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segunda-feira, 25 de maio de 2015

O timão de Mao Zedong - Parte 2




Por Pedro Nascimento Araujo 

A China aparentemente abandonou a Realpolitik de Mao Zedong e passou a agir como a Alemanha pós-Bismarck: falando grosso demais. Mexeram no timão de Mao e os resultados da guinada chinesa são mais previsíveis do que o resultado de andar para a frente: os demais países estão se organizando para conter a China. O melhor exemplo de como a China anda produzindo alianças improváveis vem de Japão e Coreia do Sul, antigos inimigos e atuais rivais: o Japão imperial ocupou a região e não fez menos do que seus então aliados nazistas, com limpeza étnica, campos de concentração, experimentos médicos de fazer inveja a Mengele e prostituição forçada, mas, ao contrário da Alemanha, não fez seu Vergangenheitsbewältigung (termo em alemão que significa reconhecer os erros do passado para reconciliar-se com ele) –e, por isso, como seus livros didáticos continuam ignorando as atrocidades cometidas no período imperial, já fazem parte do calendário diplomático regional os protestos anuais quando o Premier japonês visita túmulos de veteranos japoneses. Se alguém pensou na Entente Cordiale entre França e Reino Unido, pensou certo – as desconfianças com a Alemanha de Guilherme II eram tão grandes que suplantaram os laços dinásticos: o rei Jorge V, embora primo do Kaiser (ambos eram netos da rainha Vitória), preferiu aliar seu país a uma república. Japão e Coreia do Sul têm suas desavenças acerca de soberanias sobre rochedos na região, notadamente sobre umas ilhotas entre ambos os países (Dokdo em coreano ou Takeshima em japonês), assim como a China tem com ambos; todavia, ambos os países perceberam que suas disputas não oferecem riscos à segurança local, ao passo que as disputas territoriais com a China oferecem riscos sérios. A China declarou que a região aonde ficam as ilhas Diaoyu (chinês) ou Senkaku (japonês) são seu território e anunciou que todo o tráfego aéreo na região deverá ser autorizado por Beijing, o que os vizinhos não estão respeitando – embora, em tese, a China possa alegar violação de espaço aéreo para abater aeronaves estrangeiras sobre a região disputada. Pior ainda, a China está construindo infraestrutura militar nas regiões contestadas, como a criação de uma base aérea aterrada ao redor do rochedo nas ilhas Spratley, cuja soberania é reclamada também por Hanói e por Manila.

É sobre esse pano de fundo que Seul e Tóquio vem conversando sobre defesa, um tema bastante sensível para ambos por conta do passado expansionista japonês. Houve uma reunião de cúpula em Seul em abril (a primeira após cinco anos) e o mote foi como permitir que o Japão se arme sem violar sua constituição pacifista imposta pelos americanos após a derrota em 1945. Japoneses e sul-coreanos querem poder ter a certeza de que a China não poderá subjugá-los com armas convencionais (a aliança com Washington garante que armas nucleares não seriam usadas) e, para isso, querem mostrar unidade para os americanos, que anunciaram disposição de enviar armamentos de última geração para a região como forma de dissuadir os norte-coreanos – mas até os rochedos inabitados da região sabem que o objetivo de americanos, japoneses e sul-coreanos é mandar um recado claro para os chineses. Beijing sabe que não tem condições de dissuadir uma possível “coalizão de fracos” formada por Japão, Coreia do Sul, Vietnam, Filipinas etc. Todavia, agora que Beijing parece ter tomado consciência de que exibir seus recém-adquiridos músculos serviu apenas para aproximar rivais históricos em sua vizinhança, os chineses resolveram mudar de tática. Agora, exibem músculos nucleares para os americanos, uma prova cabal de que uma ideia ruim pode se transformar em uma ideia péssima.

