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sexta-feira, 18 de março de 2016

Estrelas da década passada. Por Pedro Nascimento


Estrelas da década passada

O BRIC iniciou seu processo de decadência. O acrônimo, criado em 2001 por Jim O’Neall, então economista-chefe do banco de investimentos americano Goldman Sachs, é um trocadilho de gosto duvidoso (remete a “brick”, algo como tijolo em inglês), mas poderoso. Há 15 anos, parecia realmente que Brasil, Rússia, Índia e China seriam os blocos que sustentariam a economia mundial no nascente Século XXI – a inclusão da África do Sul deu-se depois, com o bloco passando a se chamar oficialmente BRICS – e, portanto, os olhos se voltaram ao quarteto. O boom das commodities já estava turbinando os BRIC enquanto os países centrais, que estavam saindo do estouro da bolha da internet (2000), conviviam com as incertezas apresentadas pelo 11 de Setembro (2001) e ainda viriam a enfrentar a Grande Recessão (2008-2013). A China crescia a taxas espetaculares desde as reformas de Deng Xiaoping (1978), a Rússia (sob Putin) estava de volta ao jogo, a Índia estava se preparando para iniciar um salto de crescimento do PIB semelhante ao chinês (demorou mais do que o previsto: apenas agora o país hindu cresce a taxas maiores do que as do vizinho) e o Brasil, que havia finalmente debelado problemas estruturais crônicos (analfabetismo, hiperinflação, irresponsabilidade fiscal etc.), estava pronto para ser uma nova fronteira de investimentos. Os países que formavam o BRIC levaram a sério o trocadilho e chegaram mesmo a organizar cimeiras de vulto, que geraram a criação de um banco de fomento e de um mecanismo de reservas, cada um com 100 bilhões de dólares. Os quatro países passaram a ser ímãs para investimentos. Porém, o boom das commodities vem-se exaurindo paulatinamente desde que a Grande Recessão terminou. A queda ab-rupta dos preços de produtos como soja e minério de ferro (base da exportação e, portanto, da geração de divisas do Brasil) e, mais recentemente, petróleo (base da exportação da Rússia) foi a pá de cal para brasileiros e russos: os dois países terminaram 2015 com severas recessões de quase 4% e estão sem prognóstico de recuperação no curto prazo. Como no mercado financeiro internacional há menos vácuo do que no espaço sideral, rapidamente o acrônimo BRIC foi reestilizado: perdeu suas letras que faziam menção a Brasil e Rússia, recebeu em troca as iniciais de Coreia do Sul e Taiwan e, para continuar dando a impressão lúdica, foi rebatizado como TICK, uma paronomásia bem mais rica em inglês: sua grafia significa tanto um mecanismo que funciona perfeitamente quanto o ato de marcar uma tarefa como realizada.

A razão para o termo BRIC caminhar para o ostracismo é puramente comercial. Especificamente, o mesmo Goldman Sachs que apresentou o termo ao mundo decidiu, no final do ano passado, encerrar seus fundos de investimento voltado para o BRIC – sem a África do Sul, cuja entrada no grupo em 2010 foi motivada por razões políticas. Não porque o Goldman Sachs quisesse: foi forçado, uma vez que a carteira do Fundo BRIC, criado em 2006, encolheu 87,5% (de 800 milhões de dólares em 2010, restavam em torno de 100 no final de 2015) em pouco tempo e, para não perder o que restava, o banco simplesmente decidiu apensado o Fundo BRIC à sua mais ampla carteira de Fundos Emergentes. Para o Brasil, a má notícia não é que Índia e China continuam, ainda que com novos parceiros, no centro dos investimentos internacionais: a má notícia é que o mundo passou a considerar frágeis as economias baseadas na exportação de commodities e fortes as economias baseadas na exportação de tecnologia. Basicamente, saem mercadorias e entram serviços. Para qualquer país que precisa desesperadamente de poupança externa para fechar seu balanço de pagamentos, essa é uma péssima notícia. Para o Brasil, ainda mais. O Brasil não participa das negociações para o estabelecimento do TISA (sigla em inglês de Acordo para Comércio de Serviços), mas Taiwan e Coreia do Sul (os novatos do TICK) participam, além de Estados Unidos, União Europeia, Japão, Chile, México e outros. Com o TISA, o comércio de serviços entre seus membros deve ser liberalizado – e isso inclui de viagens aéreas a bancos, de seguros de saúde a fretes, de design de drones a jogos de smartphones. Essa possibilidade já coloca Taiwan e Coreia do Sul em vantagem contra Rússia e Brasil. Em suma, os asiáticos deverão exportar mais serviços a preços maiores, enquanto brasileiros e russos deverão exportar a mesma quantidade de produtos – e a preços menores. Se, comercialmente falando, faz todo o sentido o TICK substituir o BRIC, politicamente também faz.

