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quarta-feira, 31 de maio de 2017

Respeitável Público - "Suposto Progresso" por Manoel Atanásio


O suposto progresso arrasava com os prédios históricos e a nossa história e em seus lugares os prédios "modernos" eram instalados

No final dos anos 80 Cabo Frio despertava para um novo momento, a era dos royalties (ainda timidamente) começava a dar sinais que a cidade viveria momentos de grande riqueza. Éramos pouco mais de 126 mil habitantes segundo o censo do ano 2000, um paraíso muito conhecido em todo o Brasil e fora dele. Cabo Frio começa a sentir os prazeres de ser uma cidade milionária e com muitos problemas para serem resolvidos, valões à céu aberto e verdadeiros lixões contrastavam com as belezas de nossas praias, arquiteturas históricas e uma natureza ímpar, a cidade foi se desenvolvendo numa velocidade jamais vista, um verdadeiro canteiro de obras em todos os cantos, porém é necessário dizer que Tamoios não se enquadrava naquele novo momento, talvez por se tratar de uma área rural (como era reconhecido na época).

Apesar dos grandes valões e bairros inteiros receberem saneamento e calçamentos e a euforia dos grandes shows tomarem a cidade, algo naquela ocasião não foi levado em consideração. A cidade crescia vertiginosamente e dez (10) anos depois já éramos 59 mil habitantes a mais e já era possível notar que aquelas obras passadas não dariam vazão a uma contingência tão grande de pessoas que resolveram vir morar aqui. Enfim, a cidade caminhava tranquilamente e com muito dinheiro dos royalties alimentando a "CIDADE DOS SONHOS".

Neste meio tempo Tamoios crescia com invasões e a facilidade de se construir irregularmente sem qualquer perturbação, enquanto os olhos dos governantes, da população e dos turistas estavam virados para a magia que tomava conta do grande centro da cidade com seus shows, praias lotadas, comércios vendendo absurdamente, as artérias principais para se manter viva a nossa cidade nos dias de hoje eram esquecidas e se quer diagnosticadas. Hipnotizados com a magia da bonança, os governantes e a grande maioria da população não percebiam o que estaria por vir, dias tenebrosos como os atuais. O suposto progresso arrasava com os prédios históricos e a nossa história e em seus lugares os prédios "modernos" eram instalados, a história tão bela de nossa cidade vivia em convulsão e dia após dia era encaminhada para a UTI, quem seria capaz de salvá-la? Não havia muito o que se fazer, já que a briga política pela herança dos royalties era ferrenha e muitos queriam herdá-la.

Por um lado se os turistas ficavam impressionados com "as modificações" da nossa cidade, por outro, os moradores sentiam literalmente o abandono do poder público, Tamoios e Jardim Esperança que os diga. Para "amenizar" a dor destes moradores, surgia em 2010 a era dos projetos sociais, alguns eram de tamanha importância naquele momento, porém não abraçavam todos que necessitavam daquela ajuda emergencial, já éramos quase 200 mil habitantes e Tamoios de um distrito considerado rural já era uma "pequena metrópole" com aproximadamente 70 mil habitantes, sem saneamento, sem urbanização e sem governo. Final de 2014 e o grande baque surge com a diminuição repentina dos royalties, todos numa só voz se perguntavam: "E AGORA?".

Começava a era das acusações dos governantes, aquela noiva outrora bela e motivo de orgulho, sentia a dor do desprezo e despreparo de todos que queriam a sua mão em casamento. Seu vestido alvo como a neve já se encontrava em trapos e seus farrapos eram motivos de piadas. Todos os noivos que se apresentaram como homens preparados para casar, fracassaram e a noiva desiludida ainda respira através de aparelhos buscando quem sabe o último suspiro nos braços de quem de fato tenha amor sincero para lhe oferecer, um amor renovador. Todavia essa noiva chamada Cabo Frio ainda sofre com seus antigos pretendentes, os mesmos que lhe prometera um casamento frutífero e duradouro. Estes, vivem as espreitas querendo usufruí-la mais e mais, pois essa noiva não é uma qualquer, é a Cabo Frio, cidade de grande importância no cenário nacional e internacional.

Chegamos aos dias atuais e um pouco desorientada por se encontrar na UTI a noiva, mãe de aproximadamente 216 mil habitantes clama por renovação. Ela, a noiva, não deseja um salvador da pátria, deseja um noivo (governante) que tenha pulso firme e que lhe faça respirar sem aparelhos, ela não deseja mais os "noivos" (governantes) que outrora lhe iludiu e que ainda hoje dizem ter o elixir da solução de seus problemas passados, não, não é isto que a noiva deseja! Ela deseja um noivo que leia o diagnóstico de sua saúde e diga: "De alguma maneira eu irei te ajudar a sair desta e levarei você ao altar."  Um noivo que reúna todos os filhos dela (população cabofriense) e diga a verdadeira situação da saúde de sua mãe, sem disse me disse ou jogando a culpa em A ou B. Um noivo que pulse dentro dele o sangue cabofriense, que não seja um noivo (filho) pródigo, que não brinque com seus sentimentos, que não barganhe com o que restou de sua herança, que ame sua bela história, que a valorize e que  seja capaz de retirá-la da UTI e tenha a consciência que é cruel e vil usar essa noiva tão cansada em prol de um grupo ou de poucas pessoas. 

O eldorado dos royalties pode ter acabado, só que o amor de muitos por essa cidade resistirá até o fim. 

Manoel Atanásio da Silva Filho 

1 comentários:

Brito disse...

Muito bonito o texto do meu amigo, Manoel Atanásio.

Entretanto não é demais ressaltar que foram seus próprios "filhos" (população) quem sempre escolheram os "noivos".

Se a escolhas foram ruins ou boas, o "confirma" fica, exclusivamente, por conta destes 200 e poucos mil, supostos, "órfãos".

Att.

Brito

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