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quinta-feira, 9 de outubro de 2014

A pata de macaco de Dilma Rousseff


Por Pedro Nascimento Araujo

Há um pequeno conto muito conhecido no Reino Unido, chamado “A pata do macaco”. Escrito em 1902 por William Jacobs, trata do casal White e seu filho Herbert. Um amigo do Senhor White, veterano oficial do Royal Army na Índia, lhe apresenta uma pata de macaco mágica, que possui o dom de conceder três desejos a quem a possuir – ele a havia herdado de um faquir cujo último desejo havia sido a própria morte e a lançou no fogo, de onde o Senhor White a recuperou furtivamente. Seu primeiro desejo é obter £ 200 para quitar a hipoteca. Logo em seguida, Herbert, o filho do casal morre em um acidente de trabalho e seus pais recebem o seguro de exatos £ 200. A história ficou famosa por tratar das consequências inesperadas dos desejos. Caso Dilma Rousseff já tenha lido “A pata do macaco”, neste final de semana, ao ver os resultados do Primeiro Turno da eleição presidencial, ela certamente se lembrou da moral do conto: cuidado com o que você deseja, porque pode virar realidade.

A campanha de 2014 foi sui generis. A trágica morte de Eduardo Campos colocou Marina Silva no olho do furacão com uma carga emocional jamais vista em uma eleição presidencial. A acreana subiu com uma velocidade estonteante, roubando votos não apenas de Dilma Rousseff, mas também de Aécio Neves. O tucano, para quem a campanha petista havia treinado toda sua infantaria para atacar, abruptamente pareceu ser carta fora do baralho. Marina Silva passou a liderar as intenções de voto no Segundo Turno e empatou (conquanto na margem de erro) com Dilma Rousseff no Primeiro Turno. Com tudo isso acontecendo, o inimigo deixou de ser o cada vez menos ameaçador Aécio Neves (cujas intenções de voto chegaram a se aproximar de um humilhante dígito) e passou a ser a cada vez mais favorita Marina Silva: as condições do teatro de guerra mudaram completamente. Assim, como os generais reais, que sempre estão preparados para lutar a última guerra, os comandantes do marketing eleitoral do PT foram confrontados com uma situação nova no seu front particular. E, à moda dos grandes estrategistas, foram extremamente eficientes ao criar novos planos de ação na hora mais difícil para executar a nova missão: literalmente, pulverizarar a candidatura de Marina Silva. Internamente, o termo era o neologismo “dessacralizar” a ex-seringueira. A vontade de desconstruir Marina Silva foi tamanha que, houvesse uma pata mágica de macaco à mão, Dilma Rousseff teria feito disso seu primeiro desejo: destruir as chances de Marina Silva. Deu certo, mas deu certo à moda da pata de macaco – assim como as £ 200 para quitar a casa vieram do seguro de vida do filho, a derrocada de Marina Silva veio à custa de argumentos que reviveram um quase moribundo Aécio Neves: o medo do desconhecido, a inexperiência e a falta de apoio político que Marina Silva representaria.

