserção internacional tipicamente liberal, inspirada nos preceitos de Immanuel Kant (“A paz perpétua”) acerca da paz internacional ser obtida por meio da construção de confiança entre as nações. A cooperação internacional, portanto, está na base dos regimes internacionais – e, dente estes, o principal (por sua essência de ignorar fronteiras internacionais por definição) é o regime de proteção ambiental. Pois foi exatamente nessa seara que Macron acabou de se destacar de uma forma que coloca a cada vez mais irrelevante França na vanguarda mundial: Macron (ou, antes, Nicolas Hulot, seu ministro de meio-ambiente) anunciou que a França vai proibir a comercialização de hidrocarbonetos combustíveis (gasolina, óleo diesel, carvão mineral, gás natural e gás de folhelho) a partir de 2040 com o intuito de simplesmente tornar a França neutra em emissão de carbono até 2050. Emmanuel Macron deu o tiro de largada para uma corrida que promete movimentar e mudar o mundo no espaço de uma geração.

Na véspera do pronunciamento de Nicolas Hulot, a montadora sueca Volvo havia anunciado que, em dois anos, produzirá apenas híbridos e elétricos. Talvez seja realmente o início do fim do motor a combustão. O ar das principais cidades da França e do mundo agradece: Paris tem particularmente sofrido com poluição atmosférica nos últimos anos, notadamente por conta de motores automotivos a óleo diesel. Em momentos como esse, a experiência da maior megalópole do mundo (a região metropolitana de Tokyo tem espantosos 38 milhões de pessoas, população equivalente aos 40 milhões de toda a Argentina) de banir o uso de óleo diesel em suas ruas há alguns anos foi decisiva: o Monte Fuji literalmente voltou a poder ser visto pelos habitantes da Capital ao Leste. É bem verdade que a Noruega já havia anunciado que proibirá a comercialização de veículos apenas a combustão interna em 2025, mas é a primeira vez que um país com população grande (66 milhões de pessoas) e indústria automobilística de alcance mundial (Renault, Peugeot e Citröen são marcas francesas) adota isso – a pequena (e dependente da produção de petróleo) Noruega tem apenas cinco milhões de habitantes, menos gente do que o município do Rio de Janeiro. Na França, a coisa muda de figura. E isso diz muito sobre Macron.

Emmanuel Macron sabe que foi eleito em um golpe de sorte que dificilmente se repetirá. A fadiga de material na relação dos políticos com os eleitores chegou ao zênite na França no ano passado. Macron soube surfar nessa onda e, muito em parte de ter sido o único candidato viável que não tinha viés radical, acabou eleito pela chamada maioria silenciosa mais como um voto contra a Frene Nacional de Marine Le Pen do que como um voto para ele. É para essa maioria que Macron acena em um movimento como esse: coloca a França na voga de um regime internacional por um lado e, sob o pretexto de que precisa ajudar os franceses a implementar seu plano, direcionará subsídios para que a indústria automobilística francesa lidere em carros sem emissão de carbono. Os franceses mais de esquerda gostam que o governo tome uma posição clara no sentido de reduzir o rastro de carbono na França; por outro lado, para os nacionalistas o reconhecimento por outros países da liderança da França no regime de meio-ambiente soa como um doce tilintar de moedas para o avarento. E, por fim, para os setores produtivos, significa a possibilidade de desenvolver tecnologia, aumentar produção e empregos e, principalmente, assegurar um pouco de certeza futura em momentos nos quais tal ativo anda em falta crônica na França. Macron foi muito hábil.

Aliás, a forma como ele vem-se apresentando internacionalmente é uma aula de relações públicas. Emmanuel Macron peitou Donald Trump em uma ridícula disputa de aperto de mãos e jactou-se disso para a imprensa, dizendo que tudo era simbólico naquele momento e que ele (e, por extensão, a França) não seria submisso jamais. Em um timing perfeito e com um inglês levemente sofrível, Macron aproveitou-se do momento em que Trump cumpriu a promessa de retirar os Estados Unidos da América do Acordo de Paris, formalizado na Vigésima-Primeira Conferência das Partes (COP XXI) da Convenção-Quadro sobre Mudanças Climáticas de 1992 e, do púlpito presidencial, sutilmente desancou o colega americano e expeditamente convidou cientistas e empreendedores americanos a irem para a França, aonde (segundo ele) o respeito ao meio-ambiente é prioridade e os cérebros estrangeiros são bem recebidos – o vídeo do discurso, que começa com um imbatível “Make our planet green again”, é facilmente encontrável online. Naquele dia, Macron simplesmente fez a decisão de Trump perder espaço no noticiário e ficou com a parte do leão dos principais jornais do mundo e começou a ser levado a sério, não mais sendo visto como uma mera excentricidade francesa. Além disso, seu plano de governo é deveras reformista e, se implementado a contento, poderá finalmente devolver competitividade à combalidíssima economia da França. Entusiasta da União Europeia e advogado de um aprofundamento da integração, Macron já chamou a atenção do mundo e tem sido ovacionado aonde passa. É a novidade, e ver uma novidade na política internacional é sempre interessante. Especialmente uma novidade na forma de um político que parece ser sinceramente interessado em fazer a inserção internacional de seu país por meio dos grandes regimes internacionais, como Emmanuel Macron tem feito. O resultado, ao menos no regime internacional do meio-ambiente, tem sido excelente. Vamos acompanhar o desenvolvimento de seu governo torcendo para que tudo não tenha sido apenas uma bem-urdida jogada de construção de imagem ou um golpe de relações públicas. Aguardemos para ver como ele se sairá tanto nas altamente necessárias reformas na França quanto nos regimes internacionais. A novidade está na berlinda.

Pedro Nascimento Araujo é economista.
nascimentoaraujo@hotmail.com

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