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terça-feira, 16 de maio de 2017

Game Over. Por Pedro Nascimento Araújo


Luís Inácio Lula da Silva, em seus inúmeros delírios de grandeza, gostava de exaltar-se dizendo que seu governo era inédito, mesmo que não fosse. Obviamente, é exagero dizer que nunca na história deste país se viu um homem público ser descontruído de forma tão veloz e avassaladora quanto Lula da Silva – mas certamente não é exagero dizer que Lula da Silva foi o presidente mais arrogante que este país já teve. E, agora, está pagando o preço pelas escolhas erradas que fez ao longo da vida. Ele tentou criar uma aura de mito de si mesmo, mas falhou; afinal, mitos surgem de narrativas mitológicas. Mitos não são pessoas: mitos são arquétipos, ideias, construções cuidadosamente entalhadas ao longo de muito tempo e por muitas pessoas. Mitos são tão fortes que suscitam fé. Isso vale para todas as religiões: se um cristão nada mais é do que alguém que acredita na ressurreição de Cristo (“E, se Cristo não foi ressuscitado, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé” – 1Cor 15,14), a mesma ressurreição não passa de mitologia para quem, por exemplo, professa a fé maometana ou é ateu. Mitos, portanto, fazem narrativas acerca da própria humanidade, com virtudes, erros, desejos, realizações. Mitos, quando não são deidades, são meta-humanos – no mínimo. Por isso, não aceito a ideia de que pessoas vivas possam ser comparadas a mitos. Assim, não trataremos acerca do derretimento público da bem-construída imagem de benfeitor desinteressado que Luís Inácio Lula da Silva vem enfrentando como se mito fosse. Trataremos como o que é: a destruição de uma imagem que jamais correspondeu à realidade. Estamos falando de um jogo de enganação que chega ao fim. Para Lula da Silva, as letras que formam Game Over já começam a aparecer na tela.

Luís Inácio Lula da Silva tem uma trajetória bastante familiar a milhões de brasileiros: o retirante nordestino que abandonou sua terra para tentar a sorte nas grandes cidades. São pessoas que nada mais têm do que uma capacidade incrível de trabalhar, que acreditam que apenas o trabalho duro e honesto, forjado na fé católica dos homens do sertão, é capaz de dignificar alguém. Em sua encarnação como retirante que foi trabalhar e se formar técnico (torneiro-mecânico), Lula da Silva foi um desses bravos brasileiros, cujo pendor pelo trabalho duro e honesto encaixa-se facilmente em uma descrição de por Max Webber. São pessoas que, em apenas uma geração, deixam uma situação de miséria e permitem que seus filhos, graças aos incansáveis e honestos esforços dos pais, possam ascender ao meio da pirâmide social. Tomado como um grupo, porque obviamente há exceções, os retirantes são pessoas admiráveis – e, por ter sido um deles, esse reconhecimento sempre deve ser dado ao Lula da Silva que saiu de Garanhuns e virou torneiro-mecânico em São Paulo. Esse Lula da Silva, no entanto, desapareceu quando entrou para o sindicalismo. A partir daquele momento, surgiria a figura pública de Lula da Silva. Nada mais dos valores que fizeram dele um brasileiro que nos dá orgulho. A julgar pelo que falou Emílio Odebrecht, surgiu ainda nos anos 1970 o homem afeito a mercês e sinecuras que hodiernamente reconhecemos em Lula da Silva. Os sinais de que essa seria a personalidade dominante estavam claros. E alguns argutos observadores deram-se conta disso rapidamente.

Golbery do Couto e Silva tinha a merecida alcunha de Bruxo. Era uma inteligência rara, reconhecido como brilhante mesmo por seus inúmeros inimigos: você poderia concordar ou discordar dele, mas não poderia ignorar o que ele dizia porque sempre tinha fundamento. Considerado o pai da geopolítica brasileira, o Bruxo esteve à frente do temido Serviço Nacional de Informações (SNI, órgão de inteligência do Regime Militar) e, nessa função, conheceu Lula da Silva em sua encarnação de líder sindical. A verdadeira extensão da relação entre o Regime Militar (representado pelo general Golbery do Couto e Silva) e o sindicalismo (representado por Luís Inácio Lula da Silva) talvez jamais venha a ser conhecida, mas sabe-se hoje que existia – e que, não havendo corrupção, foi bastante positiva: ao criar uma relação menos tensa com o governo, Lula da Silva contribuiu para evitar potenciais banhos de sangue. Mas, a se julgar pelo depoimento de Emílio Odebrecht, o gosto de Lula da Silva pela vida fácil financiada com dinheiro dos outros não passaria despercebido por Golbery naqueles anos embrionários da carreira política que levaria o ex-retirante ao Palácio do Planalto: o Bruxo disse ao empreiteiro para não temer as greves comandadas por Lula da Silva porque ele não passaria de um bon vivant; portanto, seria fácil cooptá-lo. Dito e feito. O Bruxo não seria o único a notar esse pendor de Lula da Silva por, digamos, autoindulgências. Na campanha presidencial de 1989, ficou famosa a referência de Fernando Collor de Mello a “aparelhagens ultramodernas e sofisticadas de som” de Lula da Silva no último debate entre ambos – aliás, Collor foi além e disse que Lula da Silva não trabalhava desde 1978 e morava em um apartamento gratuito de 350 metros quadrados em Brasília. Não eram casos isolados. Até hoje, reside em uma cobertura que não está em nome dele e pela qual a justiça não encontrou provas de pagamento de aluguel por anos. Ulysses Guimarães e outros argutos observadores em Brasília repetiram o diagnóstico de que Lula da Silva gosta muito de mordomias bancadas por empresários com interesses inconfessáveis na carreira política dele. Difícil acreditar que tal homem tenha sido antes um valoroso retirante.

