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segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Um gigante diplomático. Por Pedro Nascimento Araujo


Um gigante diplomático

Papa Francisco. Eis o gigante da diplomacia atual. Curiosamente, ele não deveria ser um nome de peso. Primeiro, porque trata-se do último rei absoluto do mundo: no Vaticano, ele é chefe de estado, de governo, do poder judiciário, moderador ou qualquer outro que tenha existido, exista ou venha a existir – uma contradição em um mundo no qual a maioria das pessoas vive em democracias e briga para que a minoria também o faça. Mais curiosamente, trata-se do soberano do mais liliputiano dos estados do mundo, a Cidade do Vaticano – e, em geopolítica e diplomacia, território importa. Não tem poder econômico – e, em geopolítica e diplomacia, dinheiro importa muito. Pior ainda, não tem exércitos – e, em geopolítica e diplomacia, poder militar importa muito mais, embora isso sempre evoque a famosa pergunta de Joseph Stalin, um dos maiores facínoras da humanidade, quando tentou desmerecer a importância dos papas: “Quantas divisões tem o Papa?” A resposta, Stalin não viveu para ver. João Paulo II, sem um soldado sequer, foi crucial para vencer todos os exércitos que seus sucessores tiveram – a participação do Papa polonês no desmonte do comunismo foi crucial. Na verdade, Stalin nem mesmo viu a atuação diplomática de João XXIII na Crise dos Mísseis, crucial para que a humanidade não enfrentasse uma guerra termonuclear entre americanos e soviéticos. Dá apenas para imaginar o espanto de Stalin se visse o que Jorge Bergoglio se tornou em termos diplomáticos, uma atuação coroada na viagem aos Estados Unidos que ele encerrou nesta semana.

O termo “anão diplomático” traz más lembranças ao Brasil – e não falo do infeliz e grosseiro comentário feito por um porta-voz da Chancelaria israelense, mas do nome que se deu no próprio Itamaraty à atuação internacional brasileira durante o governo de Washington Luís, com a chancelaria de Otávio Mangabeira. Foi um período no qual o Brasil tomou atitudes inacreditáveis, como recusar um convite da Alemanha para transformar as respectivas legações em Berlim e no Rio de Janeiro em embaixadas – o Brasil alegou falta de dinheiro para tanto. O Brasil simplesmente não compareceu a uma arbitragem para a questão que se transformaria na Guerra do Chaco entre Paraguay e Bolívia (1932-1935). Mesmo um convite para uma visita presidencial à Argentina foi recusado. Estudiosos mais generosos costumam se referir a esse período como um isolamento autoimposto, mas o termo que pegou mesmo foi “atuação de anão diplomático”. Pois bem: Francisco é o oposto de um anão diplomático. É um gigante. A mediação papal é tradicional – já citamos João XXIII, mas João Paulo II também mediou uma questão internacional importante, a Questão do Canal de Beagle, que quase levou a uma guerra entre a Argentina e o Chile (depois, os argentinos, que buscavam um fato positivo internacional para legitimar a ditadura, decidiram fazer uma bravata contra os kelpers das Ilhas Falklands e deu no que deu: uma surra histórica). Francisco, que já tinha em comum com João XXIII e com João Paulo II o fato de ter sido “Homem do Ano” da revista Time (nada para se orgulhar muito: em 1938, Adolf Hitler ganhou o título, seguido por Joseph Stalin em 1939, ano no qual ambos iniciariam a II Guerra Mundial com a invasão e partilha da Polônia), tem algo mais palpável em comum com eles: mediou a retomada das relações diplomáticas entre Washington e Havana. Ele obteve êxito na aproximação cubano-americana, algo que presidentes de virtualmente todos os países da América Latina vinham tentando fazer há meio século. E não foi “só” isso.

