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quarta-feira, 8 de abril de 2015

Balidos em farsi




Por Pedro Nascimento Araujo

Na semana passada, negociadores do chamado P5+1 (formado pela Alemanha e pelos P5, como são conhecidos os membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas – China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia) chagaram a um acordo preliminar com o Irã acerca de seu programa militar nuclear clandestino. À primeira vista, nenhum dos dois lados poderia farolar vitória: nem os ocidentais, que entraram na negociação condicionando o fim das sanções ao fim do programa nuclear, nem os iranianos, que buscavam a suspensão incondicional das sanções. Porém, um observador mais atento talvez ouvisse uns balidos ao fundo. Para ser mais preciso, eram balidos em farsi, o único registro de um bode persa sendo retirado da sala de negociações pelos representantes dos aiatolás.

A metáfora do bode na sala é tão antiga quanto eficiente: ciente de que sua família não estava satisfeita com a sala da casa caindo aos pedaços; o chefe da família leva um bode para o cômodo; o cheiro insuportável do caprino rapidamente domina o ambiente e vira o ponto nevrálgico da insatisfação da família com a sala; quando decide retirar o bode da sala, o chefe da família é elogiado por todos; a sala continua caindo aos pedaços de antes, mas sem o bode; nada melhorou, mas tudo parece melhor. O caso do Irã é exatamente esse. Os persas não são franco-atiradores ingênuos. Muito pelo contrário, diga-se. O discurso radical é meticulosamente calibrado tanto para garantir legitimidade interna a uma ditadura teocrática que caminha para sua quarta década de vida quanto para gerar fatos externos. Os líderes locais vivem em luxuosas mansões em condomínios exclusivos nas aprazíveis colinas da capital, aonde o ar da poluída Teerã é respirável, com todos os confortos que a tecnologia do Grande Satã pode oferecer. Os casos de corrupção nos contratos são notórios, particularmente aqueles envolvendo a Guarda Republicana. Enfim, é uma ditadura que não deixa nada a dever às suas congêneres no mundo. Como toda ditadura, a persa tem como objetivo primaz a própria sobrevivência, mantida pelo trinômio formado por prosperidade econômica, repressão política e projeção de poder regional. Assim, o regime dos aiatolás precisa, concomitantemente, livrar-se das sanções econômicas (que estão acabando com sua legitimidade interna), fomentar escaramuças com países mais fortes, como Israel e Estados Unidos (isso permite intensificar a repressão interna) e projetar-se como potência regional (tornando inviáveis alianças de outros países para trocar o regime). O programa nuclear foi o bode proverbial perfeito para atender a esses três objetivos.

O Irã não vai desenvolver um arsenal nuclear. Essa afirmação pode ser feita sem medo, ao menos até aonde a vista alcança. E não o vai por uma razão bem simples: os aiatolás são radicais, não loucos. Não há como o país chegar perto de fazer o primeiro teste nuclear sem que isso desencadeie reações em série dos seus vizinhos sunitas, capitaneados pela Arábia Saudita, em uma não improvável coalizão contra ele da qual participariam as potências regionais sunitas (Turquia, Egito, Jordânia etc.). Pior, teria de enfrentar bombardeios maciços de Israel, a maior potência da região (o país que, sozinho, venceu as coalizões árabes que o atacaram em 1948, 1967 e 1973 – e que possui um arsenal nuclear não declarado estimado em pelo menos 200 ogivas) sem o apoio de ninguém. Na verdade, já há uma aliança não escrita entre as potências regionais sunitas e o país judeu contra a obtenção de armas nucleares por Teerã: ninguém saiu em defesa dos persas quando o premier israelense Benjamin Netanyahu disse que Israel não iria “permitir” que o Irã tivesse armas nucleares – uma nada sutil menção às ações anteriores na qual o país destruiu programas nucleares militares clandestinos em países como Iraque (bombardeou o complexo de Osirak em 1981, dando início à chamada Doutrina Begin, na qual o então premier Menachem Begin determinou que ataques preventivos para impedir que vizinhos desenvolvessem armas de destruição em massa que pudessem ser usadas contra Israel seriam parte da doutrina de segurança nacional israelense) e Síria (bombardeou o complexo de al-Kibar 2007). Quando e se Israel considerar que há riscos reais de o Irã obter armamento nuclear, a mais eficiente máquina de guerra do mundo vai agir. Teerã sabe perfeitamente bem disso. Sabe, também, que, independentemente de Israel, seus vizinhos sunitas agiriam. Sabe ainda da possibilidade de a OTAN agir (afinal, a Turquia é membro do Tratado de Washington) por meio de uma resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas, aonde não conta com um apoio sequer entre os P5. Sabe, por fim, que a ascensão de uma liderança menos condescendente na Casa Branca no futuro poderia significar ação unilateral americana sem objeções convincentes de ninguém. É simples assim: em qualquer cenário que se olhe, obter enriquecimento de urânio ou de plutônio no grau de armamento nuclear é um péssimo negócio para os aiatolás. Aplicando-se lógica simples, juntamos a premissa um (os aiatolás querem manter seu regime) com a premissa dois (obter armamentos nucleares significará o fim do regime dos aiatolás) e temos a única solução possível: os aiatolás não obterão armamentos nucleares. O que nos leva à inevitável conclusão do bode balindo em farsi.

