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terça-feira, 25 de agosto de 2015

Eduardo e Dilma - Por Pedro Nascimento Araujo




Poucas coisas são mais humanas do que as reações diante de uma perda iminente. Pode ser de um amor, pode ser de um emprego. As origens variam: pode ser um vício, pode ser uma doença terminal, pode ser um caso extraconjugal saindo do controle. Independentemente de qualquer coisa, as reações geralmente seguem um padrão bem estudado pela psicologia, que denomina a todos como processo de luto. Vários acadêmicos dedicaram-se a esse assunto, mas a tese que prevalece é a da psiquiatra suíço-americana Elisabeth Kübler-Ross. Em 1969, ela lançou a teoria dos cinco estados do processo de perda (ou luto) em seu livro “On Death and Dying” (algo como “Sobre morte e morrer”, em tradução livre): segundo Kübler-Ross, todos passaríamos pelos estágios de Negação, Cólera, Barganha, Tristeza e Aceitação. Nesse momento, Eduardo Cunha e Dilma Rousseff estão no primeiro estágio, a Negação: se recusam a admitir que são ocupantes indesejados em seus cargos e que suas saídas seriam a melhor solução para aqueles que os rodeiam. Conforme veremos a seguir, não será bom para o Brasil se eles passarem por todos os estágios descritos por Elisabeth Kübler-Ross em seus cargos.

Dilma Rousseff ostenta a maior rejeição jamais medida para qualquer ocupante da Presidência da República, com menos de 10% da população considerando seu governo bom ou ótimo. Já seria um espanto normalmente, mas esse dado se torna particularmente surreal quando se percebe que ela só cumpriu um oitavo do seu segundo mandato. Dilma Rousseff é uma pálida caricatura de si mesma que está condenada a passar os sete oitavos restantes de seu segundo mandato arrastando correntes apenas para incomodar os brasileiros, porque esse é um espectro que não mais mete medo em pessoa alguma. Quando se olham suas atitudes para vencer as eleições de 2014, fica patente o porquê de tanta rejeição: ela jogou tão sujo com os adversários que conseguiu torná-los inimigos (os ataques a Marina Silva são um caso à parte, como a peça de propaganda que afirmava que a acreana entregaria o comando da economia nacional aos grandes banqueiros) e, principalmente, ela mentiu demais para o povo brasileiro, dizendo que a situação econômica estava bem e que não seria necessário fazer exatamente o ajuste recessivo que se pôs a fazer tão logo os resultados foram promulgados. O povo sentiu-se traído de maneira irreversível. O mais interessante é que ela criou essa situação, mas ela ainda não reconheceu seus erros, e não parece estar disposta a fazê-lo – um indício inequívoco de que está na fase de Negação, como um alcoólatra que se engana dizendo ser capaz de parar de beber quando quiser. Apenas uma mente na fase de Negação não percebe que seus próprios áulicos anseiam por sua saída do cargo para anuviar a pressão da qual são vítimas pelo simples motivo de ela ainda estar dando expediente no terceiro andar do Palácio do Planalto.

Para a dupla Eduardo e Dilma ficar completa, precisamos entender também porque Eduardo Cunha está na fase de Negação. O caso dele é mais direto: ele está em vias de começar a ser julgado por corrupção. Apenas uma mente na fase de Negação não reconhece que seus próprios pares vão oferecer a cabeça dele para que saiam da berlinda em que estão entrando por causa dele. Como que para provar que estão em plena fase de Negação, tanto Eduardo quanto Dilma sequer a cogitar renúncia e se referem a quaisquer tentativas de afastá-los do cargo como ilegítimas. Mais do que um direito deles, é a reação natural e esperada deles: na Negação, evitamos até mesmo mencionar o assunto cuja existência estamos negando, como uma criança que tem certeza de que o mundo desapareceu quando lhe tamparam os olhos. Isso, por mais pueril ou ridículo que possa soar, é perfeitamente humano: todos nós tentamos nos agarrar a réstias de esperança quando nos deparamos com a inexorabilidade de algo que não desejamos. Mas o processo descrito por Elisabeth Kübler-Ross é inequívoco – em algum momento, a Negação não mais será possível. Em algum momento, ficará evidente que não haverá solução além da saída deles de seus cargos. O constrangimento a que estão sendo submetidos é um perfeito indicativo disso: nenhum deles sequer cogita aparecer em público sem uma claque e, cada vez que um deles fala, não se pergunta sobre outra coisa além da Crise Dual (política e econômica). Se ele mudarem seus nomes para Dilma Crise e Eduardo Crise, poucas pessoas notarão: parece que Crise é o sobrenome deles. É uma situação desesperadora. Porém, como todos nós fazemos em situações assim, eles estão esperando uma cura milagrosa que não virá. E se recusam a sair de cena, como se fosse uma péssima ideia fazer um tratamento paliativo que lhes permita aliviar suas dores e evitar os sofrimentos que, ao final das contas, serão absolutamente inúteis. Eles ainda estão em Negação. Pessoas na fase de Negação simplesmente não enxergam o óbvio, por mais ululante que seja.

