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quarta-feira, 15 de abril de 2015

A esfinge jânica barbada




Por Pedro Nascimento Araujo

Um sonho desmorona a olhos vistos. Demorou, mas a memória popular acerca de Luís Inácio da Silva finalmente foi contaminada pelo meu humor atual com Dilma Rousseff – e o resultado é que a popularidade de Lula da Silva, o último bastião do petismo que resistia, começou a ceder. O fracasso da criatura começou a enfraquecer o criador. E o fracasso foi vertiginoso: os eleitores associaram Dilma Rousseff a Lula da Silva e a elegeram em 2010 – naquele ano, no final do segundo mandato dele, simplesmente 87% dos brasileiros aprovavam o governo (a título de comparação: 13% dos brasileiros aprovam o governo de Dilma Rousseff em 2015). Mais interessante do que isso: ainda naquele momento, para 71% dos brasileiros, Lula da Silva havia sido o melhor Presidente da República da história nacional. Apenas cinco anos depois, o número caiu de 71% para 50%. Como decididamente Lula da Silva não foi suplantado no imaginário popular por Dilma Rousseff (cujo governo, repita-se, é aprovado por apenas 13% dos brasileiros), o que aconteceu foi uma corrosão veloz da popularidade do criador por conta da impopularidade da criatura. Como o maior (se não único) objetivo de Lula da Silva é entrar para a história como um dos grandes líderes nacionais, ele vai lutar para salvar sua biografia com unhas e dentes. Lula da Silva é um tipo de esfinge: uma esfinge jânica, que tem duas faces: a face passional e a face pragmática – e elas podem se somar ou se anular, conforme a decisão de Lula da Silva. Decifrá-la continua impossível.

A esfinge jânica se viu impelida pelas circunstâncias a usar a face pragmática para eleger Dilma Rousseff duas vezes: em 2010, por absoluta falta de opção; e, em 2014, por questões de saúde. Muito provavelmente, a face passional se arrependeu de ambas as decisões – não fosse não ter tido outra opção. Em 2010, os políticos estrelados do PT ou estavam em desgraça política, como Antônio Palocci, ou estavam marchando para a prisão por corrupção, como José Genoíno. Sem opções em 2010, e surfando naquela que era a maior popularidade do mundo, ele empenhou-se sobremaneira até lograr êxito e eleger Dilma Rousseff sua sucessora. Era isso ou perder o poder. Em 2014, Lula da Silva não poderia assumir o “Volta, Lula!” por uma questão de saúde – o câncer na garganta deu recidiva e ele fez tratamentos secretos no Hospital Sírio-Libanês (entrava de madrugada em carro escuro, subia por elevador privativo, fazia as sessões terapêuticas e retornava no mesmo esquema) enquanto negava a doença, até, ainda em 2014, admitir. Mesmo convalescente, carregou Dilma Rousseff em suas alquebradas costas: o espaldar de Lula da Silva foi a diferença entre perder a eleição para Aécio Neves ou vencê-la. Já é parte do folclore político nacional a distorção que ele deliberadamente fez do uso do termo “leviana” por parte de Aécio Neves para enaltecer Dilma Rousseff perante eleitoras de baixa escolaridade no Nordeste, aonde a margem alcançada foi suficiente para reverter a rejeição nas regiões mais populosas do país. Ele só fez isso porque sabia que a perda do poder seria longa demais para que ele pudesse tentar voltar à Presidência da República. Vemos a face pragmática da esfinge jânica sobrepujando a face passional não apenas nas eleições de 2010 e de 2014, mas também no segundo mandato de Dilma Rousseff: ciente do risco que representava a derrocada de Dilma Rousseff antes mesmo de assumir, em um provável novo recorde mundial de pato manco (“lame duck”, termo que analistas americanos usam para se referir a presidentes em fim de mandato, sem perspectivas de poder e, portanto, claudicando mais a cada dia), a face pragmática da esfinge jânica iniciou uma série de intervenções brancas no governo da criatura. Sem querer repetir o desbotado clichê da relação entre criador e criatura (exaurido desde que Mary Shelly lançou “Frankenstein” ainda no Século XIX), é impossível negar haver entre ambos um conflito de poder, basicamente porque Dilma Rousseff nada entende de política. Isso poderia ser contornado em períodos de bonança ou com a participação ativa de um coordenador político do porte de Lula da Silva. Ocorre que, no primeiro mandato dela, fazia sentido ela não dar a ele esse espaço por temer que ele controlasse a base política e a escanteasse antes de ela poder se reeleger; todavia, vencida a reeleição, não haveria porque recusar ajuda; e, nesse momento, dadas as fragilidades dela, a ajuda não merece mais esse nome: é intervenção branca – Lula da Silva enfiou goela abaixo de sua criatura dois remédios amargos (um economista ortodoxo no Ministério da Fazenda – Joaquim Levy, que, vale lembrar, colaborou com a campanha de Aécio Neves – impôs-lhe um parlamentarismo de facto, com o comando do governo sendo entregue ao PMDB). A face pragmática não fez isso por prezar Dilma Rousseff; pelo contrário, para a face pragmática da esfinge, está claro que o governo de Dilma Rousseff acabou antes mesmo de começar o segundo mandato – porém, simplesmente não há como sacrificar Dilma Rousseff nesse momento e manter intacta a fantasia de vestal de Lula da Silva. Por isso, ele escolheu uma intervenção branca: na prática, o governo de Dilma Rousseff deixou de ser de Dilma Rousseff; com isso, espera-se que ela (e, principalmente, seu inacreditável índice de rejeição de 87%) desapareça progressivamente da vista do povo – e, conforme os bons resultados da intervenção branca (ortodoxia econômica e pacificação política) começarem a aparecer, Lula da Silva estará a postos para colher os dividendos, deixando despudoradamente toda a rejeição ficar com para Dilma Rousseff – assim, em 2018, se a saúde dele permitir, ele entrará na disputa presidencial, finalmente invocando a face passional da esfinge jânica e sacrificando Dilma Rousseff para manter sua biografia: a queda de sua popularidade é o assunto principal para sua face pragmática.

