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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

O Zumbi do Bloco P


Por Pedro Nascimento Araujo

Há um zumbi em Brasília. Ele dá expediente todos os dias no Bloco P da Esplanada dos Ministérios, mais conhecido como Ministério da Fazenda. Ele era Ministro da Fazenda há poucos dias e atendia pelo nome Guido Mantega. Agora, é um apenas um espectro. Foi descartado por Dilma Rousseff antecipadamente: quando perguntada acerca da manutenção da equipe econômica cujo comandante é Guido Mantega, Rousseff saiu-se com uma pérola: “Governo novo, equipe nova.” Assim, perca Dilma Rousseff ou vença Dilma Rousseff, a única certeza que qualquer brasileiro tem é que Guido Mantega não será mais Ministro da Fazenda. Inclusive ele mesmo. O porquê de Guido Mantega, ciente disso, não ter pedido para sair com a intenção de preservar sua imagem é um mistério que apenas ele pode esclarecer, mas o fato é que o capitão do pior crescimento da economia brasileira desde o Século XIX é carta fora do baralho – embora Dilma Rousseff não tenha dito explicitamente que o recado era para ele, não apenas o recado foi bastante claro em termos de contexto (as perguntas eram sobre manter Mantega à frente da Fazenda) quanto não houve um desmentido posterior. Sem apoio e já sendo tratado publicamente por Dilma Rousseff como responsável por seu fiasco econômico, Guido Mantega vai sangrar em cadeia nacional até o final do mandato de Dilma Rousseff: um morto-vivo comandando a moribunda economia brasileira.

Os números da economia brasileira já são péssimos, mas, ao contrário do infame slogan do Palhaço Tiririca, nesta semana ainda ficou que pior do que estava. A Moody’s, uma das principais agências de avaliação de risco do mundo, anunciou que o Brasil pode perder o Investment Grade. Isso seria péssimo para o país: implicaria em um aumento do prêmio de risco nos títulos nacionais – ou seja, juros ainda mais altos. Há os preços administrados (leia-se defasados) com a inflação sempre no teto da margem de tolerância de uma meta já leniente. Há os artifícios contábeis na situação fiscal do governo, com uma mimetizada retomada da infame Conta Movimento, desta vez por meio dos empréstimos do Tesouro Nacional ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Há o inchaço da máquina estatal, com os inacreditáveis 39 ministérios. Há os investimentos em recorde de baixa. Em suma, a lista de mágoas da economia brasileira nunca foi tão grande. Quando se esperava que a dupla Dilma Rousseff e Guido Mantega admitisse os equívocos e os corrigisse, nada. Quando, finalmente, não se esperava mais nada, eis que Dilma Rousseff se recusa a assumir suas responsabilidades e atira Guido Mantega aos leões. E eis que Guido Mantega aceita o pelourinho público. Evidentemente, qualquer pessoa com um mínimo de instinto de autopreservação já teria pedido as contas. Exceto Guido dos Palmares, o Zumbi do Bloco P.

Quando o Brasil mais precisaria de liderança firme na economia, temos um Guido dos Palmares enfraquecido a cada dia segue ao leme. Isso significa que as já mais que atrasadas reformas para dinamizar a economia, eliminando eficiências e aumentando a produtividade (único modo de aumentar a riqueza nacional de forma sustentável), continuarão atrasando. O cenário externo também não anima muito. Conjuntamente, a recuperação da economia americana e a redução do crescimento da economia chinesa por matérias-primas atuam como freios complementares na economia brasileira. Por conta dos bons números da geração de empregos e do fim do saneamento do sistema financeiro local, os americanos estão retirando os estímulos à recuperação econômica. Na prática, isso significa que os juros subirão nos EUA. Sempre que isso acontece, dinheiro do mundo inteiro começa a fluir para os cofres americanos. É natural: acontece em quando agentes racionais compraram a solidez americana (decorrência de uma reputação construída ao longo de mais de dois séculos de estabilidade) com a instabilidade dos demais países (eis o nosso vizinho em moratória novamente!). Com isso, investidores somente toparão abrir mão de ser remunerados pelo Tesouro dos Estados Unidos da América se o retorno em países como o Brasil for tão maior que compense os riscos associados. O problema é que uma redução no fluxo de capital especulativo direcionado ao Brasil levaria imediatamente a uma pressão por desvalorização cambial, algo desejável pelos exportadores em momentos de resultados comerciais desfavoráveis como agora, mas implicaria em estouro total e absoluto da inflação, algo que ninguém deseja arriscar. Por seu lado, a redução da demanda chinesa é vista na queda dos preços das principais commodities exportadas pelo Brasil: minério de ferro e soja. Com a Argentina quebrada, fica completo o cenário de dificuldades comerciais, conforme se nota já nesse ano, cujo resultado é uma menor entrada no país de divisas oriundas do comércio, se não uma saída líquida delas. Se a Conta Corrente não pode mais contar com a Balança Comercial (redução da demanda na China) para se equilibrar e se a Conta Capital e Financeira também não é mais capaz de cobrir os nossos déficits com poupança externa (aumento da demanda nos EUA), então nossa travessia é ainda mais complicada. Olhar para o timão e ver que há um zumbi no comando não ajuda em nada a acalmar os sempre histriônicos mercados financeiros mundiais.

Com Guido dos Palmares oficialmente transformado em pato manco (“lame duck”, designação para ocupante de cargo público em fim de mandato, cujo poder na prática acabou e que nem os mais próximos assessores respeitam ou mesmo temem, preferindo dedicar-se a buscar as graças do novo incumbente), não há nada a fazer exceto torcer para que 2015 chegue logo e que o novo titular da Fazenda tome as medidas necessárias para recolocar a economia brasileira nos trilhos do crescimento sustentável. Curiosamente, um momento lame duck poderia ser o momento perfeito para isso: como um franco-atirador que se sabe cercado por tropas inimigas, Guido dos Palmares poderia fazer disparos lendários antes de capitular; afinal, ele já está demitido antecipadamente. Todavia, tal hipótese é tão realística quanto os faunos de “Sonhos de uma noite de verão” – o Zumbi do Bloco P realmente acredita que não fez nada de errado na condução da economia. Assim como sua única superior e comandante que dá expediente no Palácio do Planalto, ele não entendeu patavinas e acha que disparates como a “Nova Matriz Macroeconômica” são sucessos de público e crítica. Portanto, sua agonia em ágora não tem serventia nenhuma ao país, uma vez que não ensejará ações meritórias, mas apenas mais do mesmo fracasso. Além disso, convém não nos esquecermos de que zumbis podem ser eternos – e por isso, contra toda a lógica, nunca poderemos afirmar que Guido dos Palmares realmente sairá do governo em um eventual segundo mandato de Dilma Rousseff. O Zumbi do Bloco P pode ter sua fidelidade canina recompensada sendo transferido para outro bloco: por exemplo, o Bloco H, sede do Itamaraty. Lá, certamente encontrará uma instituição pronta para ser assombrada.


Pedro Nascimento Araujo é economista.

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