O fato incontornável de que a imagem que Lula da Silva construiu para o mundo está desbotando velozmente é estarrecedor. Não bastasse uma grande propensão a viver com o chapéu alheio, histórias cada vez mais escabrosas foram aparecendo com o passar dos anos. Antes de entrar na corrupção propriamente dita, alguns casos escabrosos viriam à tona. Primeiro, um certo pendor para circular com amantes fixas. Ainda na campanha de 1989, outro fato explorado por Collor de Mello para desestabilizar Lula da Silva foi a suposta existência de uma amante de nome Deca, psicanalista em Brasília e frequentadora do tal apartamento de 350 metros quadrados – pessoas ligadas a Collor fizeram chegar a Lula da Silva que seu adversário teria fotos dos dois em uma pasta que Collor tinha nas mãos durante todo o debate. Houve também o célebre caso de Rosemary Noronha, tão íntima que até dormiria com ele no avião presidencial quando Marisa Letícia não estava presente – e depois se tornaria conhecida por negócios escusos. Casas e despesas pagas por empresários, com destaque para seu compadre Roberto Teixeira precederam as relações com as empreiteiras. Conforme os depoimentos em juízo vão-se sucedendo, a situação fica pior. Na verdade, é patético. Há uma espécie de roteiro da humilhação: Lula da Silva sempre começa negando tudo e vai mudando o discurso na exata medida do que vai sendo comprovado, até não ter mais como negar e simplesmente não tocar mais no assunto. Pegue-se o caso da Odebrecht. Agora que não há mais como Lula da Silva negar que foi beneficiado, o discurso mudou. Antes, quando ele ainda dizia que não havia viva alma mais honesta do que ele no país, o discurso era de que ninguém seria capaz de provar que ele aferiu alguma vantagem na relação com empreiteiras. Depois, de que nada do que recebeu era ilegal, já que havia ficado claro que ele recebeu vantagens. A até há pouco, o discurso era de que ninguém poderia acusá-lo de pedir, uma vez que ficou claro que ele recebeu vantagens ilegais. Com os depoimentos em que várias pessoas afirmam perante a justiça que ele pediu, finalmente fez-se o silêncio e agora Lula da Silva não fala mais sobre o assunto, limitando-se a reclamar de “perseguição”.

Digressão relevante: é bem verdade que tática semelhante vem sendo seguida por Dilma Rousseff; todavia, ela aparentemente já está em Game Over, porque nem o PT liga para o que Dilma Rousseff defende ou deixa de defender – e eis a dolorosa e insofismável prova reside no fato de que o PT sempre faz publicamente a defesa de Lula da Silva e a condenação do governo de Michel Temer, mas nunca faz publicamente a defesa de Dilma Rousseff e, mais sintomático, jamais considerou defender a restituição de Dilma Rousseff ao cargo de presidente da República; na verdade, nem mesmo cogitou por um momento sequer tê-la como sua candidata em 2018, ainda que Lula da Silva esteja preso no momento do pleito, deixando claro que o Game Over de Dilma Rousseff foi selado pelo PT irreversivelmente, há muito e sem dó. Digressão encerrada, o que resta de Lula da Silva é uma triste ausência total de coerência no discurso. Isso é o fim para quem construiu toda uma vida pública de sucesso inegável baseando-se em sua própria capacidade de levar as pessoas enxergar em si a encarnação de um dos maiores arquétipos brasileiro de virtude: o retirante nordestino que, com sua capacidade de trabalho e sua honestidade, consegue reverter incontáveis gerações de miséria e marginalidade social em apenas duas gerações. Lula da Silva era inspiração. Seu próprio fazia seus eleitores acreditarem nele, acreditarem que era possível uma pessoa que veio de muito baixo vencer trabalhando duro e sendo honesta. Lula da Silva era a concretização do sonho brasileiro. Até que se embrenhou pelo sindicalismo e passou a viver de sinecuras e mercês. Deu no que deu: suas falcatruas foram reveladas e seu discurso se perdeu. Com sua imagem cada vez mais associada aos inacreditáveis esquemas de corrupção, será preso e verá seu nome encolher na história – cada vez mais seu período no Palácio do Planalto será lembrado mais pelas quadrilhas que foram lá instaladas com seu beneplácito e para seu benefício do que por qualquer outra coisa. Triste fim para um homem que, se não foi um mito porque, por definição, simplesmente homem algum jamais poderia sê-lo, certamente foi uma grande fonte de inspiração que fez os brasileiros sonharem com uma vida melhor, mais digna, alicerçada em trabalho duro e honesto, como ensina a fé que move milhões de brasileiros que sofrem nas agruras dos sertões deste país – e que, paulatinamente, vêm descobrindo que seu grande exemplo é uma farsa ambulante. Pena, porque o Brasil não tem modelos de inspiração desde D Pedro II. Lula da Silva foi quem mais chegou perto, mas se provou uma fraude. E agora o fim é iminente. Game Over.

Pedro Nascimento Araujo é economista.

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