Brasil e Rússia, cada um a seu modo e em graus distintos, vêm-se tornando países internacionalmente isolados. A Rússia mais por conta das sanções decorrentes das ações expansionistas de Putin e o Brasil mais por conta dos equívocos de Dilma Rousseff na condução da economia. De qualquer modo, ambos os países estão com avaliação de risco abaixo do chamado Investment Grade, o que configura um grande freio à atração de capitais. Na prática, atualmente mais de 60% dos fundos possui mais da metade dos recursos nos TICK e menos de 10% dos fundos possui mais da metade dos recursos nos BRIC. Dizer que investir em empresas como a Foxconn (Taiwan) ou a Samsung (Coreia do Sul) é mais vantajoso do que investir na Gazprom (Rússia) ou na Vale (Brasil) parece óbvio hoje, mas não era tão óbvio assim há poucos anos, quando as commodities estavam em alta. Ocorre que o que se vislumbra agora não é apenas uma fotografia de mercado, mas uma tendência. As nações especializadas na exportação de serviços de tecnologia não estão nem limitadas por reservas naturais ou disponibilidade de terras produtivas nem sujeitas a intempéries da natureza. Se uma poderosa marca de tecnologia começar a perder força (como sói ocorrer nesse mercado), outra a suplantará – e precisará de serviços de tecnologia para se manter no topo. Em suma, temos o cenário a seguir. O setor primário (agropecuária e extrativismo, base das exportações de Brasil e Rússia) tem restrições naturais fortes e está sujeito a variações de demanda e de preço, além de ser o mais suscetível a ações especulativas. O setor secundário (indústria, base das exportações da China e da Alemanha) descobriu o outsourcing e roda o mundo em busca de menores custos de produção – a exceção fica por conta processos produtivos extremamente complexos e que demandam mão de obra técnica altamente qualificada, como os que a Alemanha exporta e a China busca desesperadamente passar a produzir também para que não veja seu parque industrial migrar para outras nações com custos menores, agora que suas vantagens comparativas estão chegando ao fim. Por fim, o setor terciário (serviços, base das exportações de nações desenvolvidas e crescendo em países como Taiwan e Coreia do Sul) está começando a se globalizar de facto (como indica a negociação do TISA) e tem perspectivas de crescimento e geração de riqueza por muito tempo. Taiwan e Coreia do Sul têm um nível educacional que permite que eles briguem de fato pelo mercado mundial de prestação de serviços de tecnologia, um setor que cresce e vai-se abrir. Não é de se estranhar, portanto, que as estrelas emergentes tenham substituído Brasil e Rússia, as estrelas decadentes, com o TICK escanteando o BRIC. Talvez nem demore muito para incluírem Singapura e o TICK virar TICKS, uma vez que a cidade-estado vem-se notabilizando como centro de excelência de serviços tecnológicos, notadamente na área financeira. Independentemente de Singapura, o fato é que as estrelas emergentes dos anos 2010 estão na Ásia. Brasil e Rússia foram oficialmente rebaixados a estrelas da década passada.


Pedro Nascimento Araujo é economista.

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