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sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Donald, Um Pato Topetudo Manco. Por Pedro Nascimento Araujo


Comparar Donald Trump com Donald Duck não é correto exceto em um ponto: o Donald dos quadrinhos, que mestres como Carl Barks transformariam em um ícone da cultura popular global do Século XX, e o Donald da televisão, que graças ao seu carisma se tornou conhecido mundialmente e que é dono daquela que provavelmente é a mais inesperada das vitórias eleitorais da história americana, de fato têm um temperamento explosivo e imprevisível em comum. Geralmente, isso significa problemas (e basta ter lido alguma história do pato para saber como o baixote brigão se dá mal depois de suas explosões de raiva), mas há umas raras ocasiões em que se ter um sujeito sanguíneo (resvalando no comportamento de bully) no comando da Casa Branca pode ser interessante: quando há ameaças sérias à paz mundial. É curioso porque, ao mesmo tempo em que Donald Trump é um pato manco (lame duck no original, significa que ninguém mais no staff o respeita e a administração segue como uma orquestra sem maestro: toca bem porque possui excelentes músicos que conhecem suas partituras, mas não sai do lugar-comum porque falta exatamente o maestro) em casa, é visto como uma ameaçadora águia no exterior. Um pato topetudo manco ser um fator de estabilidade em um mundo tão conflagrado é absolutamente contraintuitivo, mas é uma possibilidade real. Há, na questão da paz e da segurança internacionais, alguns fatores de instabilidade que serão pauta dos próximos meses e anos – curiosamente, dessa pauta não faz parte o território controlado pelo Daesh, que já está em processo de implosão e rapidamente vai-se tornando paulatinamente um grupo terrorista jihadista sem relevância especial: as questões principais que tiram o sono dos estrategistas ocidentais são três: Coreia do Norte, Oriente Médio (Síria principalmente, mas não apenas), China, Rússia e Venezuela (perigosamente próxima de uma guerra civil). Vejamos como um pato manco topetudo pode ser um trunfo em cada caso.

Todos os casos citados acima são ditaduras, com a exceção de praxe feita a Israel na rubrica Oriente Médio. Isso per se diz demais sobre a utilidade do pato manco topetudo. Ditadores não respeitam líderes de democracias por definição – e nem precisamos recorrer ao arcabouço teórico da tese da paz democrática (releitura hodierna da paz republicana que Immanuel Kant divisou) para tanto. Ditaduras (pouco importa se personalistas ou representantes de um grupo político) têm uma certeza na vida: seus grupos políticos não disputam eleições e, portanto, há ausência de alternância de poder, o que os permite simplesmente postergar ou antecipar decisões de política externa como reação ao contexto internacional. Ditaduras tendem a ter políticas externas muito previsíveis e monolíticas, sem pressões de tempo. Nesse caso, podem dar-se ao luxo de se retrair quando sentem um cenário hostil, com um presidente americano que pode colocar suas próprias existências em risco – é sempre bom lembrar que o objetivo primordial de toda ditadura é manter-se no poder. Assim, quando há um entendimento de que há em Washington um presidente que pode fazer uso de seu poderio militar, os tiranos tendem a se retrair. O melhor exemplo talvez seja o da ocupação da embaixada americana em Teerã na esteira do golpe de estado que colocou a teocracia xiita no poder em 1979: evidentemente, os ocupantes tinham o beneplácito do aiatolá Khomeini para manter reféns os funcionários da embaixada americana. Corria o governo de Jimmy Carter, encerrando uma década particularmente ruim para os americanos, quando a notícia da ocupação da embaixada chegou. Carter, um homem que fez da defesa dos direitos humanos seu legado para a humanidade, não quis fazer uma ação militar aberta e escolheu a péssima ideia de fazer um raid com helicópteros para resolver a situação no coração da capital persa. Foi um fracasso tão grande que muitos analistas consideram que foi determinante para a vitória de Ronald Reagan. Reagan tomaria posse no dia 20 de janeiro e, antes de assumir, disse reiteradas vezes que iria buscar os reféns no Irã. A mensagem era clara: uma intervenção militar que certamente não apenas libertaria os reféns, mas também tiraria os aiatolás do poder, talvez com uma ocupação de longa duração. Sendo a própria sobrevivência a primeira preocupação de qualquer ditadura, não causou espanto quando os reféns foram libertados no dia 19 de janeiro, exatamente na véspera de Reagan assumir. Ditaduras piscam quando o risco é real. Algo semelhante pode estar acontecendo neste momento nos teatros elencados acima. Senão, vejamos.