Beijing e Washington são economias umbilicalmente ligadas, com as empresas americanas produzindo nas fábricas chinesas e as reservas internacionais chinesas se abarrotando com quatro trilhões de dólares em títulos da dívida americana, decorrentes dos superávits comerciais fantásticos que a China tem perante os Estados Unidos. É um condomínio de poder econômico perfeito que, por sua vez, não parece estar próximo de se transformar em um condomínio de poder político – na verdade, a relação política entre ambos os países assemelha-se ao que foi a relação entre americanos e soviéticos na Guerra Fria, com a recriação de zonas de influência em uma possível nova ordem bipolar. A má notícia para a China é que seus vizinhos mais ricos são aliados do seu rival – e não pretendem mudar de lado devido aos arroubos chineses. Por isso, a ideia de dissuadir nuclearmente os Estados Unidos pode até fazer sentido, mas apenas nas relações bilaterais; na prática, é mais um incentivo para que os aliados dos americanos na região (o que, vale lembrar, inclui ainda a Índia e a Comunidade da Austrália – esta, uma monarquia parlamentar cuja chefe de estado é a rainha da Inglaterra, o que invariavelmente arrasta o Reino Unido para o coração da situação) se aproximem ainda mais. A escolha chinesa para avisar aos americanos de que tentar impedir sua hegemonia na Ásia é uma tarefa infrutífera não poderia ser pior: mísseis balísticos intercontinentais com reentrada de ogivas múltiplas, ou simplesmente MRV, na sigla em inglês. A China tem tecnologia de miniaturização de armamentos termonucleares para criar MRV há décadas, mas, quando o timão de Mao ainda guiava o país, não houve presidente do país que ousasse fazê-lo para não espezinhar americanos e soviéticos, mantendo a Guerra Fria bem longe de suas fronteiras. Isso mudou. A China não apenas está desenvolvendo novos mísseis MRV, que se abrem na reentrada à atmosfera e dispersam suas ogivas ao léu, como tem insinuado ser capaz de programar cada ogiva para atingir um alvo próprio e desviar-se de escudos antimísseis: isso é a própria definição dos mísseis balísticos intercontinentais com reentrada de ogivas múltiplas independentemente direcionadas, ou simplesmente MIRV na sigla em inglês, uma arma que americanos e soviéticos concordaram em banir nos anos 1970 por conta de seu potencial destrutivo e de sua capacidade de furar escudos antimísseis de ambos os lados. Desde então, nenhum sistema de defesa no mundo se preocupa com MIRV: o escudo antimísseis contra agressões da Coreia do Norte aos vizinhos no papel e contra agressões da China aos vizinhos na prática tem como premissa combater mísseis com apenas uma ogiva. Beijing ainda não falou em MIRV, mas sabe-se que a China tem tecnologia para transformar seus MRV em MIRV. A sanha de Beijing em ser o galo alfa está criando situações impensáveis há poucos anos, como a Coreia do Sul e o Japão concordarem sobre uma remilitarização branca do Japão que estique ao máximo a constituição japonesa e permita apoio militar aos coreanos em caso de agressões norte-coreanas – ou chinesas. De fato, a China vem crescendo em importância há algumas décadas: não é mais nem de longe a frágil nação que foi partilhada pelos europeus no Século XIX, mas ainda não tem condições de desafiar sozinha os seus vizinhos, quanto mais a überpotência americana. Inserir-se na ordem global de maneira ordeira e sem criar uma resistência de rivais contra si grande a ponto de suplantar as próprias desconfianças entre os rivais é o desafio da China – e, decididamente, fazer bullying contra os vizinhos e ameaçar a mais fabulosa máquina de guerra da humanidade não são a melhor maneira de obter tal intento. A China precisa voltar a agir segundo uma tradição realista que remonta ao príncipe Bismarck e ao cardeal Richilieu; afinal, conquistar espaço por meio da intimidação é uma tática que funciona apenas no curto prazo – e a Alemanha, que fez isso tanto sob Guilherme II quanto sob Hitler, que o diga: conseguiu que todos se unissem contra ela e, apesar de seu poder, foi arrasada duas vezes no Século XX. A China precisa parar com a agressividade e com as suas aventuras expansionistas: é melhor voltar a navegar sob o timão de Mao Zedong antes que seja tarde demais e as animosidades dos vizinhos não possam mais ser desfeitas.

Pedro Nascimento Araujo é economista.

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