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quinta-feira, 21 de maio de 2015

O timão de Mao Zedong - Parte 1




Por Pedro Nascimento Araujo 

Desde o golpe que trocou a ditadura nacionalista de Schiang Kai-shek pela ditadura comunista de Mao Zedong em 1949, a China tem sido um modelo de realismo nas relações internacionais. O Partido Comunista Chinês manteve-se no poder até os dias atuais, indiferente ao fato de o comunismo ter acabado no mundo como modelo de desenvolvimento. A lógica subjacente era o realismo, que é definido em “A política entre as nações” (Hans Morgenthau, 1948) como a atuação internacional dos países em busca de poder (de preferência, hegemônico) limitada não por moral, mas por prudência. Assim, a China é um país como qualquer outro, desde a China em sua encarnação de Império do Meio até o Reino Unido que subjugaria a mesma China nos anos 1840 por meio das Guerras do Ópio. A análise realista tem o condão de afastar as influências pessoais nos processos políticos – e, nesse ponto, aproxima-se bastante do marxismo. Sempre que se fala em prática do realismo em política internacional, todavia, há duas referências no mundo ocidental: o cardeal Richilieu e o príncipe Bismarck. Richilieu é o melhor executor de uma política chamada “Raison d’État”, que se diferenciava dos interesses pessoais (leia-se dinásticos) do soberano de plantão, sobrepujando-os. Richilieu celebrizou-se por fazer alianças com inimigos do rei apenas para manter a hegemonia da França na Europa continental – e o único modo de fazer isso era impedindo a unificação dos povos germânicos. Curiosamente, Richilieu teve sucesso em sua empreitada, tendo fragmentado o que viria a ser o Império Alemão em uma miríade de reinos, principados, ducados etc. na Paz de Vestefália (1648), que encerrou a Guerra dos 30 Anos e ensejou o conceito de soberania estatal, mas, em 1870, o príncipe Bismarck finalmente unificou a Alemanha por meio de alianças absolutamente pragmáticas – Bismarck deliberadamente manteve a Áustria fora do recém-criado Império Alemão, apesar de ter vencido o reino dos Habsburgos poucos anos antes nos campos de batalha, apenas para garantir um equilíbrio de poder que não colocasse o novo país como hegemônico demais a ponto de fomentar uma “coalizão de fracos” que pudesse derrubá-lo: era a Realpolitik, até hoje modelo de atuação internacional para os realistas. A queda de Bismarck é apontada por muitos historiadores como o início das Grandes Guerras, com uma Alemanha que passou a ser vista por todas como a herdeira da tradição prussiana (ou seja, belicista e expansionista) e, portanto, uma ameaça: a imprevisível Weltpolitik que o Kaiser Guilherme II implantou foi tão desestabilizadora (e não ajudava em coisa alguma a personalidade errática do soberano, que ora dizia-se amigo, ora inimigo de quase todos os países) que conseguiu a proeza de unir inimigos e rivais tradicionais do Século XIX (Reino Unido, França e Rússia) em uma aliança (a Tríplice Entente) contra a Alemanha. O resultado já se conhece: a Alemanha, potência emergente e com futuro brilhante, foi arrasada duas vezes (1918 e 1945) nas Grandes Guerras – e também não ajudou em coisa alguma arrastar os Estados Unidos para ambos os conflitos por motivos torpes: em 1917, atacou navios americanos e propôs ao México a entrada nas hostilidades ao seu lado em troca de território americano e, em 1941, declarou guerra a Washington em solidariedade ao Japão (o que não era exigido pelo acordo defensivo do Eixo), levando os americanos a poder começar a lutar na Europa. Por isso, o realismo preza tanto figuras como o príncipe Otto von Bismarck, que souberam manter a estabilidade (a chamada “paz armada”) por entender que a moderação era a chave para não criar uma coalizão contra a sua ascensão. Exatamente o que a China fez desde 1949. E exatamente o oposto do que a China vem fazendo nos últimos anos.

Mao Zedong era propagandeado pelo Partido Comunista Chinês como o “Grande Timoneiro”. Noves fora ele ter sido um dos maiores genocida da humanidade, Mao sabia com quem ser covarde: civis chineses desarmados eram alvo, superpotências nuclearmente armadas, não. Quando houve o Cisma sino-soviético, basicamente por divergências acerca de armamentos nucleares, os chineses não foram fator de preocupações para americanos e soviéticos. As relações com a Índia, marcadas por escaramuças na Cachemira, foram cordiais: a China não queria uma “coalizão de fracos” contra si que pudesse atrair para o conflito os tanques soviéticos. Aliás, um dos motivos para a participação de Mao na chamada Diplomacia Triangular de Nixon pode ser entendido como um ato de realismo: ele precisava garantir que Moscou não faria com Beijing o que havia feito com Budapeste ou Praga – ou seja, mandar tanques para derrubar um governo minimamente divergente. Enfim, a China se aproximou dos americanos, Deng Xiaoping fez a abertura comercial e o condomínio sino-americano se estabeleceu ainda nos anos 2000, com os dois países interligados economicamente e sem divergências geopolíticas sérias. Porém, nos anos 2010, a coisa mudou de figura.

Pedro Nascimento Araujo é economista.

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