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quinta-feira, 30 de junho de 2016

Luta política. Por Pedro Nascimento Araujo


Luta política

Sore loser é uma expressão em inglês que literalmente significa mau perdedor. Nesses tempos em que o PT faz campanhas internacionais para se apresentar como vítima e se comunica em um idioma que se parecem bastante com o inglês (isso para não falar sobre os cartazes empunhados em Cannes, redigidos em uma língua que lembra ao longe o francês), sore loser deveria ser o termo mais apropriado para descrever o que está acontecendo com o partido desde o início do processo de impeachment de Dilma Rousseff. Mas não é. Ninguém no Partido dos Trabalhadores jamais admitirá isso, mas o fato é que o PT está adorando ser oposição. É o que o PT faz de melhor. E, a julgar pelo desastre em que deixou o Brasil, ser oposição é talvez a única coisa em que o PT é inquestionavelmente excelente. Senão, vejamos: o governo de Michel Temer tem duas semanas. Parquíssimas duas semanas. Macérrimas duas semanas. Ridículas e miseráveis duas semanas não são suficientes para julgar o trabalho de governo algum. Na verdade, a Carta de 1988 prevê, em seu Artigo 49 III, que o presidente pode ausentar-se por até duas semanas de seu cargo sem precisar sequer avisar ao Congresso Nacional. Ou seja, duas semanas não configuram sequer vacância do cargo. E, no entanto, após duas famélicas semanas no cargo, Michel Temer já sente o gosto de ter o PT na oposição. A oposição virulenta, sectária e seletiva de sempre – agora, turbinada pelo rancor de o partido ter sido apeado do poder por sua vasta coleção de malfeitos, corrupções e incompetências em irônicos 13 anos ao leme do Brasil. Cômico seria, não fosse a ululante tragédia do legado que os governos do PT deixaram ao país. É didático analisar o comportamento do PT como oposição durante duas semanas, exatamente o tempo de ausência oficialmente imprescindível de autorização do presidente da República. Vale quase por um mestrado em ciência política.

A primeira coisa que o PT fez ao ver-se na iminência de virar oposição foi construir um discurso de vítima. O esforço era hercúleo: se há algo que virtualmente pessoa alguma consegue enxergar em Dilma Rousseff é a presidente afastada no papel de vítima. Ao contrário, ela é vista pela população em geral e, principalmente, por aqueles que com ela convivem, como uma pessoa arrogante e grosseira, daquelas que se comprazem em humilhar quem estiver no seu caminho na hora errada. Mercurial, figadal, imperial: esses adjetivos são evocados quando o nome dela é citado. Vítima, jamais. Ingênua, muito menos. Submissa, então, é impensável. Ela cultivou a imagem de férrea com muito gosto. Conseguiu. O papel de vítima simplesmente não lhe serve. O PT percebeu isso claramente. Em termos de narrativa, todavia, não havia outro caminho: ou Dilma Rousseff era apresentada como mártir de um complô ou o partido teria de admitir os malfeitos dela e, portanto, seus. Em outras palavras: o PT teria de ter a humildade de admitir que errou – algo impossível. Portanto, dados os genes de arrogância impressos no seu DNA, não restou ao PT alternativa senão construir uma patética narrativa de “golpe parlamentar constitucional”. Obviamente, fica de fora dessa narrativa o fato principal: dois poderes (Legislativo e Judiciário) se uniram para, conforme a Constituição, exercer a gravíssima e dolorosa missão de afastar do cargo um presidente eleito pelo voto popular. Mas o PT não se notabilizou por ser coerente e fiel aos fatos. Do contrário, o PT ganhou projeção sendo absolutamente incoerente e totalmente afeito a distorcer os fatos para fazê-los caber em suas narrativas. Fez isso nessas duas semanas com intensidade que não se via há muito. Fará isso com todo vigor nas próximas 130 semanas, tempo que resta ao governo ora interino de Michel Temer.

