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segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Bōnenkai - Por Pedro Nascimento Araujo


Bōnenkai

Bōnenkai é uma celebração japonesa realizada ao ocaso de cada ano. A palavra, cuja tradução significa literalmente festa para desvencilhar-se do ano velho (Bōnen = despedida do ano velho e Kai = celebração), é tradicionalmente entoada no Japão em meio a reuniões de toda a sorte com o objetivo de desapegar do ano que se encerra e iniciar o ano vindouro sem qualquer laivo do passado. No Brasil, nem mesmo em locais de forte presença nipônica o Bōnenkai é celebrado. É uma pena, pois poucos países no mundo precisam mais de um belo Bōnenkai do que o nosso. Que 2015 é um ano para se esquecer, não há dúvidas. Consenso maior ainda é que não devemos coisa alguma de 2015 para 2016. Bōnenkai.

Na prática, podemos nos esquecer desse Bōnenkai 2015. Os desastres do ano que ora se encerra já projetam suas sombras sobre 2016, 2017 e 2018. A sombra de 2015 é a sombra de Dilma Rousseff. O Tripé Macroeconômico foi apedrejado, decepado e enterrado sem cerimônias em 2015. O Brasil voltou a conhecer déficits primários. A recessão é recorde; aliás, já que perdurará por ao menos mais um ano, chamemo-la pelo nome correto: depressão. A inflação bateu os dois dígitos e o desemprego segue pela mesma trilha. O país perdeu o Investment Grade de vez em 2015. Etc. Etc. Etc. O caminhão de más notícias é tão vasto que não pode passar em qualquer estrada. Em uma monarquia ou uma república parlamentarista, Dilma Rousseff já estaria em casa para nunca mais voltar a ocupar qualquer cargo público. Em uma república presidencialista, isso somente ocorrerá daqui a três anos ou por meio de decisão da justiça eleitoral ou do Congresso Nacional – por mais legítimos que sejam essas decisões, fica sempre um travo de rompimento do curso esperado de quatro anos de duração do mandato. O presidencialismo atual, uma invenção americana baseada no entendimento errado de Montesquieu sobre o equilíbrio entre os três Poderes (o francês, em visita à Inglaterra, não percebeu que o Poder Executivo é subordinado ao Poder Legislativo), tem como característica a estabilidade maior do que o parlamentarismo: mandatos de prazo definido têm como vantagem a garantia de que, salvo em casos excepcionais (dentre os quais o impeachmente o recall eleitoral – este sem previsão constitucional no Brasil), sabe-se de antemão quanto tempo cada pessoa tem para exercer sua liderança. Evidentemente, quando a liderança não lidera, como é o caso de Dilma Rousseff em seu segundo mandato, o presidencialismo mostra sua cara feia: a perspectiva de mais três anos à mercê da pior presidente que o Brasil já teve, segundo avaliação dos próprios brasileiros medida por pesquisas de opinião.

Sendo presidencialismo nossa situação, devemos nos conformar que o normal é o Brasil ter de conviver por mais três anos com a senhora Rousseff à frente da Presidência da República. Isso implicará uma paciência bíblica para os brasileiros. Mais desalentador é perceber que ela não apreende a gravidade da situação. Alheia como Nero em pleno incêndio de Roma, ela não toma as medidas necessárias simplesmente por não acreditar que são necessárias. Tentou subverter as leis da economia em seu primeiro mandato e colhe como resultado a depressão econômica atual. Quando se imaginava que ela havia cedido à racionalidade por força dos fatos, eis que ela saca Joaquim Levy do Ministério da Fazenda para colocar no cargo um dos artífices do maior desastre econômico dos últimos tempos, a Nova Matriz Macroeconômica que ela e Guido Mantega geraram. Dilma Rousseff é caso perdido. Simples assim. Há dirigentes que não são competentes e têm consciência disso: escolhem os melhores técnicos para compor suas equipes e não atrapalham no desenvolvimento do processo. Dilma Rousseff, não. Dilma Rousseff é tão incompetente que não tem competência sequer para reconhecer que é incompetente; assim, além de não ajudar, ela ainda atrapalha. Saber de suas limitações é uma grandeza que nunca fez parte do vocabulário dela. Na verdade, a mera permanência de Dilma Rousseff no Palácio do Planalto torna tudo mais difícil. Muito latim já foi gasto na esperança de ela se conscientizar de que não há mais salvação para a biografia dela no presente e, portanto, ela deveria aproveitar-se da impopularidade para aprovar medidas necessárias, porém impopulares, que garantirão a ela um lugar de honra na história. Sempre se cita o caso de Campos Salles como exemplo de presidente que saiu do Palácio do Itamaraty (o Palácio do Planalto da época) literalmente debaixo de chuva de tomates, ovos e excrementos (os cariocas, tipicamente, o apelidaram Campos Selos, por causa dos selos de impostos que instituiu – visíveis até hoje em produtos como bebidas alcoólicas e tabaco) para entrar na história como o presidente que estabilizou a economia nacional após o desastre do Encilhamento de Ruy Barbosa. Mas não, Dilma Rousseff não será como Campos Salles. Lasciate ogni esperanza: não se deve esperar dela mais do que continuar afundando o país por mais três anos. Portanto, Bōnenkai 2015. Mas o que nove entre cada dez brasileiros prefeririam mesmo é: Bōnenkai Dilma Rousseff.


Pedro Nascimento Araujo é economista.

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