Podemos ver sinais das fases seguintes, que já começam a dar seus sinais de emergência em Eduardo e Dilma. Um dos mais clássicos sintomas da fase de Cólera é atribuir a culpa de tudo a qualquer pessoa ou circunstância, menos a si mesmo. Dilma Rousseff, que já era conhecida pela maneira, digamos, pouco polida com que tratava seus subordinados, apenas acentua esse traço pouco abonador de sua personalidade. Eduardo Cunha, muito conhecido por literalmente atropelar seus desafetos, está abusando do tinteiro de sua caneta. A consequência para ambos é a mesma: menos apoio, mais isolamento, mais pessoas aos seus redores torcendo por suas saídas. É um círculo vicioso, do qual nem ele nem ela parecem ser capazes de escapar por alguma secante providencial. E, desse ponto em diante, a coisa só faz piorar. Entra-se na fase da Barganha, por meio da qual tentamos negociar qualquer coisa para nos salvar. Shakespeare, como sempre, tem o melhor exemplo da fase de Barganha, em Ricardo III, uma de suas peças históricas. Para virar rei, Ricardo III recorreu aos mais pérfidos expedientes, dentre eles o infanticídio; porém, quando se viu diante da morte, a pé e diante de seu algoz na Batalha de Bosworth Field (batalha que pôs um termo à Guerra das Rosas), ele teria feito a famosa proposta de barganha: “Meu reino por um cavalo!”. Para quem está na fase da Barganha, jacaré e tábua e qualquer negócio é lícito. Em uma das maiores provas do tamanho da mesquinharia humana, uma pessoa em fase de Barganha aceita dar tudo o que tem para salvar a própria pele, inclusive aquilo que literalmente lhe custou a alma para conquistar, em troca de uma salvação que ela sabe ser impossível. Saindo da obra de Shakespeare e voltando à realidade comezinha de Eduardo e Dilma, isso significa dizer que as propostas mais esdrúxulas serão acolhidas por eles como flutuadores temporários, apenas para serem abandonadas em seguida, em prol de uma proposta ainda mais estapafúrdia que se lhes parecerá um flutuador ainda melhor. É a situação perfeita para o desfile macabro dos manipuladores profissionais de plantão, que Shakespeare tão bem sintetizou na figura do pérfido Iago, em “Otelo, o mouro de Veneza”. Há indícios de estarmos chegando nessa fase tanto para Eduardo quanto para Dilma. Eles estão aceitando dar as mãos a quem quer que as entenda a eles. É a última fase na qual lutarão por seus cargos. Depois desse momento, que pode durar bastante tempo e, portanto, nunca acontecer simplesmente porque seus mandatos previstos podem simplesmente acabar seus prazos antes, Eduardo e Dilma simplesmente entregarão os pontos.

Chegamos nas fases derradeiras, que Elisabeth Kübler-Ross denominou Depressão e Aceitação. Na verdade, ela poderia tê-las agrupado em uma, mas preferiu a diferenciação; afinal, ambas tratam do momento no qual a ficha finalmente caiu e a pessoa percebe que não há escapatória, mas os estados de espírito são distintos. Em comum, a certeza de que o fim está a caminho e não há nada que se possa fazer para impedi-lo de chegar. Quando se trata da iminência da própria morte, é o momento no qual se começa a fazer os planos para o fim, mas, quando se trata de eventos como a perda de um cargo, é o momento no qual se para de ter ilusões de permanência. Agora, tudo passa a ser mera questão de tempo. É como se disséssemos a nós mesmos: já sabemos o que nos vai acontecer, só nos falta saber quando. E eis porque a psiquiatra suíço-americana dividiu esse período em duas fases: a Depressão é diferente da Aceitação. Eduardo e Dilma ainda não estão nas fases finais. Quando e se chegarem a elas, estarão no pior dos mundos. Eles ocupam os dois cargos mais poderosos do Brasil. Se entrarem na fase de Depressão, marcada por uma constante apatia e por pensamentos muito ruins, estarão em maus lençóis. Sozinhos, encastelados, tristes. Uma situação que não se deseja a pessoa alguma. Dante Alighieri, em sua magistral Divina Comédia, colocou, na entrada do Inferno, os dizeres “Lasciate ogne speranza, voi ch'intrate” (“Abandonai toda esperança, vós que entrais!”), como primícias para uma vida sem esperança. Assim é a fase de Depressão. Para aqueles que a superam, uma vez que muitos tiram a própria vida nessa fase, vem a fase de Aceitação. É a capitulação, normalmente acompanhada de um profundo entendimento dos porquês de se ter chegado até tal estágio. Quem chega nela costuma das mostras de contrições públicas dignas de aplauso: não há mais arrogância, traço definidor e de união para Eduardo e Dilma. Há, apenas, paz. E mais nada para eles. Para o Brasil, ficaria a conta caso eles passassem por todos esses estágios nos seus cargos. Não merecemos.

Pedro Nascimento Araujo é economista.

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