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segunda-feira, 29 de junho de 2020

VIDA DE PESCADOR: LEMBRANÇAS DE QUEM VIVE DAS ÁGUAS


Embaixo de uma das árvores da orla da Baleia, vestindo um casaco grosso para se proteger do vento frio e um sorriso saudoso no rosto, William Alves fala com orgulho de ser pescador. Aos 77 anos de idade, o morador de São Pedro da Aldeia recorda os sacrifícios que fez para criar os quatro filhos por meio da pesca e, embora já esteja aposentado e veja a pescaria como uma distração, avisa: “se eu parar, vou ficar doente”.
É na figura de dois tradicionais pescadores da cidade que a Prefeitura Municipal, na segunda-feira (29/06), Dia de São Pedro e Dia do Pescador, homenageia todos aqueles que tornam a pescaria uma atividade tão importante e de grande destaque no município, seja pela pesca artesanal ou pela esportiva. Para alguns, a prática representa um complemento de renda ou até mesmo um passatempo, uma forma de lazer, para outros, no entanto, é um negócio de família. E, embora os desafios enfrentados por cada um deles sejam diversos, o amor pela pescaria é ainda maior.

Em São Pedro da Aldeia, a pesca artesanal continua sendo uma das principais atividades econômicas do município. William é um dos cerca de 800 pescadores aldeenses que colocam seus barcos e canoas nas águas, seja na Baleia, Pitória, Camerum, Ponta do Ambrósio, Praia Linda, Baixo Grande, Mossoró, Poço Fundo ou no Boqueirão, e partem em busca do que a Laguna de Araruama tem para oferecer. E, quando eles voltam para casa, trazem muito mais do que pescado. Trazem junto consigo histórias de superação, sacrifício e amor à pesca.
Um amor que entrou em pausa após o falecimento da esposa. William Alves passou cerca de dois anos longe da prática, no entanto, a saudade falou mais alto do que a tristeza: aos poucos, ele foi voltando a fazer o que gostava. Começou consertando alguns barcos e canoas que precisavam de manutenção e, logo em seguida, retornou à pescaria. Atualmente, William dos Santos ainda vai buscar seu peixe na lagoa. “É muito bom a gente fazer aquilo que gosta. A hora que eu cismar, saio e vou pescar. Tenho muito orgulho de ser pescador”, afirma.
Esse amor pela pescaria é, muitas vezes, repassado de pai para filho. William Alves é de uma família que viveu da pesca. Cinco dos seus 11 irmãos também foram pescadores e apenas as irmãs não seguiram o mesmo caminho. William começou a pescar aos 13 anos de idade e, nos anos que se seguiram, também foi ajudante de pedreiro, cuidou da manutenção de barcos e trabalhou em salinas, outra atividade econômica que marcou a história do município aldeense.
FUGINDO À TRADIÇÃO
A tradição familiar, no entanto, não seguiu com seus filhos. Dos quatro herdeiros, nenhum é pescador, mas isso não entristece William. “Hoje em dia não me interessa me jogar na pescaria conforme eu vivia nela, porque eu vivi dela. Eu estava lá com vento, chuva, tempestade e não queria que meus filhos ficassem nessa mesma profissão. Criei meus filhos com a pesca, nessa lagoa, e o estudo que eu pude dar como pescador, eu dei. Tenho honra de ser pescador, mas me sinto feliz de eles não serem, porque cada um escolheu sua profissão, assim como eu escolhi a minha”, afirma o pescador da Baleia.


  Quem também não seguiu os passos do pai pescador foram os filhos de Carlos Eduardo dos Santos, morador da Pitória. Ele conta que se dedicou à pesca para dar uma condição de vida melhor aos seus herdeiros e que a sua vontade era ver seus filhos em uma profissão mais estável. O sonho deu certo: o mais velho, de 32 anos, atua no ramo de segurança e o de 16 anos de idade é jovem aprendiz no Fórum aldeense.
O DOM DA PESCA
Quando coloca seu barco nas águas da Praia da Pitória, Carlos Eduardo sai em busca de tainhas, perumbebas e carapebas, três das diversas espécies encontradas na Laguna de Araruama. Ele comenta que sempre sai para pescar com três amigos, assim, um pode fazer companhia ao outro. Ao comparar a pesca artesanal do século XXI e o trabalho quando começou no ramo
Se hoje os pescadores contam com o auxílio de um barco a motor, o que facilita o deslocamento em dias de vento intenso, Carlos Eduardo começou a trabalhar confiando nos seus braços. Hoje em dia, o pescador da Pitória tem um barco a motor, mas não abandona o remo. Com a ajuda dele, viu sua pescaria sair de São Pedro da Aldeia, passar por Cabo Frio e chegar até Angra dos Reis, cerca de 10 anos atrás. 
Apesar das dificuldades e sacrifícios da profissão, Carlos Eduardo não se vê fazendo outra coisa da vida. “Eu sempre pesquei. Não tem jeito, tive oportunidade de mudar, mas não quis. Já vem do meu pai, eu pesco há muito tempo e vou nisso até morrer. Dei um jeito dos meus filhos saírem da pesca, porque hoje em dia é mais difícil, muita gente pescando. Antes era bem mais fácil, mesmo remando”, conta o pescador de 53 anos.  
O SANTO PADROEIRO
O barco de Carlos Eduardo dos Santos é um entre as várias embarcações que acompanham a tradicional procissão marítima pelo Dia de São Pedro, o padroeiro da cidade e dos pescadores, comemorado todo 29 de junho. “Não sou muito ligado à religião, mas toda vez que tem festa de São Pedro, meu barco está lá. Tenho um primo que sempre me chama”, comenta.
Primeiro Papa da Igreja Católica, São Pedro é protetor dos pescadores porque também era pescador e, por isso, encontra muitos devotos entre os representantes da profissão.
Em São Pedro da Aldeia, no dia do santo padroeiro é feriado e comemorado com festa, procissão marítima e missa, que sempre registram uma intensa participação de devotos e fiéis. Em 2020, devido ao cenário atípico de pandemia do coronavírus, a celebração está sendo diferente.

A programação festiva é on-line, transmitida na página da Paróquia São Pedro no Facebook. Desde o dia 20 de junho têm sido realizadas Santa Missa e Novena, além de lives musicais. As celebrações se encerram na segunda-feira (29/06). Às 6h, tem a Alvorada Festiva; às 18h, uma Santa Missa presidida pelo Revmo. Monsenhor João Alves Guedes. Após a Missa, será realizada uma live musical com louvor católico. 

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