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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

A hora da Índia


Por Pedro Nascimento Araujo

A fotografia mais comentada na viagem de Barack Obama à Índia na última semana registrou o momento em que o presidente americano levava um chiclete à boca. O momento era solene: como primeiro chefe de estado a testemunhar a comemoração da independência indiana, Obama estava sentado ao lado do Premier Narendra Modi quando o registro instantâneo foi feito. O momento prosaico, todavia, não esconde a importância do fato: o presidente dos Estados Unidos da América assistiu ao Desfile de Independência ao lado do Premier da Índia, um sinal de prestígio raras vezes visto para um país emergente – a probabilidade de Obama acompanhar um desfile de Sete de Setembro é nula.

O momento conspira a favor da Índia. E isso fica ainda mais evidente quando observarmos as perspectivas dos demais países do acrônimo BRIC. Pela ordem do termo cunhado por Jim O’Neill em 2001, começaremos pelo Brasil. Desde 2010, o gigante sul-americano não consegue crescer. Os números de 2014 ainda não saíram, mas não devem ser bons: apesar de uma recessão ter sido observada no meio do ano, a explosão de gastos do governo em ano eleitoral deve garantir que o ano termine em estagnação. Para 2015 há expectativa de nova estagnação ou, no caso cada vez mais provável de racionamento energético sistemático, recessão. O país enfrenta o desafio de fazer um rigoroso ajuste fiscal e a inflação deve mais uma vez frequentar o limite superior da meta. Quanto à Rússia, não há perspectiva de melhora: pária na comunidade internacional por sua atuação colonialista na Ucrânia, o país de Putin I está sofrendo sanções comerciais de americanos e de europeus exatamente quando os preços do petróleo e do gás natural, seu principais geradores de divisas, batem recordes de baixa. Resultado: rublo derretendo, inflação, recessão e os títulos do governo oficialmente classificados como lixo (“junk bonds”), um cenário capaz de fazer o Brasil parecer um paraíso, com duração estimada de pelo menos mais quatro anos caso os preços dos hidrocarbonetos não subam muito e logo. Pelo que se vê facilmente, a parte interessante dos BRIC está na Índia e na China.

Comecemos pela China. Desde que Deng Xiaoping iniciou suas reformas no final dos anos 1970, os olhos do mundo se voltaram para o Império do Meio. A China cresceu de forma assustadora desde então, mas já deu sinais de chegar ao seu limite. Especificamente, a China (assim como o Brasil) está na fase final de seu bônus demográfico, como é conhecido o período no qual há menos dependentes (pessoas que não geram renda, como velhos e crianças) para cada pessoa em idade ativa – isso permite uma acumulação maior de riqueza por parte das famílias, que custeiam menos dependentes, e do governo, que custeia menos gastos com saúde, educação e previdência social. Isso implica dias menos prósperos pela frente, mas há algo pior, com requintes de crueldade irônica: a China, país que instituiu uma severa, desumana e brutal política de contenção populacional conhecida como Política do Filho Único, está com um nível de fertilidade abaixo da taxa de reposição populacional, em um fenômeno cujo nome lembra mais uma tática de futebol do que uma bomba demográfica: 4-2-1 (na primeira geração, quatro pessoas geram dois filhos e na segunda geração os dois filhos geram apenas um filho: assim, em duas gerações, restaria apenas um de cada quatro chineses). Isso poderá acabar com o diferencial competitivo da China, medido basicamente em mão de obra abundante e barata, que não apenas está acabando (há países como o Vietnam nos quais há mão de obra ainda mais em conta), como vem sendo cada vez menos importante com a ascensão da produção industrial customizada, que paulatinamente vem trazendo de volta para o Primeiro Mundo as manufaturas que se haviam transferido para a China – exatamente aquelas de maior valor agregado e que são intensivas em tecnologia e em mão de obra qualificada. Porém, enquanto a Brasil, Rússia e China não têm senão preocupações, a Índia está começando a viver seu apogeu.

Narendra Modi em nada lembra os populistas que dominaram a Índia desde sua independência em 1947. Ele é um homem pró-mercado e quer incluir sua enorme população (com quase 1,3 bilhão de pessoas, a Índia é o segundo país mais populoso do mundo, mas deve ultrapassar a China antes do meio do Século XXI) no capitalismo mundial. Modi quer que os indianos saiam da informalidade. A arma encontrada é um sistema bancário receptivo a uma população pobre e não acostumada a ser tratada como cliente – vale lembrar que, embora proscritas pelos britânicos, as castas ainda são parte integrante do cotidiano na Índia, notadamente fora das grandes cidades. Modi compara os milhões de indianos fora do sistema bancário a dálits financeiros – mais conhecidos como “intocáveis”, os dálits são a casta mais baixa da Índia e corroboram uma ancestral suspeita de racismo: enquanto os dálits são caracteristicamente pessoas de tez escura (os brâmanes, a casta mais elevada, é composta de descendentes de arianos, cujas tezes são muito mais claras). Ao menos no campo financeiro, Modi conseguiu libertar mais de 100 milhões de intocáveis: esse é o número (na verdade, quase 120 milhões) de indianos que abriram contas bancárias desde que o governo passou a estimular a prática. O objetivo de Modi é direto: fazer uma modernização econômica na Índia nos moldes daquela feita com sucesso em países como China e lanças as bases de um crescimento sustentável de longo prazo. Longo mesmo: o objetivo não declarado da Índia é suplantar a China como a segunda maior economia do mundo ainda no Século XXI. As reformas liberalizantes de Modi devem reduzir o tamanho do governo – e, com isso, reduzir espaços para a prática de corrupção – por meio de desburocratizações e devem flexibilizar o modelo pré-thatcheriano de capitalismo que ainda grassa no país por uma típica economia de mercado liberal. A favor da Índia também está o fator que ora leva a Rússia à lona: a queda do preço do petróleo (a Índia importa mais de 80% do óleo que consome) deve liberar divisas para a modernização do país. Tudo somado (China perdendo fôlego, petróleo em queda e reformas liberais), a Índia deve atrair vultosos investimentos e crescer mais do que a China já a partir deste ano. Modi sabe que o Ocidente nutre sérias desconfianças com relação a Beijing: o Partido Comunista Chinês patrocina atividades de espionagem industrial, faz bullying para com os vizinhos mais fracos, responde a disputas territoriais com corrida armamentista, faz diplomacia financeira ativa junto ao Terceiro Mundo, banca a ditadura hereditária da Coreia do Norte etc.: na China, todos os clichês de potência ascendente com potencial desestabilizador estão perigosamente próximos; na Índia, não. Modi sabe bem disso, assim como Obama. Isso explica a visita que ficou marcada pelo chiclete presidencial: mais do que uma demonstração de prestígio, Obama foi reafirmar a aliança preferencial de Washington com Nova Délhi, um adversário antigo (há disputas fronteiriças em aberto) e poderoso (é nuclearmente armado) de Beijing.Mutatis mutandis, na sempre dinâmica geopolítica asiática, a Índia quer ser a nova China – e conta com o apoio dos Estados Unidos para tanto.


Pedro Nascimento Araujo é economista.

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