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terça-feira, 11 de novembro de 2014

Vinte e cinco anos nesta noite


Por Pedro Nascimento Araujo

Dia 09-Nov-2014 é uma data especial: o mundo comemora o primeiro jubileu da queda do Muro de Berlim. Poucos eventos únicos foram tão simbólicos quanto esse na história da humanidade. Sem exagero, pode-se comparar a queda do muro de Berlim a momentos como a queda de Constantinopla (1453), a Reconquista (1492), a Paz de Vestefália (1684), o Congresso de Viena (1815) ou a Unificação Alemã (1871). Tirando os grandes conflitos armados em si, cujos impactos foram presentes nas vidas das pessoas por muitos anos, os eventos listados acima têm em comum o fato de terem sido definidores. A partir de cada um deles, a história foi outra. Senão, vejamos. A Idade Média acabou formalmente em 1453, exatamente quando os turcos tomaram Constantinopla e dissolveram o Império Romano do Oriente, dando início a um processo que culminaria com o surgimento dos hodiernamente onipresentes estados-nações. Em 1942, os Reis Católicos expulsaram os mouros de Granada, em um episódio que seria conhecido como Reconquista, expulsando o Islamismo da Península Ibérica e criando a base para a expansão do Cristianismo nos porões das Grandes Navegações. A Paz de Vestefália (1648), surgida após a Guerra dos Trinta Anos (1618-1638), criou o conceito de soberania, permitindo que os países passassem a se ver como iguais nas relações internacionais (par in parem non habet imperium), independentemente de seus tamanhos e forças, base para a proibição atual de um país interferir em assuntos internos de outro. O Congresso de Viena (1815), feito na esteira das Guerras Napoleônicas, criou o conceito de consultas entre os países para agir no sistema internacional, base para o conceito liberal de Organizações Internacionais, das quais a mais famosa é a Organização das Nações Unidas (1945). A ata de criação do Império Alemão (1871) no Salão dos Espelhos de Versailles foi um evento tão importante que o novo país esteve na gênese do maior conflito armado de todos os tempos, a Guerra Mundial (1914-1945, com armistício entre 1918 e 1939). Ocorrido em 1989, a derrubada do Muro de Berlim foi um desses eventos definidores: a partir dele, o mundo nunca mais foi o mesmo.

Na verdade, a queda do Muro de Berlim foi o ápice de um processo de apodrecimento do Império Soviético que vinha ocorrendo há muito. Mais especificamente, a própria construção do Muro de Berlim em 1961 foi prova disso; ao construí-lo, Nikita Kruschev declarou que estava criando uma prisão para os habitantes da parte comunista da Alemanha. Aliás, o chamado Muro da Vergonha fazia parte de um plano mais ambicioso de Stalin: incorporar ao Império Soviético todos os territórios aonde as botas dos seus soldados pisaram. Quase funcionou. Em 1948, quando o Ocidente já havia retirado a maioria de suas tropas da Alemanha ocupada, Stalin deu sua cartada final e bloqueou os acessos terrestres a Berlim Ocidental – na partilha da Alemanha, a cidade ficou na parte controlada pelos soviéticos. Seria a senha para a ocupação de Berlim e a efetiva incorporação da maior parte da Alemanha e dos demais países ao Império Soviético. A chamada “Ponte Aérea” impediu isso: os americanos, com apoio britânico, decidiram enviar por aeronaves para Berlim Ocidental 24 horas por dia tudo o que a cidade precisaria para viver – tudo mesmo, inclusive água, carvão etc. Stalin não acreditava que isso seria possível; depois, que seria sustentável; por fim, que seria uma boa ideia continuar sendo humilhado e, em 1949, retirou o bloqueio terrestre a Alemanha foi formalmente dividida e cada metade passou a controlar uma metade de Berlim, com os soviéticos recusando recursos do Plano Marshall para reconstruir os lugares que ocupavam, incluindo a Alemanha. Com a divisão, a Alemanha passou a ter uma fronteira interna separando suas duas metades.

O Muro de Berlim, portanto, nada mais foi do que a versão citadina de um muro muito maior que dividia todo o país. Foi a mais perfeita tradução da prisão que era o comunismo – corrigindo, era, não; ainda é, como se vê em Cuba e na Coreia do Norte, lugares de onde as pessoas não podem sair sem autorização dos ditadores de plantão, e na China, aonde há passaportes internos para circulação dentro do país, algo comum na África do Sul do Apartheid. Para quem teve a chance de conhecer o Muro de Berlim, uma coisa saltava à vista: do lado capitalista, era apenas um muro, pichado com grafites icônicos como um beijo entre Leonid Brejnev (União Soviética) e Erich Honeker (Alemanha Oriental). Do lado ocidental, era uma prisão, com direito a terra de ninguém (apelidada “Faixa da Morte”, separava as duas seções que o muro possuía no lado oriental com o intuito de expor a tiros qualquer pessoa que tentasse fugir do autointitulado “Paraíso dos trabalhadores”), postos de observação, barricadas, torres para snipers etc. Os soviéticos nunca esconderam que o objetivo do muro era impedir a chamada “fuga de cérebros” da Alemanha Oriental para a Alemanha Ocidental por uma simples viagem a Berlim Oriental, de onde bastava passar para Berlim Ocidental e de lá, por via aérea, para a Alemanha Ocidental. Ao construir um muro de prisão para isolar seus cidadãos em Berlim Oriental, os soviéticos admitiram em 1961 que seu sistema simplesmente não funcionava se não houvesse armas apontadas para seus cidadãos. A falência moral precedeu e muito a falência política. Quando o Muro de Berlim foi ao chão, o comunismo já estava acabado – assim como os eventos citados no início desse texto (queda de Constantinopla, Reconquista, Paz de Vestefália, Congresso de Viena e Unificação Alemã), a queda do Muro de Berlim foi o símbolo que oficializou o que já existia de facto: o fracasso do comunismo. Há 25 anos, o mundo ficou livre do mais mortal, injusto e cruel sistema político jamais inventado. Que nós nunca tomemos a liberdade como um bem absoluto e intocável: há 25 anos, derrubamos um muro que foi criado para impedir que as pessoas vivessem livremente. Que nós nunca mais permitamos que a construção de outro Muro de Berlim seja sequer cogitada.


Pedro Nascimento Araujo é economista.

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