Comecemos com a Coreia do Norte. O terceiro membro da ditadura hereditária cultiva os mesmos hábitos de seus progenitores: ditadura brutal, campos de concentração, benesses para os militares, luxo para si mesmo, retórica antiocidental, apoio tácito da China, intimidação com armas para conseguir recursos. Mais do mesmo. Ocorre que, durante o governo de Barack Obama, Kim Jong-Un botou as asinhas para fora e acelerou seu processo de armamento nuclear, inclusive com testes de mísseis balísticos. Obama sempre atuou com discrição e concertadamente no assunto para não colocar mais lenha na fogueira. Com o pato topetudo manco, a coisa mudou de figura. Trump vem-se metendo em ridículos bate-bocas com o ditador – e isso, por incrível que pareça, isso faz o pequeno provocador recuar. Na verdade, depois que Trump, sem planejamento algum, despejou uma chuva de mísseis sobre uma base aérea síria operada por russos, todos os tiranos colocaram as barbas de molho, com o norte-coreano à frente. Obama não apenas não ordenaria o ataque contra Bashar al-Assad, como foi condescendente quando o tirano sírio de segunda geração utilizou armas químicas, acintosamente cruzando a “linha vermelha” que o próprio Obama traçou ex-officio. Na Síria, aliás, tem-se como certo que al-Assad não mais recorrerá a armas químicas – dado o tamanho do ego do pato topetudo manco, é bem possível que Trump se sentisse pessoalmente desafiado e ordenasse uma ação militar de ocupação da Síria, o que acarretaria uma entrega de al-Assad ao Tribunal Penal Internacional para ser julgado pelos seus incontáveis crimes, isso caso ele escapasse do cruel destino tribal de ser empalado vivo como foi o ditador líbio Gaddafi. A mesma imprevisibilidade e o mesmo comportamento errático que levaram Trump a virar um inédito pato manco no primeiro ano de governo são características que o fazem ser temido por tiranos. Há mais.

Quando se pensa em Rússia, China e Venezuela, o temor decorrente da imprevisibilidade das reações do pato topetudo manco é maior, notadamente nas duas primeiras ditaduras. O expansionismo chinês teve seu ritmo reduzido e Beijing está se contorcendo em cólicas diante das medidas de reversão do déficit que Trump encomendou a seus assessores. É curioso como o comércio, que a vertente realista das relações internacionais considera um tema inferior (low politics, em oposição a defesa, tema considerado high politics), é a arma preferida do Tio Sam. Logo que ficou claro que os soviéticos não apenas não iriam devolver a soberania plena aos países que ocuparam para recriar virtualmente o império dos tzares, como ainda tentariam instalar governos títeres na Europa Ocidental, Washington deliberadamente começou a fazer déficits com seus aliados para estimular o crescimento econômico e, com isso, barrar o chamado Perigo Vermelho. A própria aproximação com o regime genocida de Mao Zedong obedeceu a critérios geopolíticos (aproveitar o cisma sino-soviético para manter a Beijing afastada de Moscow), mas foi feita com critérios comerciais – na prática, gigantescos déficits que permitiram a Zhong Hua virar a potência econômica atual (ainda que com pés de barro) e sonhar com o restabelecimento da posição de Reino do Meio. Interromper o rio de dólares significaria, em última análise, o fim do pacto silencioso entre a ditadura do Partido Comunista Chinês e a sociedade chinesa, baseada fundamentalmente no crescimento econômico – se o povo, que já está sem liberdade, ficar também sem dinheiro, será o início do fim para os vestutos senhores de cabelos pintados de preto-graxa, ternos pretos e gravatas vermelhas. Daí se depreende a aquiescência chinesa para com a pressão de Trump sobre Pyongyang, bem como uma sensível redução no tom de imposição que Beijing vinha adotando sobre seu estrangeiro próximo, como nas ilhas em litígio com o Japão e demais países da região. No Kremlin, o pato topetudo manco também assusta. A ação na Síria deixou claro que o aprendiz de tzar agiu bem em se aproveitar da inepta política externa de Barack Obama. A claudicante atuação americana no Oriente Médio no final do segundo governo de Obama (destaque negativo imbatível: a “linha vermelha” mais desbotada da história) deu a Putin a chance de fincar pé em Damasco e ter um prelado que lhe garantirá até o final da vida uma saída para o Mar Mediterrâneo, a mais velha obsessão dos tzares de verdade e dos tzares bolcheviques que o antecederam. Todavia, com Trump no Salão Oval, ações como a tomada manu militari da Crimeia passaram a ser inconcebíveis, não porque o ethos de Trump seja absolutamente contrário a esse ou outro tipo de crime internacional, mas porque o pato topetudo manco pode ser facilmente convencido de que foi uma afronta à sua autoridade e resolver partir para a briga. Quem diria: até um projeto de bully na Casa Branca tem um lado positivo... Por fim, um comentário apenas a respeito da Venezuela, a ser confirmado pelos fatos: a crise ainda não descambou ainda para uma guerra civil aberta porque a ditadura faz de tudo para se manter oculta sob um véu 99% transparente – e uma das razões é exatamente o medo de que Donald Trump possa, diante de uma guerra civil aberta contra um ditador, possa conseguir autorização do Conselho de Segurança das Nações Unidas para intervir no sofrido país caribenho. Para quem acha que China e Rússia vetariam, dois comentários finais: ambos os países têm interesses fortes com os Estados Unidos que poderiam ser usados em barganhas, exatamente o tipo de jogo em que Donald Trump, gostemos ou não, é mestre: negociar com blefes e troca de interesses. Com a China, a questão comercial poderia ser facilmente utilizada em troca de uma abstenção; com a Rússia, o alívio às sanções a altos funcionários da nomenklatura e empresários ligados a Putin certamente melhoraria as condições políticas do Kremlin. Como se vê, há pontos positivos com um bully no Salão Oval e, convenhamos, de tédio não se morre quando se tem um pato topetudo manco dando expediente na Casa Branca – exatamente ao contrário do que o senso comum imaginaria.

Pedro Nascimento Araujo é economista.
nascimentoaraujo@hotmail.com

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