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sexta-feira, 11 de julho de 2014

Sísifo na Terra Santa




Por Pedro Nascimento Araujo

Na mitologia grega, o rei Sísifo recebeu uma punição por ter enganado os deuses e a morte: rolar uma pedra morro acima: somente quando lograsse êxito ele poderia descansar (leia-se morrer). A ironia é que Zeus havia posto um feitiço na tal pedra: sempre que chegasse perto do cume, ela rolaria de volta para a base. E assim, por ter sido condenado a passar a eternidade tentando rolar até o cume uma pedra que nunca chegaria lá, o mito de Sísifo atravessou os séculos como a mais perfeita descrição de esforços inúteis. Se os gregos antigos que criaram o mito de Sísifo estivessem vivos hodiernamente, poderiam adaptá-lo para a mais ingrata tarefa de nosso tempo: a busca da paz na Terra Santa. Na última semana, uma nova escalada de tensões entre Israel e Hamas fez o papel do feitiço de Zeus e rolou a pedra morro abaixo. Como sempre, Sísifo vai ter de começar tudo de novo.

A mais recente fonte de atrito entre os lados pode ser contada nos dedos de uma mão: um jovem palestino (Mohammed Abu Khdeir, 17 anos) foi brutalmente e covardemente assassinado, dois povos (judeus e árabes) que simplesmente não conseguem conviver em harmonia, três jovens israelenses (Eyal Yifrah, 19 anos, Gilad Shaar, 16 anos, e Naftali Frenkel, 16 anos) foram brutalmente e covardemente assassinados, quatro negociadores (Hamas, Fatah, Israel e Estados Unidos) que simplesmente não conseguem negociar a paz e as cinco letras que formar a palavra Hamas. Desse jeito, fica difícil se chegar na outra mão. Aliás, os assassinatos em questão foram bastante parecidos: todos foram sequestrados e executados sumariamente. Evidentemente, as semelhanças acabam aí, pois as reações dos governos de Israel e do Hamas não poderiam ser mais díspares, mas voltaremos a este tópico mais adiante; por ora, é importante notar que os radicais israelenses (judeus) e os radicais palestinos (muçulmanos) estão mais próximos do que nunca, infelizmente – e o nivelamento foi por baixo, na violência. Há evidências claras de que os jovens israelenses foram sequestrados e mortos por terroristas muçulmanos (a ligação de um deles para a polícia é interrompida por gritos em árabe e é possível ouvir a comemoração dos assassinos: “Pegamos três!”), assim como há evidências claras de que o jovem palestino foi sequestrado e morto por terroristas judeus em retaliação à morte dos três jovens uma semana antes. O risco de escalada do terrorismo cruzado entre judeus e muçulmanos causado pelos assassinatos são dois (o primeiro e o terceiro da nossa lista) dos cinco feitiços de Zeus, digo, motivos, para rolar a pedra ladeira abaixo. Mas há mais.

Um terceiro motivo (o segundo na nossa lista) que empurra a pedra para baixo é a incapacidade crônica que árabes e judeus têm de conviver em harmonia. Os palestinos não conseguem se entender acerca da relação com Israel. Ao contrário de outros povos vizinhos que alimentaram a ilusão de fazer um segundo Holocausto, foram devidamente surrados em todas as vezes que agrediram Israel militarmente e acabaram estabelecendo a paz com os israelenses, os palestinos não têm forças armadas simplesmente porque não têm país. Aliás, nunca tiveram: antes da criação de Israel, eram expulsos de país em país – dentre os muçulmanos, historicamente sofrem discriminações que, não raro, resultaram em segregações – e, quando a ONU optou pela criação de dois países para dois povos historicamente discriminados e com ocupação ancestral na região, simplesmente não quiseram que os judeus vivessem ao lado deles. Foi um erro histórico, como admitiriam apenas no Século XXI líderes palestinos como Mahmud Abbas, presidente da Autoridade Palestina, que controla a Cisjordânia. Não aceitar conviver com judeus não foi apenas um ato de preconceito ou racismo: foi uma decisão que impediu gerações de palestinos de crescer, se desenvolver, superar a pobreza crônica em que sempre viveram – basta olhar para Israel, uma democracia com índices sociais de país desenvolvido, pesquisas científicas que são referência mundial etc., e comparar com os territórios palestinos, onde não há nem democracia nem desenvolvimento, tanto humano quanto científico.

O quarto motivo em nossa lista diz respeito à incapacidade de os Estado Unidos agirem como catalisadores da paz. O problema principal reside em Israel, cansada de guerra, não parecer disposta a fazer novas concessões quando o que sempre recebe em troca são exigências impossíveis. Os israelenses, após mais de duas décadas depois dos Acordos de Oslo (1993), parecem conformados em viver com vizinhos belicosos em Gaza: estão construindo sistemas de defesa sofisticados enquanto aguardam a emergência de uma nova geração de líderes que estejam dispostos a fazer a paz. Enquanto isso, apenas de maneira pro forma cedem às pressões americanas para negociar, sem esperanças de conseguir um compromisso sério, mormente por conta do derradeiro motivo de nossa lista, o Hamas. Eis o paradoxo: enquanto o Hamas não renunciar à sua missão de “varrer Israel do mapa”, não haverá paz; mas, enquanto não houver paz, haverá o Hamas. Isso decorre da falta de habilidade de negociar dos quatro lados (o quarto motivo em nossa lista). O Fatah, partido políticos de Mahmud Abbas, que promovia atentados por meio de subsidiárias como o Setembro Negro, que foi responsável pelo assassinato de 11 atletas israelenses na Vila Olímpica das Olimpíadas de Munique em 1972, já reconhece o direito de existência de Israel, mas o Hamas (outro motivo, o quinto na nossa lista) ainda não. Encastelado em seu pequeno califado da Faixa de Gaza, o Hamas aterroriza seu próprio povo (ditadura, aplicação compulsória da sharia, execuções sumárias, censura etc.) e seus vizinhos (somente na última semana, disparou mais de 200 foguetes contra Israel). Para o Hamas, a paz com Israel significaria seu fim: cada vez que Israel se defende de seus ataques (e que país aguentaria 200 foguetes atirados em seu território em uma semana sem declarar guerra além de Israel?), o Hamas justifica sua existência. Quando extremistas palestinos assassinam três jovens israelenses, o Hamas (que trata os grupos terroristas em seu território da seguinte maneira: obediência ou morte – e morte de arrastar corpos nas ruas) não faz uma condenação pro forma sequer, mas, quando extremistas israelenses matam um jovem palestino (e são presos pelas forças policiais de Israel, cujo Premier dá declarações públicas de condenação ao ato), promete vingança e autoriza o bombardeio de civis israelenses com centenas de seus foguetes. Então, Israel faz bombardeios a alvos militares e/ou uma incursão em Gaza, e o Hamas justifica sua existência como bastião da “resistência” palestina. Com apenas cinco letras, o Hamas é o maior feitiço de Zeus na empresa de Sísifo hodierna que é fazer a paz na Terra Santa.

Pedro Nascimento Araujo é economista.

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