Assim, o que Dilma Rousseff fez para marar Marina salvou Aécio. Não há como falar em medo do desconhecido com Aécio Neves simplesmente porque, desde antes de Marina Silva ser o inimigo a ser derrotado, a campanha de Dilma Rousseff buscava posicionar Aécio Neves como sucessor do governo de Fernando Henrique Cardoso, comparando as realizações daqueles governos com as dos atuais, concomitantemente à associação de Marina Silva a um salto no escuro. Se a própria estratégia seguida por Dilma Rousseff tornou impossível associá-lo ao desconhecido, também não haveria como explorar sua inexperiência: o mineiro já foi duas vezes governador da segunda maior unidade federativa nacional – e realizou um dos governos mais bem-avaliados da história do país. Portanto, quando o atacava por meio de críticas às realizações dele em seus dias de governador e atacava Marina Silva por sua inexperiência, a campanha de Dilma Rousseff apenas alimentava o monstro que agora ameaça devorá-la. Por fim, a pata do macaco permitiu que a exploração por parte de Dilma Rousseff da falta de capacidade de forjar alianças políticas de Marina Silva servisse apenas para destacar o quanto Aécio Neves possui essa capacidade (uma que a própria Dilma Rousseff não possui como herança, mas sim como concessão de Lula da Silva: ela é sabidamente e reconhecidamente hostil à arte da negociação política), que nele pode até ser um traço genético: seu avô Tancredo Neves, quem o iniciou na carreira política, era um mestre nesse assunto. Tancredo Neves conseguiu ser Primeiro Ministro durante os turbulentos anos do parlamentarismo brasileiro (1961-1963) exatamente por sua capacidade de conciliação, e levou-a ao paroxismo quando conseguiu reunir apoios suficientes no Congresso Nacional para vencer a eleição indireta, sendo de oposição e sem ter maioria parlamentar para tanto. É irônico como a lição da pata do macaco cairia perfeitamente na desconstrução de Marina Silva: o que Dilma Rousseff tanto desejou aconteceu – mas não como ela esperava, como sói ser quando a pata do macaco executa sua mágica.

Em “A pata do macaco”, aliás e a propósito, dez dias após a morte do próprio filho do Casal White (que lhes gerou exatamente a quantia para quitar a hipoteca da casa, primeiro pedido à pata do macaco), a Senhora White, saudosa de Herbert e arrependida de ter concordado com o pedido do marido, pede ao Senhor White que use o segundo desejo para trazer Herbert de volta à vida. Compadecido, ele cede. Logo em seguida, alguém bate à porta da residência dos White e a Senhora White se encaminha para abri-la. Súbito, o Senhor White se lembrou do reconhecimento do corpo de Herbert há mais de uma semana: ele estava completamente estraçalhado pelo acidente e, temendo pelo estado do filho que, dilacerado, morto e enterrado há mais de uma semana, estaria revivido do outro lado da porta, ele fez seu derradeiro pedido à pata do macaco, um que ele jamais cogitou querer: desejou a morte do filho revivido e as batidas cessaram imediatamente. Quando a Senhora White finalmente abriu a porta, não havia ninguém do outro lado. Como os White, Dilma Rousseff pode pagar um preço alto demais por ter conseguido destruir Marina Silva: a virulência dos ataques que fez à própria ex-candidata, usando manipulações e mentiras grosseiras, além de ofensas pessoais, simplesmente inviabilizam qualquer possibilidade de reconciliação e de apoio para o Segundo Turno. Assim como aconteceu com o corpo de Herbert, os brios de Marina Silva foram estraçalhados além do ponto de recuperação apenas para atender ao desejo de Dilma Rousseff. Dilma Rousseff não apenas fortaleceu Aécio Neves quando batia abaixo da linha de cintura de Marina Silva, mas também ressaltou as qualidades dele enquanto a difamava e, principalmente, criou as condições para uma aliança das oposições contra si, com um Aécio bem mais forte e com uma Marina nadando em rancor. Se antes do desejo de Dilma Rousseff se tornar realidade, a possibilidade de Marina Silva dar prosseguimento ao pacto firmado entre Aécio Neves e o finado Eduardo Campos para apoio incondicional para o candidato de oposição que fosse para o Segundo Turno era virtualmente nula, agora é bastante plausível – e uma aliança de ambos, ao menos no campo teórico, terminou o Primeiro Turno com mais de 10 milhões de votos de vantagem sobre Dilma Rousseff. Um enorme revés para a candidatura de Dilma Rousseff decorrente de seu desejo – destruir a candidatura de Marina Silva – ter sido realizado; pensando bem, Dilma Rousseff nem precisa mais de uma pata de macaco mágico: a essa altura, ela já aprendeu a ter cuidado com o que deseja, porque pode virar realidade.


Pedro Nascimento Araujo é economista.

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