A face passional da esfinge jânica foi capaz tanto de mantê-lo inconteste na crista da onda política nacional há quatro décadas quanto de gerar seus piores momentos. Lula da Silva sempre foi um líder político populista do tipo mais tradicional: simplesmente não deixava surgir novas lideranças que pudessem ameaçar seu reinado no futuro. Foi a mesma escola frequentada por Leonel Brizola e tantos outros da mesma estirpe, como Juan Perón (que chegou ao auge de indicar as esposas como herdeiras políticas) e Getúlio Vargas (que, para evitar a popularidade de João Goulart, chegou a demiti-lo em 1953 do posto de Ministro do Trabalho quando ele anunciou que estudava dar um aumento de 100% no salário mínimo apenas para, meses depois, anunciar pessoalmente o mesmo aumento): à sombra do líder populista, nenhuma liderança nova viceja. A face passional da esfinge jânica garantiu isso: sempre que despontava no PT alguma liderança capaz de rivalizar com Lula da Silva, sua cabeça era cortada, como bem deve se lembrar Eduardo Suplicy; e, além disso, sempre que fosse necessário sacrificar alguém para que Lula da Silva permanecesse imaculado perante a opinião pública, a degola era imediata, como bem deve se lembrar José Dirceu. Em bom português, todos os aplausos para o PT terim de ser aplausos para Lula da Silva. Um psicólogo poderia traçar inúmeras teorias acerca da origem dessa obsessiva busca por aplausos, essa necessidade de aceitação; para nossa análise, basta saber que ela existe – e domina todos os aspectos da vida pública de Lula da Silva. Há um episódio basilar que ilustra bem o quanto a busca pela admiração da plateia afetas as decisões de Lula da Silva: quando era um líder operário em ascensão, no final da década de 1970, Lula da Silva comandou uma muitíssimo bem-sucedida greve geral dos metalúrgicos, despontando como um líder moderado, com quem tanto o governo quanto os empresários consideraram ser possível negociar. E negociaram: Lula da Silva conquistou o que havia pedido para os metalúrgicos na mesa de negociações – os empresários cederam como demonstração de boa-fé. E, nesse momento, o lado passional da esfinge jânica aflorou: quando foi anunciar na porta da fábrica que as demandas haviam sido atendidas e que, portanto, a greve teria de ser encerrada, Lula da Silva notou uma decepção na audiência. Ato contínuo, a face pragmática cedeu lugar à face passional: ele retomou a palavra para anunciar que a greve continuaria. Simplesmente, pelos aplausos ele decidiu não mais cumprir o acordado por ele pouco antes com os patrões. Ganhou aplausos à custa da responsabilidade, da honestidade e da seriedade – e, dali em diante, não seria mais reconhecido como um líder moderado, mas como um mero oportunista. Foi a primeira manifestação pública de um comportamento que o persegue até os tempos hodiernos. Ao somar a busca ao aplauso a qualquer custo com a prática populista de concentrar em sua pessoa todas as virtudes, Lula da Silva meteu os pés pelas mãos inúmeras vezes: depois que a ditadura deu lugar à democracia e o PT que ele fundou tornou-se uma das principais forças políticas do Brasil sob seu comando, esse padrão se repetiria com triste insistência – o partido não participou da eleição de Tancredo Neves, votou contra a Constituição de 1988, foi contra a abertura da economia de Collor de Mello, boicotou o Plano Real de Itamar Franco, votou contra a Lei de Responsabilidade Fiscal de Fernando Henrique Cardoso etc. O PT foi espelho perfeito de seu capitão-mor, visando apenas o interesse próprio. Agora, com o governo de Dilma Rousseff derretido, aparentemente a face pragmática da esfinge jânica retomou o comando. Até quando, nunca se sabe: a face passional está sempre à espreita. Não há como prever o que uma esfinge comum fará. Muito menos uma esfinge jônica. E barbada. Lula da Silva está indecifrável como sempre, mas com menos poder de devorar os adversários do que nunca.

Pedro Nascimento Araujo é economista.

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