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sexta-feira, 29 de agosto de 2014

A prestidigitação de Kirchner


Por Pedro Nascimento Araujo

Nos últimos meses, a Casa Rosada tem vivido em uma realidade paralela tal que faz o Palácio do Planalto parecer o Clube dos Céticos: após o país insistir em negar o óbvio (que não está honrando seus compromissos), Cristina Fernández de Kirchner redobrou a aposta na prestidigitação, em uma ação que ela define nada sutilmente como “escolha entre a pátria e os fundos abutres.” É uma falácia, obviamente, mas uma falácia que lhe rende um respiro em popularidade. E como de popularidade é o que ela mais precisa a um ano das eleições que escolherão seu sucessor, não podemos esperar nada além de bizarrices ainda maiores em sua sanha de apresentar a crise de forma maniqueísta: “Pátria contra fundos abutres”. É uma manobra diversionista que ela sabe que não durará para sempre, mas ela não precisa que dure para sempre. Como uma boa prestidigitadora, ela precisa apenas iludir a plateia por tempo suficiente para que as cortinas da eleição presidencial de 2015 se fechem.

Sem entrar nos detalhes do estado de coisas que levou ao default argentino, o fato é que a Argentina é considerada pelas grandes agências de avaliação de risco como um país em moratória, por mais que a Casa Rosada tente dourar a pílula ao falar em “moratória seletiva” e outros que tais. Ao invés de deixar que a coisa chegasse a uma solução judicial, a Argentina poderia ter negociado com a minoria de credores que não aceitou a desvalorização imposta por Néstor Kirchner no default do início da década passada. Não seria nada complicado de se fazer. O Brasil, por exemplo, entrou em acordo com a família Dart quando fez o tag along da adesão ao Plano Brady, condição necessária para o sucesso do Plano Real. O clã Dart não aceitou as condições oferecidas pelo país e foi brigar na justiça americana pelos juros previstos nos títulos brasileiros que haviam sofrido default em 1987, quando o governo José Sarney tentou defender sua incompetência e definiu o calote como “moratória soberana.” Ao invés de jogar para a plateia, Itamar Franco costurou um acordo que impediu que os demais credores também pudessem se beneficiar dos valores diferenciados (a chamada “Cláusula RUFO”). Na Argentina atual, a opção foi pela espetacularização do calote. Fernández de Kirchner arrastou o alquebrado país para sua desesperada e inútil luta por popularidade. Ao invés de proteger a Argentina, preferiu se proteger. Ao invés de negociar, preferiu bravatear. O custo, que já seria elevado de qualquer jeito, torna-se mais proibitivo quanto mais ela insiste em dobrar a aposta.

Os argentinos já caíram numa esparrela dessas há 22 anos. Quando os generais resolveram tomar as Ilhas Falklands manu militari, colheram popularidade instantânea. E popularidade alta, improvável em momento de crise financeira. Se um governo fraco estivesse no Número 10, eles se sairiam muito bem. Deram o azar de cruzar com Margareth Thatcher. Noves fora a patetice de recorrer aos americanos com o argumento do Pacto do Rio (também conhecido como Tratado Interamericano de Defesa Coletiva, prevê que um ataque extra-hemisférico a um pais americano equivaleria a um ataque a todos os países americanos, mas gerou uma resposta da Casa Branca que foi uma peça de humor involuntário: Reagan lembrou que sim, os EUA eram parte do TIAR, mas também eram parte do Pacto de Washington, que criou a Organização do Tratado do Atlântico Norte, outro pacto de defesa coletiva, e que o Reino Unido, um membro da OTAN, tinha sido atacado pela Argentina – portanto, se fosse para agir, ele teria de agir em defesa de Londres, a parte que foi agredida; assim, Buenos Aires deveria se dar por contente com a neutralidade americana na Guerra das Falklands, que era bem menos do que aquilo que, a rigor, os compromissos de defesa coletiva da Casa Branca exigiriam dela), os generais conseguiram apoio popular até que a realidade se impusesse. Fernández de Kirchner precisa apenas de um ano sem que se perceba de forma clara que o país quebrou por causa da briga inútil com os “fundos abutres”. A cortina de fumaça escolhida, por mais paradoxal que possa parecer, é exatamente aprofundar a briga com os “fundos abutres”, na esperança de que dure até depois das eleições de 2015 e que a atual presidente pose de defensora da pátria na falsa dicotomia “Pátria contra fundos abutres”. A aposta atual é ousada: um projeto de lei para reestruturar a já reestruturada (em 2005 e 2010) dívida argentina na Argentina, trocando- a por novos papéis nacionais, sujeitos à justiça de Buenos Aires ao invés de à justiça de Nova York.

Obviamente, nenhum investidor sério (é possível que governos amigos o façam por razões políticas) trocaria títulos emitidos em Nova York por títulos emitidos em Buenos Aires no momento atual, quando a Argentina encontra-se em default. Cristina Kirchner sabe disso. Mas, ao jogar para o Congresso argentino a contenda, ela transformou uma crise que estava nos noticiários de economia e de assuntos internacionais para os noticiários de política local. Para a sua seara. Em Buenos Aires, ela pode posar de defensora dos interesses nacionais, mesmo que às custas exatamente desses interesses. Ela fala em “unidade nacional” contra “exploradores da Argentina”. De forma mais eloquente que Sarney, ela está conseguindo transformar a incompetência econômica de seu governo em fato gerador de apoio político para seu governo. Ela fala em “defesa da soberania”, não em evidente quebra de contrato por parte de seu governo. Enquanto isso, a inflação de 30% ao ano fica em segundo plano. Enquanto isso, as greves gerais (gerais mesmo, a ponto de paralisar a grande paixão argentina: não houve jogos de futebol no dia 28-Ago-2014) por reposições das perdas inflacionárias (os índices manipulados não enganam mais ninguém) perdem as manchetes. Evidentemente, o ardil de Cristina Fernández de Kirchner não durará para sempre. Para ela simplesmente não importa: com o crescimento de seu rival Sergio Massa nas pesquisas para 2015, ela só precisa que sua habilidade de prestidigitadora distraia os eleitores até as eleições.


Pedro Nascimento Araujo é economista.

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