A incoerência é traço distintivo do Partido dos Trabalhadores. Não uma incoerência algo inocente, como pareceu querer fazer crer Lula da Silva ao parodiar Paulo Coelho e dizer-se uma “metamorfose ambulante”. Não, trata-se aqui de uma incoerência calculista. O PT abandona preceitos e valores conforme conveniências de plantão. E adota outros pelo mesmo motivo. E, mais interessante, age embasado em um conceito que embute uma desfaçatez de fazer o Big Brother de George Orwell corar: luta política. A luta política pode ser um eufemismo para a implantação do comunismo, de acordo com a direita, ou uma resistência ao domínio do capitalismo, de acordo com a esquerda. Como sói ser, a verdade está mais próxima do meio do caminho: a luta política é a maneira que a esquerda tem de justificar a aceitação ou recusa de bandeiras em momentos distintos. Em outras palavras, a luta política é um nome pomposo para a incoerência casuística típica do PT, o que a torna mais uma luta partidária que usa a luta política como pretexto. Independentemente das origens e consequências da dialética acerca de luta política e luta partidária (e nem mencionaremos aqui o ainda mais diáfano conceito de luta ideológica, muito caro ao comunismo), o PT sempre buscou justificativas para suas incoerências. Historicamente, vimos um partido que se dizia a favor da redemocratização se recusar a assinar a Carta de 1988 porque ela refletia posições distintas da sua – ou seja, porque ela era... democrática! E foi assim ao longo dos seus anos de oposição. O PT foi contra o Plano Real, não porque não gostasse da estabilização da economia, mas porque outro que não ele o fez. Foi contra a Lei de Responsabilidade Fiscal. Foi, em suma, contra tudo e contra todos – quando estava na oposição. Quando virou governo, simplesmente abraçou tudo o que criticava e, mais ainda, tentou vender-se para a população como autor e guardião daquilo que herdou. Luta política? Não. Malandragem mesmo. Da grossa. Do tipo estelionato. Artigo 171.

Curiosamente, o PT protocolou incontáveis pedidos de impeachment contra todos os presidentes desde a redemocratização – noves fora os pedidos de renúncia contra Figueiredo e a recusa de participar do processo de eleição indireta de José Sarney – e não via nada de mais nisso. Era parte da “luta política”: pouco importava se havia de fato elementos que justificassem crimes de responsabilidade (como, de fato, havia no caso de Collor de Mello) ou não. Era luta política: presidentes que não fossem do PT precisavam ser depostos. Sectarismo político em último grau, que a sociedade brasileira demorou demais a perceber. Antes tarde do que nunca: quando bem embasados pedidos deimpeachment contra Dilma Rousseff começaram a pipocar (vale lembrar que, além do ora em análise pelo Senado Federal, há outro, mais completo, elaborado por ninguém menos do que a Ordem dos Advogados do Brasil), o PT passou a dizer que se tratava de um delirante “golpe parlamentar constitucional”, uma contradição per se que é puro surrealismo. Passado o tempo, com a aceitação do afastamento de Dilma Rousseff pelas duas Casas Legislativas, a inacreditável narrativa do “golpe parlamentar constitucional” foi varrida para debaixo do tapete. Na verdade, o PT ficou aliviado com o afastamento de Dilma Rousseff. Apenas não o comemorou em público porque não há luta política (ou partidária) que consiga justificar isso. Ao final das contas, o PT nunca se viu em Dilma Rousseff – para a cúpula do partido, ela era apenas uma brizolista que Lula da Silva resolveu, por razões insondáveis, ungiu e fez sua sucessora. Obviamente, ali ninguém mencionava o fato de que os sucessores naturais de Lula da Silva, os petistas estrelados, gente como José Dirceu e José Genoíno, estavam presos. O fato principal era esse: o PT finalmente poderia voltar a ser pedra e voltar a fazer luta política sem amarras. A vida de vidraça não combinou com o PT. Acabou com uma humilhação de dimensões épicas: cúpula presa ou em vias de ser presa, menor aprovação popular da história, recessão, inflação, desemprego. Base parlamentar menor do que um terço da Câmara dos Deputados. Melhor voltar a ser pedra e mirar na vidraça do incauto (leia-se “trouxa”) que herdasse tamanho descalabro: Michel Temer. E assim o tem feito sua luta política, com ganas de viciado em recaída, durante as duas primeiras semanas do governo de Michel Temer. E assim o fará nas demais 130 semanas. No Congresso Nacional, vemos o ápice da luta política. Projetos apresentados pelo governo do PT antes do afastamento de Dilma Rousseff agora sofrem ferrenha oposição do PT. Haja esquizofrenia? Não. Haja luta política. Questionados sobre esse comportamento, líderes do PT mencionam a luta política, talvez imaginando que a sociedade considere normal ser incoerente quando se trata de “luta política”. Não, a sociedade não considera normal. Agir dessa forma apenas isola ainda mais o PT, mas o partido parece não se preocupar com isso. O que interessa é a luta política. Que assim seja, então: os desastres eleitorais virão aos borbotões, mas isso parece pouco diante da volta do PT à sua vocação histórica: ser a mais estridente das minorias – uma oposição virulenta, sectária e seletiva. Que justifica tudo por meio da luta política. E que, no fundo, sente-se melhor fazendo luta política do que governando. O Brasil deveria, em última análise, agradecer por existir a luta política: ela mantém o PT longe do comando do país.

Pedro Nascimento Araujo é economista.
nascimentoaraujo@hotmail.com

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