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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

A inflexão shakespeariana de Beltrame



 

Por Pedro Nascimento Araujo

A estrutura das peças de William Shakespeare, um dos maiores dramaturgos de todos os tempos, é fato bastante estudado. O bardo utilizava um roteiro infalível, em cinco etapas, que pode ser replicado para qualquer peça: Apresentação, na qual os leitores conhecem as personagens e seus conflitos; Escalada, na qual as reações das personagens aos conflitos levam às complicações que exigirão definições; Inflexão, na qual as personagens e as circunstâncias mudam, perfazendo as ações que serão o ponto focal da peça. Solução, na qual os conflitos e suas complicações são resolvidos, para o bem ou para o mal; e Conclusão, na qual se chega a um termo, tanto progressista (em comédias, há o surgimento de uma nova ordem, geralmente expressa por meio de casamentos ou de celebrações de paz) quanto reacionário (em tragédias, a restauração da ordem social e moral é à custa de lutas, sacrifícios e mortes). Para José Mariano Beltrame, o gaúcho artífice da melhor política de segurança pública que o Rio de Janeiro já teve, sua obra dileta, a criação das UPP (Unidades de Polícia Pacificadora), está entrando em um momento de Inflexão shakespeariana. Nesse momento no qual sua política de segurança pública está sendo deliberadamente atacadas por bandidos e por políticos, também está sendo definido qual será a Conclusão.

A recente ousadia dos bandidos é deliberadamente uma estratégia de enfraquecimento das UPP. Órfãos de uma fonte de poder (e, por extensão lógica, de renda) absurda que a perda dos territórios para as UPP causou, eles, acuados que estavam, se sentiram capazes de desafiar Beltrame, o homem que, desde a retomada do Complexo do Alemão em 2011 no episódio conhecido como “Fuga das Baratas”, era intocável. A fragilidade de Beltrame tem nome e sobrenome: Sérgio Cabral, o incrível homem capaz de virar um governante extremamente impopular sem fazer um governo extremamente ruim. Com Cabral mais malhado que Judas em Sábado de Aleluia, ficou claro para os adversários políticos de Cabral que a única coisa que poderia dar a vitória em outubro ao atual vice-governador Pezão (que assumirá o cargo quando Cabral renunciar no final deste mês) seria a continuidade do sucesso de Beltrame à frente da segurança pública. Pronto: bastaria destruir a obra de Beltrame e o Palácio das Laranjeiras estaria aberto para outro grupo político, com o então governador Pezão ficando como responsável por deteriorar a segurança pública do Rio de Janeiro. A Revista Época da semana passada mostrou como Anthony Garotinho e Álvaro Lins comanda um grupo formado para infernizar Beltrame com ações judiciais, enquanto a Revista Veja dessa semana mostra como Marcelo Freixo comanda um grupo formado para infernizar Beltrame com manifestações de rua violentas. Nesse contexto, os bandidos se sentem livres para também cutucar o Secretário de Segurança com ações terroristas contra as UPP. São essas as personagens e seus conflitos: a Apresentação shakespeariana está feita.

Ontem, a ação terrorista ocorreu na Rocinha, mas o roteiro foi o mesmo das demais incursões recentes dos bandidos no Complexo do Alemão: ataques diretos às UPP. O objetivo, absolutamente terrorista, é assustar os policiais e a população. Os bandidos sabem que não poderão retomar as favelas enquanto as UPP existirem – assim, buscam simplesmente desacreditá-las para que Beltrame, o homem que as criou, saia do caminho junto com Cabral e com Pezão. É uma ação que somente faz sentido quando acompanhada das ações dos grupos como os de Garotinho e de Freixo: os inúmeros processos contra Beltrame que Garotinho/Lins patrocinam somam-se às inúmeras manifestações violentas contra Beltrame que Freixo patrocina e aos inúmeros ataques terroristas contra as UPP que os bandidos patrocinam. É uma combinação explosiva: Sérgio Cabral sangra em praça pública, o que estimula os ataques a Beltrame como forma de impedir que Pezão chegue a outubro com condições de vencer. Conscientemente ou não, Anthony Garotinho e Marcelo Freixo acabam ajudando e sendo ajudados pelos bandidos. A marcha da insanidade contra a pacificação que Beltrame conseguiu a duras penas e que beneficia a todos no Rio de Janeiro prossegue sem que ninguém além dos bandidos perceba o mal que está sendo insuflado para a sociedade, pouco importa se em nome do ganho político (Garotinho) ou da afirmação da ideologia (Freixo). Eis a Escalada shakespeariana que Beltrame enfrenta hodiernamente: ataques terroristas turbinados pelas atuações irresponsáveis de Anthony Garotinho e de Marcelo Freixo, homens que, em busca da realização de seus interesses pessoais, estão sendo usados por bandidos que querem recolocar toda a população de um estado sob seu jugo de terror.

Chegamos, portanto, ao momento da Inflexão shakespeariana: ou Beltrame decide enfrentar seus adversários para manter a pacificação e torna-la política supragovernamental – ou seja, mesmo que Anthony Garotinho ou Marcelo Freixo venha a ser o novo governador, não poderá muda-la – ou Beltrame sucumbe junto com Sérgio Cabral, os bandidos retomam o território e, malgrado uma sensação de paz momentânea (afinal, após retomarem o poder, os bandidos não serão tolos de provocar a reação da sociedade e, até fincarem suas bases de forma irremovível, proibirão qualquer ataque nas favelas e não deixarão a criminalidade crescer no entorno, fazendo parecer que o problema era Beltrame), em poucos anos tudo voltará a ser como era antes de Beltrame começar seu trabalho. Como se trata de vida real e não de uma obra-prima de Shakespeare, a Inflexão está sendo escrita agora. O destino da segurança no Rio de Janeiro está associado ao destino de Beltrame, não ao de Cabral, que deveria patentear seu método para acabar com popularidade mesmo fazendo um governo bom, nem ao de Pezão, que não tem histórico político como governador – ele assumirá apenas após a renúncia de Cabral, anunciada para o final desse mês. É uma situação crítica. Tornar supragovernamental a política de segurança pública que Beltrame conseguiu implantar nesses anos de governo de Sérgio Cabral é um desafio e tanto. Exigirá de Beltrame, na reta final do seu trabalho, um esforço e uma dedicação talvez maiores que tudo o que ele fez até agora. Se ele tiver a resolução de enfrentar os bandidos e os oportunistas políticos, sem tergiversar, sem esmorecer e sem flexibilizar seus princípios, seus valores e seus objetivos, a Solução shakespeariana será uma batalha épica, mas conduzirá a uma Conclusão shakespeariana feliz e progressista, marcada pelo surgimento de uma nova ordem, expressa por meio da paz. Se, por outro lado, ele ceder uma polegada sequer, a Solução também será uma batalha épica, mas levará a uma Conclusão triste e reacionária, com a restauração da ordem social e moral que vigia antes de sua chegada à Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro – em outras palavras, ao reino de terror dos bandidos. Certamente, o gaúcho José Mariano Beltrame nunca se imaginou no papel de um herói de William Shakespeare, mas a vida o levou a uma típica situação de Inflexão shakespeariana – e sem sequer poder considerar a possibilidade de esperar por uma solução Deus Ex Machina no final; afinal, Beltrame está vivendo uma Inflexão shakespeariana não nos palcos, mas na vida real.

Pedro Nascimento Araujo é economista.

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