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terça-feira, 29 de setembro de 2015

Aylan Kurdi não era um bárbaro. Por Pedro Nascimento Araujo


Aylan Kurdi não era um bárbaro

Poucas imagens chocaram tanto a humanidade quanto a do corpo de Aylan Kurdi em uma praia grega. Não há como ficar indiferente a um garoto de três anos morto levado pelas ondas para a costa. A imagem de Aylan morto, vestido com esmero, como um menino que iria visitar parentes, é mais forte do que qualquer coisa que se possa dizer. O pequeno Aylan acabou sendo símbolo involuntário dos refugiados que tentam adentrar a União Europeia nesse verão do Hemisfério Norte. O número é recorde e as causas são variadas. Todavia, permanece uma certeza insofismável: não se trata de uma invasão bárbara. Aylan Kurdi não era um invasor. E, principalmente, Aylan Kurdi não era um bárbaro.

Na verdade, não se trata sequer de uma invasão. Obviamente, ver levas e mais levas de pessoas tentando adentrar o continente europeu pode passar essa impressão, mas ela é tão verdadeira quanto uma nota de três euros. Sim, são mais de 350 mil apenas nesse ano – e a contagem ainda está longe do fim. Ainda que chegue a dobrar, o hipotético número de 700 mil refugiados é ínfimo: a Europa possui mais de 740 milhões de pessoas, o que significa que o total de refugiados corresponde a menos de 1% da população europeia. Evidentemente, cada uma dessas pessoas vive um drama particular incomensurável, mas o conjunto delas não é estatisticamente significativo, ao menos na frieza impessoal das estatísticas. Mas, por acontecer na Europa, aonde a ideia de invasões bárbaras se confunde com a própria identidade europeia, tem um impacto maior. Apenas à guisa de comparação: estima-se que o pequeno Líbano, que tem 4½ milhões de habitantes, já tenha recebido em torno de 1½ milhão de refugiados sírios, o que dá ⅓ de sua população. O drama dos refugiados é tão antigo quanto a própria humanidade. Tomando por base a mitologia judaico-cristã, que fundamenta as leis e a moral na Europa, pode-se dizer que os primeiros seres humanos já eram refugiados: expulsos do Paraíso, Adão e Eva tiveram de se realocar em outras paragens; logo, se somos humanos, somos refugiados.

A atual explosão de refugiados tem causas claras. A Síria é a base mais óbvia, mas o regime de Bashar al-Assad que se recusa a cair de podre não é o único a atuar na região. Há a ação do Isis em diversos países, bem como a questão dos curdos, um povo sem pátria e perseguido há séculos – e aqui vale lembrar que o pequeno Aylan Kurd não tinha esse sobrenome à toa: o menino sírio que morreu fugindo da Turquia para a Grécia era curdo. Há casos de refugiados também no Afeganistão, que ainda tenta se recuperar da sangrenta guerra civil que se seguiu após a deposição do Taliban em 2001. Há a Líbia, um estado falido em que grupos se digladiam para assumir o poder enquanto o Isis aumenta as áreas que controla. Sem contar a Ucrânia, deliberadamente desestabilizada pelo Kremlin, que, achando pouco, ainda sustenta Bashar al-Assad na inominável guerra civil síria. E há a África, com guerras civis e religiosas que parecem não ter fim em países como Eritreia e Sudão do Sul. Tudo somado, a Europa, por sua proximidade geográfica, acaba sendo a opção de refúgio para pessoas que perdem tudo menos a vida nesses lugares em que vivem desgraças seriais. O Alto Comissariado para Refugiados das Nações Unidas simplesmente não sabe o que fazer sem recursos para essas crises humanitárias.

A ideia de invasões de bárbaros faz parte do inconsciente coletivo ocidental. Não sem razão. O próprio termo “bárbaro” é carregado de conotações ruins. Desde quando os gregos usavam a palavra como sinônimo de estrangeiros, já havia um preconceito impregnado. Os romanos levaram isso ao paroxismo: quem não era de Roma era bárbaro: não era civilizado e, portanto, era desumanizado. É um processo comum na história da humanidade. A desumanização deliberada de grupos permite que não se reserve a eles os cuidados que se reservam a seres humanos. Tratar como bárbaros significa dizer que são menos humanos e, portanto, podem ser tratados de forma que não se usaria com humanos. Em invasões bárbaras, pode ser permitido massacrar, humilhar, escravizar, estuprar, roubar etc.: são invasores e não são humanos. Essa é a lógica por trás da ideia de invasões bárbaras. Uma ideia poderosa nas hábeis mãos de manipuladores políticos xenófobos. Sempre foi assim. Foi assim na antiguidade clássica, na Grécia e em Roma. Foi assim nas guerras medievais. Foi assim nas guerras religiosas. Foi assim na expansão colonial. É curioso notar que o processo de desumanização sempre vem acompanhado de “provas” da condição não humana dos bárbaros. O Iluminismo era uma realidade na Europa e ainda se discutia se silvícolas nos novos continentes tinham alma – é difícil pensar em desumanização maior do que a própria negação da alma humana. No Século XX, foi assim nos Gulag soviéticos e nos campos de concentração nazistas: kulaks e judeus não eram seres humanos para aqueles regimes. Na verdade, é assim até hoje, com o extremismo islâmico – e a situação dos yazidis no Iraque não difere em um iota daquela dos perseguidos por Stalin e por Hitler. São situações tão graves que as pessoas se dispõem a qualquer coisa para fugir delas. Como atravessar o Mar Mediterrâneo em embarcações que podem ser comparadas a navios negreiros contemporâneos para chegar à Europa ou cruzar o Oceano Atlântico em águas infestadas por tubarões tendo apenas balsas improvisadas para chegar à Flórida. O refugiado não quer ganhar vantagens. O refugiado simplesmente não quer perder a vida.

A trágica história de Aylan Kurdi não difere da dos estimados 30 mil mortos na tentativa de chegar a solo europeu neste ano, por mais que sua foto fique gravada na retina de quem a viu até o final dos dias. Quem se aventura numa travessia como essa sabe dos riscos que corre. São pessoas em situação de desespero – e falamos aqui de um desespero que apenas quem o vive pode descrever e mensurar. Em nossas casas, não podemos entender a decisão de arriscar a própria vida que essas pessoas tomam. E, no entanto, elas arriscam a vida não para perdê-la, mas para tentar salvá-la. É algo que foge do nosso entendimento, tão distante que é de nossa realidade. É desespero em estado bruto. Desespero cru, insofismável. Desespero urgente. Só podemos imaginar a força do desespero que leva um pai como o de Aylan Kurdi a usar suas economias para arriscar a vida de sua mulher e de seu filho em uma travessia que estatisticamente pode acabar em desgraça em 10% dos casos enquanto ele continua arriscando a sua própria vida em uma Síria cada vez mais destroçada por um Bashar al-Assad sustentado por seus cúmplices em Moscow que agem por mero cálculo geopolítico. Quando um Aylan Kurdi apareceu boiando numa praia grega, não foi apenas um menino de três anos que morreu: foi também uma parte de nossa humanidade que morreu com ele. Tentar tratá-lo como um bárbaro equivale a acrescentar o dolo da desumanização de um inocente a uma omissão da humanidade que é já é insuportavelmente infame sozinha.


Pedro Nascimento Araujo é economista.

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