Sendo o interesse aos aiatolás manter-se no poder, a aventura nuclear iraniana nada mais foi do colocar um proverbial bode na sala para que suas ações de desestabilização regional (interferências em países como Síria, Líbano, Israel, Iraque e Iêmen) passassem despercebidas diante do temor do surgimento de um arsenal atômico persa. Além disso, seria um assunto que fatalmente levaria a atritos diplomáticos com os Estados Unidos, com Israel e com os vizinhos sunitas – tudo o que os aiatolás precisam para justificar tanto sua existência como defensores de um país prestes a ser tragado por inimigos mais fortes. De fato, para os aiatolás é interessante manter a tensão elevada contra os Estados Unidos, Israel e os países sunitas, transformados em uma espécie de Snowball – assim como o porco de Revolução dos Bichos (George Orwell), cujo nome é sempre evocado como pretexto perfeito para os maiores abusos, a rivalidade da teocracia com americano, israelenses e sunitas é usada para justificar a brutal repressão interna; porém, a coisa saiu de controle quando as sanções começaram a ser aplicadas: a legitimação da repressão simplesmente não pode ser feita a expensas da legitimidade da prosperidade econômica. Os aiatolás erraram na dose de bravata – não previram que as sanções fossem de fato ser implementadas. Com as sanções, o rial, a moeda local iraniana, derreteu, o país deixou de exportar mais de um milhão de barris de petróleo por dia (e os barris não exportados em um dia não podem simplesmente ser acumulados para serem exportados no dia seguinte), surgiram escassez, inflação e desempregos, em um ambiente de incerteza e de pessimismo no qual os aiatolás começaram a ser questionados. Na verdade, o enriquecimento de urânio já se havia transformado em um mau negócio: piorava a legitimação econômica, já havia cumprido seu papel na repressão política e estava atrapalhando a legitimação por meio da projeção de poder regional. Por isso, os aiatolás chegaram à conclusão de que era chegado o momento de tirar o bode da sala: eles simplesmente necessitam do fim das sanções o mais rapidamente possível, como um bode necessita do capim. Abrir mão de um programa nuclear que eles nunca intencionaram levar ao fim é como parabolicamente retirar da sala o bode que o chefe de família nunca intencionou deixar lá para sempre: custa pouco, soa como vitória e não altera um iota do status quo ante. O Irã continuará sendo uma teocracia brutal que projeta seu poder regional por meio de joguetes como o Hezbollah no Líbano, o Hamas nos Territórios Palestinos, a Frente de Mobilização Popular no Iraque e o Ansar Allah no Iêmen, entre outros grupos menores, principalmente na Síria. Ao renunciar publicamente à posse de armas nucleares, o país persa se defende, já que não haverá justificativas plausíveis para ser atacado por ninguém. E, mais do que isso, com o fim das sanções, a prosperidade econômica retornará, ainda que isso enfureça os demais exportadores de petróleo: a volta ao mercado do Irã, um dos maiores produtores mundiais de petróleo em um momento no qual o preço da commodity está em queda, certamente pressionará ainda mais as cotações para baixo – estima-se que os superpetroleiros iranianos, uma das maiores frotas do mundo (eles circulam com bandeira de Malta), estejam carregados com mais de 30 milhões de barris nos portos do país aguardando o fim do embargo comercial. Os iranianos estão tão certos de terem feito um bom negócio ao retirar o bode da sala que nem se deram ao trabalho de fingir consternação por ter cedido naqueles pontos pelos quais batiam os pés pouco antes, para exasperação de suas contrapartes ocidentais na mesa de negociações. Decididamente, os persas são mestres na arte de negociar: ensinaram ao Ocidente o que se pode obter usando-se apenas um mero bode. Por muito tempo, o mundo o mundo conviverá com os efeitos e com a lembrança dos balidos em farsi.

Pedro Nascimento Araujo é economista.

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