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segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

O oitavo mandamento. Por Pedro Nascimento Araujo


O oitavo mandamento

Dos dez mandamentos listados por Moisés e que estão na base das três principais religiões monoteístas do mundo, há alguns que são mais facilmente lembrados, como a proibição de matar e a obrigação de amar a Deus sobre todas as coisas, por exemplo. As lições de Moisés fazem parte do judaísmo, do cristianismo e do islamismo – e, dentre elas, está o oitavo mandamento: a proibição de prestar falso testemunho. Na prática, o senso comum entende isso como condenação ao ato de mentir, mas não é o mesmo. Mentir é o que se acusa Eduardo Cunha de ter feito ao negar ser dono de contas não mais secretas na Suíça. Mentiras levaram à derrota mais ridícula que um candidato imbatível na disputa pela prefeitura do Rio de Janeiro em 2016 (Pedro Paulo) conseguiu a proeza de ter antes mesmo de a campanha começar. Mais do que por causa do desastre na economia, é devido às mentiras que proferiu para se reeleger que Dilma Rousseff é a pior presidente do Brasil na opinião popular. Em suma, mentir é, aparentemente, o único pecado que não se admite de um político – que, de resto, constrói sua carreira se equilibrando na tênue fronteira entre não mentir e todo o resto, como tergiversar, omitir etc. Aliás, nunca é demais lembrar que a lei brasileira considera aceitável um réu mentir em juízo, ao contrário de outros países, onde o perjúrio é um crime em si e um agravante. Enfim, mentir pode ser um problema maior ou menor, mas é diferente de prestar falso testemunho. Prestar falso testemunho é acusar uma pessoa ou um grupo de pessoas de algo que elas não fizeram. Ao associar o islamismo ou os refugiados ao ato inominável, abominável, infame e desprezível que os sacripantas do Daesh perpetraram contra a humanidade na semana passada em Paris, todos nós que queremos paz, segurança, democracia, tolerância e prosperidade no mundo acabamos, inconscientemente – e compreensivelmente, em face da comoção do momento – prestando falso testemunho e pespegando a outras vítimas da mesma ignominia uma injustiça, na forma do falso testemunho: os refugiados são as vítimas mais antigas do mesmo verdugo que acaba de atingir Paris.

Todas as vítimas do Daesh merecem nossa solidariedade, seja na Europa, seja no Oriente Médio, seja na África. Qualquer tentativa de mitigar o mal absoluto que esse grupo traz em si é um erro. Nada, absolutamente nada, justifica atos de terrorismo, assim como nada justifica atos de genocídio. Não importa em nome de que ideologia, terrorismo não tem atenuantes. É como dizem todas as mães quando o filho briga na escola: não importa se você estava certo antes – a partir do momento em que partiu para bater no colega de classe, perdeu toda a razão. É assim com o terrorismo, que já foi realizado em nome das mais nobres causas desde tempos imemoriais. Os romanos sofreram com terrorismo – e também perpetraram atos de terrorismo, como sabem bem os judeus. Os judeus, aliás e a propósito, recorreram a atos de terrorismo na criação do atual Estado de Israel – as bombas no Hotel Rei David em Jerusalém (1946) precipitaram a saída dos britânicos da Palestina (com administração mandatada pela Liga das Nações) e foram coordenadas do Menachem Begin, que, posteriormente, seria premier israelense. Os palestinos, por sua vez, recorreram inúmeras vezes ao terrorismo – a lista vai do Setembro Negro de Yasser Arafat aos grupelhos ligados ao Hamas. Cristãos fizeram as Cruzadas. Muçulmanos fizeram a Conquista. Cristãos protestantes e católicos trocaram atentados por cinco séculos desde que Lutero pregou seu manifesto em 1517 – na Irlanda do Norte, os atos de terrorismo chegaram a entrar pelo Século XXI. Budistas fazem terrorismo contra muçulmanos em Mianmar. Hindus e muçulmanos não conseguiram superar as divergências e os atos de terrorismo cindiram a Índia quando os britânicos saíram. A lista é infindável e dela depreende-se que o terrorismo é ecumênico: qualquer religião, etnia, nacionalidade, grupo social ou opinião política pode servir de pretexto.

Quando um ato de terrorismo ocorre, não são vítimas apenas as pessoas que sofrem fisicamente e psicologicamente de forma direta ou indireta os seus efeitos: é vítima a própria humanidade. A própria noção de humanidade é atingida. Tornamo-nos menos humanos cada vez que um membro de nossa espécie recorre ao terrorismo. O combate ao terrorismo passa por ações enérgicas por parte de governos e por repulsas mais enérgicas ainda por parte da humanidade. O terrorismo só existe porque há quem o financie, seja por considerá-lo justo, romântico ou simplesmente aceitável em nome de algo maior. O que aconteceu na França é simplesmente a continuação do que acontece na Síria. Dois lados da mesma moeda, um europeu e um médio-oriental. Dois ataques consecutivos de grande monta em pouco tempo (Beirute e Paris, sem contar o avião de uma companhia russa no Egito) deixam claro que o Daesh não pode mais ser negligenciado. É um ataque à humanidade. A reação tem de ser conjunta. E não há como essa reação ser conjunta se as vítimas não se ajudarem. Sírios, franceses, russos, iraquianos, yázidis, curdos, americanos, brasileiros: todos precisam se ajudar, tanto recebendo vítimas do Daesh – basicamente, refugiados dos países nos quais os terroristas controlam partes do território – quanto exigindo que seus governos desmantelem o Daesh – basicamente, por meio de uma ação militar internacional, com ocupação de longo prazo da Síria, em um processo de literalmente reconstrução do país (que a Organização das Nações Unidas denomina “State Building”) que permitirá fazer nascer uma Síria democrática, segura, estável e próspera onde hodiernamente há uma réstia de um país. Receber os refugiados sírios, portanto, é uma das tarefas para vencer o Daesh: as primeiras vítimas precisam ser protegidas para que todas as demais também possam sê-lo. De fato, sempre há o risco de que se infiltrem entre eles membros do Daesh. É para identificar e prender tais pessoas que existem os serviços de inteligência e segurança de cada país. Todavia, é crueldade qualquer associação entre os refugiados e os seus próprios algozes, em uma espécie de Síndrome de Estocolmo doentia, justificada apenas pelo medo instilado pelos atos terroristas. Uma análise mais cuidadosa demonstra que não há lógica em vincular refugiados e terroristas. Acusar refugiados do terrorismo de serem terroristas: eis a definição atual de prestar falso testemunho. Se realmente queremos derrotar o Daesh e levar seus líderes a responderem por seus crimes abjetos diante de tribunais, com o devido processo legal, como sói ser em sociedades de direito, certamente precisaremos de ação de militar efetiva, não de covardes e patéticos bombardeios. Mas, tão certamente quanto de armas e soldados nos campos de batalhas, precisamos de atitudes corretas nas nossas vidas. E uma delas é acolher os refugiados como iguais que sofrem há mais tempo o mesmo martírio que ora atinge Paris, um dos pontos nevrálgicos do Ocidente – e nos recusarmos a tecer qualquer paralelo entre eles e seus carnífices. Não é difícil. Basta seguir o oitavo mandamento.


Pedro Nascimento Araujo é economista.

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