A visita de Francisco aos Estados Unidos não foi uma visita qualquer. Foi uma Visita de Estado, daquelas que o Brasil só teve em 1995, com Fernando Henrique Cardoso, e que Dilma Rousseff, emulando o nanismo externo de Washington Luís, recusou em 2013: Francisco teve uma intensa agenda com o Presidente e com o Congresso dos Estados Unidos da América. Isso é digno de nota – e, para entender a importância simbólica disso, é necessário retornar até o início do século passado. Mais precisamente, 1928, ano no qual a diplomacia anã de Washington Luís estava em seu auge de mediocridade. 1928 Foi ano de eleição nos Estados Unidos. E havia um candidato democrata muito forte, o governador de Nova York, Al Smith. Smith era católico. E não é exagero dizer que ele perdeu a eleição para Herbert Hoover por ser católico. Como se sabe, o ethos dos Estados Unidos tem forte ligação com as perseguições religiosas na Europa sofridas pelos pioneiros. Não foi difícil para protestantes espalharem que, se Smith vencesse, quem mandaria de fato no país seria o Papa. A rejeição ao Papa é um item tão americano quanto a torta de maçã: todos não católicos viam o Papa como a quintessência de uma ditadura religiosa, e isso incluía de protestantes a maçons, da Ku Klux Klan a Testemunhas de Jeová. Na verdade, os Estados Unidos tiveram apenas um presidente católico, John Kennedy. Quando Kennedy foi visitar o Papa, foi explicitamente advertido por seus assessores para não inclinar-se diante dele ou beijar-lhe a mão, pois isso poderia passar a impressão para os eleitores americanos de que o Papa mandava nele, algo que havia sido ventilado na campanha eleitoral – e até hoje não se sabe se Kennedy se abaixou na audiência privada. Com um histórico desses, é fabuloso que Francisco tenha sido convidado a falar em sessão conjunta no Congresso Americano durante sua Visita de Estado. E lá, no Capitólio, ele deu mostras de porque é tão incensado: defendeu a livre iniciativa e as virtudes do engenho humano, algo que soou como música para a direita, e criticou o egoísmo na acumulação de capitais, algo que soou como música para a esquerda. Agradou e criticou a todos, ressaltando a importância do diálogo e da cooperação para que uma economia fundada no egoísmo se torne uma economia capaz de servir ao próximo. Outro ponto crucial foi uma crítica ao lucro com o comércio de armas, feita no país que é o maior exportador de armas do mundo: Francisco disse que é um dinheiro “encharcado de sangue, muitas vezes de inocentes”. A defesa dos refugiados também não ficou de fora, com o Papa lembrando que “não devemos vê-los como números, mas como pessoas” e sermos solidários. Por fim, quando esperavam uma posição sobre o aborto, Francisco não mencionou a palavra: falou apenas que é importante “proteger e defender a vida humana em todas as fases do seu desenvolvimento” para, em seguida, completar pedindo a “a abolição global da pena de morte”. Genial e preciso em tudo, mereceu ser aplaudido de pé. O discurso na íntegra é facilmente encontrável na internet. Uma leitura que vale por uma aula de política externa.

A visita de Francisco aos Estados Unidos foi a primeira do Papa a uma potência mundial. Vale lembrar que antes ele esteve em países como Brasil, Filipinas, Coreia do Sul, Bolívia e Cuba, evidenciando, na prática, seu compromisso com os menos afortunados – bem como suas atitudes espartanas, como usar carros quase populares etc. Na verdade, a própria visita aos Estados Unidos foi a reboque de outra também voltada ao interesse geral: seu discurso na Organização das Nações Unidas. Este foi o ponto alto de sua viagem e expressão máxima de sua grandeza diplomática. Para quem não viu ao vivo, a leitura do discurso é mais do que recomendada – também é facilmente encontrável na internet. Nas Nações Unidas, além de demonstrar ter esperança de que as Metas de Desenvolvimento Sustentável possam melhorar a vida de muitas pessoas, Francisco assumiu seu papel de grande promotor do combate às mudanças climáticas – e por uma excelente razão cristã: as mudanças climáticas afetam prioritariamente os mais pobres. Para Francisco, as dores do planeta e as dores dos pobres são interconectadas. Ele escreveu sobre isso na Laudato Si, sua segunda encíclica, e simplesmente levou a discussão acerca da mudança climática a um novo patamar: é um tema central na agenda do líder de mais de um bilhão de cristãos católicos e que influencia, em maior ou menor grau, outro bilhão de cristãos não católicos, além de ser acompanhado e conhecido por virtualmente todos os não cristãos do mundo. Por isso, é lícito imaginar qual será a importância de um Papa falando sobre a necessidade de se chegar a um acordo robusto na COP XXI que ocorrerá em Paris em dezembro deste ano? O quanto do sucesso do acordo climático global que está a caminho se deverá a Francisco? Ninguém saberá responder com exatidão. O Vaticano, que sem exércitos foi fundamental para derrotar o Império Soviético, não é exatamente relevante em termos de emissão de carbono; provavelmente, é o menor emissor do mundo – e, todavia, Francisco pode ser fundamental para que o mundo realmente tenha um acordo climático que valha a pena. É um gigante diplomático que só faz crescer. Vê-lo em ação é um privilégio.


Pedro Nascimento Araujo é economista.

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