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sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Quando o homem supera o símbolo




Por Pedro Nascimento Araujo

O aquecimento global é um fato dos mais incontestáveis. Com a temperatura média da Terra batendo recordes a cada década, não há como negar sua existência. Todavia, a exata dimensão da ação antrópica nesse processo ainda é desconhecida: o planeta passou por fases quentes e geladas antes que o ser humano existisse e continuará a passar por fases quentes e geladas depois que o ser humano estiver extinto. Assim, a ação humana pode, no máximo, estar acelerando um processo cíclico e natural: não o criou nem poderá detê-lo. Não obstante isso, a simples possibilidade de estarmos acelerando o aquecimento global já nos leva ao imperativo de desenvolver ações para reduzir os efeitos da ação humana sobre o aquecimento global – se não podemos detê-lo, ao menos podemos não acelerá-lo. E, para não acelerá-lo, precisaremos criar tecnologias para geração e uso de energia eficientes e sem carbono. Uma tarefa e tanto, que políticos enxergam como daninha à geração de empregos em curto prazo, o que efetivamente é – assim como foram a substituição de carroças por automóveis no passado, quando levas e levas de pessoas repentinamente viram-se sem emprego, ao passo que levas e levas de pessoas repentinamente viram-se diante de novos empregos. Em outras palavras: aonde políticos veem um problema, empreendedores veem uma oportunidade; afinal, há espaço para lucros extraordinários só proporcionados por inovações. Demorou muito, mas, finalmente, o governo da mais inovadora sociedade do mundo vai usar seu poder regulatório para direcionar o desenvolvimento tecnológico americano para a geração de energia sem carbono. Já não era sem tempo: nesta semana, Barack Obama anunciará o CPP (Clear Power Plan no original em inglês, ou Plano de Energia Limpa) e, a partir dele, os Estados Unidos da América liderarão a revolução energética sem carbono do Século XXI do mesmo modo que lideraram a revolução energética com carbono do Século XX. Obama, que tanto procurava por um legado para os livros de história, finalmente conseguiu um. Além de ser um símbolo ambulante, Barack Obama passará a ter uma obra assinada.

A mudança gestada em Washington tem a marca de Barack Obama. Ele, em si, era, até agora, o seu maior legado. Basta lembrar que, quando ele nasceu (1961), os negros não tinham direitos civis em muitos estados americanos: poucos anos antes (1955), teve lugar a icônica desobediência civil de Rosa Parks – ela se recusou a levantar-se de seu assento na parte reservada para não brancos de um ônibus no Alabama para que um branco pudesse sentar-se porque não havia assentos disponíveis no setor dos brancos. Se alguém vaticinasse no dia do nascimento daquele menino negro que ele um dia seria POTUS (Presidente dos Estados Unidos, na sigla original em inglês que designa os supremos mandatários americanos), arriscaria internação imediata em uma casa de lunáticos. E, menos de 50 anos depois de nascer, lá estava Obama dando expediente no Salão Oval da Casa Branca. É difícil mesmo imprimir uma marca maior na vida do que essa marca simbólica que Barack Obama carrega simplesmente por ser Barack Obama. E, todavia, Barack Obama conseguiu. Não por meio de sua claudicante política externa, que comemora como grande feito um pífio acordo nuclear com o Irã que não alterou em um iota o status quo mundial, tampouco por meio de sua desastrada política econômica, que não apenas não reduziu os déficits herdados da administração anterior, como também aumentou sobremaneira a dívida do governo americano, mas por sua política ambiental – a qual, diga-se, até então não tinha coisa alguma digna de nota de rodapé na grande história americana. Porém, ao anunciar o CPP, o homem Barack Obama finalmente superou o símbolo Barack Obama.

Os detalhes ainda serão apresentados e alguns itens certamente serão negociados, mas, em linhas gerais, o Clear Power Plan de Barack Obama trata de estimular a geração de energia por fontes sem emissão de carbono – e, eis a cereja do bolo, para o CPP simplesmente trocar carvão ou petróleo por gás natural, apesar de reduzir sobremaneira a geração de carbono, não é a solução de longo prazo: a solução de longo prazo é avançar em energias solar, eólica, geotérmica, maremotriz etc. Apenas essa posição de não ser condescendente com o gás natural indica a importância do projeto feito pela EPA (Agência de Proteção Ambiental, ou Environmental Protection Agency, a mesma que isolou Springfield no longa-metragem de Os Simpsons) e patrocinado por Obama. O CPP prevê cortar em um terço as emissões de carbono dos EUA até 2030, tendo como base 2005. A bem da verdade, os americanos, conquanto não participando do Protocolo de Kyoto, já cortaram em dez anos 13% das emissões em relação a 2005. Todavia, as iniciativas haviam sido individuais de estados da federação, com destaque para a Califórnia. Agora, assim como ocorreu em outros momentos decisivos, como nos direitos civis, as ações pontuais virarão ações federais. Isso prova que estamos diante de uma inflexão – ou, como Barack Obama prefere, diante de um legado.

Barack Obama está convencido de que o mundo buscará fontes de energia sem carbono cada vez mais. E vê nisso uma oportunidade para a inventividade americana. O país com as mais avançadas pesquisas e com as mais inovadoras empresas do mundo é o país que pode desenvolver e exportar tecnologia para um mundo que quer, cada vez mais, gerar energia sem usar carbono. Parece óbvio direcionar a tecnologia americana para criar o que será demandado. Parece óbvio e é óbvio: os ganhos futuros decorrentes da liderança mundial em geração de energia sem carbono mais do que compensarão as perdas presentes de tal mudança. Porém, as perdas presentes sempre são dolorosas. Pessoas perderão empregos, cidades perderão receita. Não é fácil mudar. Haverá resistências aos borbotões. Como houve quando a “carruagem sem cavalos” começou sua irresistível ascensão. Ou quando formulários online substituíram formulários enviados pelo correio e custaram os empregos de digitadores. Isso tudo é Schumpeter na veia: trata-se da criação destrutiva, quando novas tecnologias aumentam a produtividade da economia como um todo, mas custam os empregos daqueles que estavam presos à tecnologia antiga. Fazer isso requer a coragem de um estadista: estar disposto a sofrer críticas mordazes no curto prazo em troca de um reconhecimento que talvez nunca chegue em vida, mas que, um dia, virá – simplesmente por saber que fez o que deveria ser feito, independentemente de aplausos fugazes.

Infelizmente, falar em absolvição por parte da história tornou-se farsesco desde que Fidel Castro, o ditador cinquentenário de Cuba, arvorou-se tal possibilidade. Para Castro, a história não será benéfica, quanto mais se descobrem coisas sobre sua vida. Para Barack Obama, todavia, a história será benevolente. Daqui a cinquenta anos, Barack Obama será lembrado tanto por ter sido um símbolo (o primeiro negro a ser POTUS) quanto por ter direcionado os Estados Unidos da América, país nascido sem nome (forma de estado e localização geográfica decididamente não são um nome) e formado com base na rígida ética protestante de trabalho que Max Webber tão bem descreveu, para a liderança tecnológica do mundo sem carbono – exatamente o mundo que está substituindo o mundo baseado em carbono que os EUA não apenas lideraram, como também moldaram à sua imagem e semelhança. Que um país possa se reinventar é fabuloso, mas é mais fabuloso ver um reinventa-se e para tornar-se maior do que o símbolo que ele já é. Testemunhar isso é um privilégio.

Pedro Nascimento Araujo é economista.

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