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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Putin I, o ecologista


Por Pedro Nascimento Araujo

Uma das regras mais famosas de luta foi escrita há mais de dois milênios e continua atual: “Quando cercar o inimigo, deixe uma saída para ele, caso contrário, ele lutará até a morte.” Faz parte de “A arte da guerra”, obra atribuída ao chinês Sun Tzu. Talvez ainda seja cedo demais para afirmar que o Ocidente está acuando o prototzar Putin I da Rússia mais do que seria necessário para enfraquecê-lo sem torná-lo agressivo além da conta, mas há sinais inequívocos de que tal patamar está próximo. Evidentemente, não se faz aqui uma apologia ao chamado apaziguamento: com bullies como Putin I, que não entendem a empatia, não se pode ceder nunca. Mas também não é sábio pressioná-lo demais. Há uma semana, Putin I fez seu simulacro de democracia favorito: apresentou-se diante da Duma para algo como o State of the Nation dos presidentes americanos, quando se apresentam diante do Congresso para prestar contas do ano passado e assumir compromissos para o ano seguinte. Obviamente, o ocupante da Casa Branca será cobrado por isso, algo que jamais ocorrerá com o ocupante do Kremlin. Não que Putin I não tenha do que se gabar, especialmente quando sua contraparte em Washington é uma liderança vacilante, contraditória e mais afeita aos palanques do que aos gabinetes: no último ano, o russo conseguiu quase tudo o que queria em política externa, desde a manutenção de seu aliado Bashar al-Assad em Damasco (na prática, ele vetou uma intervenção militar e abriu caminho para o fortalecimento do Isis) até a anexação da Crimeia manu militari, ainda que [mal] camuflada – e nem precisamos falar sobre sua incontestável supremacia em política interna, a ponto de executar os Jogos Olímpicos mais caros (e candidato ao posto de mais superfaturado) de todos os tempos em Sochi. O homem, enfim, ganhou quase tudo. Só não contava com o povo da Ucrânia, que, aparentemente, se cansou de sofrer bullying russo e expulsou Víktor Yanukóvytch, seu cleptocrata amigo em Kiev, e transformou os vistosos frutos de sua corrupção (travestida em uma mansão cinematográfica com direito a uma coleção de carros raros) em atração turística. E aí tudo degringolou para ele.

A anexação da Crimeia foi o primeiro passo. Foi uma ação vil, sub-reptícia. Não passou despercebida. Desde a Revolução Laranja (2004), passando pelo envenenamento de Viktor Yushchenko, exatamente como parte de um processo de fraudes que levou Víktor Yanukóvytch a derrotá-lo no pleito daquele ano e ser derrubado pelo povo nas ruas (curiosamente, Víktor Yanukóvytch estava no poder este ano, novamente conduzido por Putin I, quando o povo o apeou do poder pela segunda vez em 10 anos, um feito realmente notável), que Putin I vem tentando reconverter a Ucrânia em suseranato russo. Mas, dessa vez, ele foi longe demais. Tanto que, após conquistar a Crimeia, ele recuou nas interferências dos movimentos separatistas “espontâneos” (na verdade, agentes russos enviados para as regiões russófonas para seguir o mesmo roteiro: protestar contra “discriminação”, ocupar prédios públicos e convocar um “referendo” para juntar-se à Federação Russa) que fomentou por todo o Leste da Ucrânia. Putin I sabe quando deve mostrar e quando deve esconder suas garras, especialmente quando a assinatura de seus sistemas antimísseis foram encontradas na derrubada de um jato comercial malaio no meio do ano. Ele havia parado de ladrar. Até agora.

A justificativa para anexar a Crimeia que Putin I apresentou para seus correligionários no discurso anual foi uma pérola de cinismo, daquelas que devem ser estudadas e repetidas nas faculdades de oratória: ele comparou a Crimeia ao Monte do Templo, local sagrado para o Judaísmo, porque foi em um rio de lá que o Príncipe Vladimir (coincidentemente, o mesmo prenome de Putin I) foi batizado no Século IX, levando o Cristianismo para a Mãe Rússia, insinuando que a Crimeia era o berço da nação russa. Na verdade, a Crimeia, assim como a Ucrânia, somente seria conquistada pelos russos no Século XVIII – antes, fez parte (por muito mais tempo, diga-se) do Império Otomano. De qualquer modo, Putin I disse que a Crimeia era um “pretexto” para as sanções do Ocidente: se ele não tivesse anexado a península na qual as guerras modernas começaram (1853-1856), certamente europeus e americanos encontrariam outra justificativa para pagar mais caro por gás e petróleo apenas para prejudicá-lo em sua defesa da Rússia – sim, o homem tem certeza de que o Ocidente não faz outra coisa na vida exceto persegui-lo. O festival de disparates ditos por ele naquela noite é infindável: para ficar no mais insano, ele disse que o Ocidente apoiou os rebeldes da Chechênia nos anos 1990 para dividir a Rússia, assim como fez com a Yugoslávia. Como escreveu a The Economist acerca dele, não há nada de fundamentalmente perigoso em um líder político contar mentiras para salvar seu pescoço, como é o caso de Putin I: a Rússia terá um 2015 de forte recessão, com as sanções ocidentais calando fundo na plutocracia que comanda o país, bem como a queda brusca na cotação do petróleo dificultando a geração de dólares em um cenário de sistema financeiro internacional fechado para o país. O perigoso é quando este líder acredita nas besteiras que diz. E esse parece ser o caso de Putin I. Só isso justifica sua ação mais recente na Polônia.

Assim como a Ucrânia, quase todo o Leste Europeu e os Bálcãs sempre foram vistas pelos tzares (tanto os hereditários, de direito divino, quanto os genocidas oriundos do Partido Comunista da União Soviética) como parte da Grande Rússia. Não é diferente com Putin I. Pois é especificamente na Romênia, um país atrasado na franja leste da União Europeia, que Putin I repete pela enésima vez seu joguinho de desestabilização. Porém, diferentemente da Ucrânia, lá ele o faz por meio de pseudoecologistas a soldo da Gazprom, a gigante estatal de energia que ele controla com mão de ferro capaz de fazer Nicolás Maduro parecer um garoto de jardim de infância brincando com sua PDVSA. Eis a história: a Gazprom fornece gás para a Romênia, assim como para a Ucrânia. Na Ucrânia, a Gazprom não teve pudores de cortar o suprimento de gás ou de aumentar seu preço da noite para o dia sempre que queria prejudicar um inimigo de Putin I que estivesse no poder. Ciente disso, não apenas a Ucrânia, como a Europa inteira também, está em busca de maneiras de diminuir a dependência dos humores de Putin I. A solução mais viável é o uso do gás de folhelho (shale gas), obtido com a tecnologia de fracionamento de rochas que os americanos desenvolveram e que permitiu ao país tornar-se autossuficiente em hidrocarbonetos a pontos de ser potencialmente o maior exportador do mundo em menos de duas décadas. Para os países europeus que não possuem jazidas, uma solução é importar o gás no formato liquefeito (GLP) dos americanos, eliminando, com isso, a dependência da Gazprom. Para os que possuem jazidas, caso da Romênia, uma solução melhor ainda é produzir o shale gas em casa e ainda exportá-lo para os vizinhos que são clientes da gigante russa. A Romênia, portanto, firmou um acordo com a americana Chevron para explorar suas reservas. Foi a conta. Putin I despachou para vilarejos isolados equipes de ativistas e baderneiros profissionais que organizam “protestos espontâneos” contra o shale gas. São pessoas que nunca estiveram em vilarejos como a pequena Pungesti, mas que apareceram com um uma infraestrutura de fazer corar de inveja o Greenpeace. A tática já funcionou na Bulgária e na Lituânia, países que cancelaram contratos com companhias americanas e continuam à mercê da Gazprom. A Rússia, obviamente, nega tudo. Mas, assim como nas ditaduras árabes protestos contra o tirano de plantão são severamente reprimidos e protestos contra Israel são fortemente apoiados, na Rússia os ecologistas sérios são presos sumariamente (a brasileira Ana Paula Maciel que o diga!), mas os ecologistas contra o gás de folhelho nunca são incomodados em seus protestos; na verdade, contam com o Ecologista #1 de todas as Rússias: Putin I, recém-convertido. Obviamente, apenas quando se trata de shale gas, cuja demonização também é uma constante na nada livre imprensa russa. Se a Gazprom conseguir impedir a exploração do gás de folhelho no Leste Europeu, terá realizado o crime perfeito, mantendo sua expansão imperial sob os aplausos dos inocentes úteis do Ocidente. Nada mais justo do que agradecer a Putin I, o ecologista.

Pedro Nascimento Araujo é economista.

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