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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Beijinho no ombro, Internacional!



 

Por Pedro Nascimento Araujo

Nas últimas semanas, a situação se deteriorou profundamente na Venezuela e o povo da Ucrânia [aparentemente] conseguiu atingir seu intento de não voltar a ser vassalo do suserano de plantão em Moscou (cereja do bolo: Yanukovich conseguiu a proeza de ser apeado do poder pela segunda vez em uma década por uma revolta popular decorrente de sua ligação com os russos); ainda assim, dois corais merecem destaque por um motivo bem óbvio: as diferenças dentre eles – enquanto o coral regido por Carlos Fecher foi notícia por entoar o hino da Internacional Socialista, o regido por Eduardo Fernandes foi notícia por entoar Beijinho no Ombro, sucesso do Gaiola das Popozudas, grupo de funk carioca liderado por Valesca Popozuda.

O hino da Internacional Socialista, cantado pelo coral Nheeengarecoporanga de Petrópolis regido por Carlos Fecher, é um libelo político. Embora tenha sido escrita no Século XIX e tenha sido o hino da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) até meados do Século XX, a Internacional (como o hino, tradicionalmente cantado com o punho esquerdo cerrado para cima, é mais conhecido), ao contrário do que se poderia imaginar, tem uma bela letra. Fala em “não mais deveres sem direitos” e “não mais direitos sem deveres”, critica os privilégios que os governos dão para os ricos e clama por “uma terra sem amos”, ecoando a consolidação do fim da servidão. Mas não apenas regimes totalitários e genocidas como o de Stálin a adotaram – partidos historicamente favoráveis à democracia como o Partido Social Democrata da Alemanha a têm como hino. Como sói ser em um país livre, as pessoas podem cantar o que quiserem, quando quiserem e aonde quiserem, não deveria haver nada de mais em o coral de Fecher cantar a Internacional. Infelizmente, não é o caso: a Internacional foi entoada em um evento da Comissão da Verdade do Estado do Rio de Janeiro, que se propõe a iluminar os abusos de direitos humanos cometidos durante o período da ditadura civil-militar de 1964 a 1895 – tanto por parte do governo que queria manter uma ditadura militar no Brasil quanto por parte dos grupos armados que pretendiam estabelecer uma ditadura comunista no Brasil.

Carlos Fecher regeu a Internacional em uma cerimônia da Comissão Estadual da Verdade do Estado do Rio de Janeiro que contava com a presença de Maria do Rosário, titular da pasta de Direitos Humanos do Governo Federal, além de próceres da Comissão da Verdade do Estado do Rio de Janeiro. Ou seja, o ato em questão ideologiza um trabalho que deveria ser, por definição, apartidário e livre de contaminações ideológicas: evidentemente, não há verdade que possa ser apurada de forma independente quando há o uso de lentes ideológicas. Todavia, mais de uma semana após o coral Nheeengarecoporanga cantar a Internacional com os punhos esquerdos cerrados erguidos, se verifica que nada foi dito nem pela ministra Maria do Rosário e nem por nenhum outro expoente da Comissão da Verdade do Estado do Rio de Janeiro tanto sobre a inadequação do ato do Nheeengarecoporanga quanto sobre a necessidade de impedir que os trabalhos sejam eivados de ideologização, fica-se com a certeza de que, para Maria do Rosário e para os demais, tudo é natural. Em outras palavras, fica-se com a certeza de que a Comissão da Verdade do Estado do Rio de Janeiro não quer a verdade e a reconciliação e o aprendizado que dela deveriam advir, como ensinou Nelson Mandela por meio da Comissão da Verdade e Reconciliação da África do Sul, mas apenas revanchismo – quando não um ainda mais mesquinho oportunismo eleitoreiro. Carlos Fecher ainda gritou, ao final e entre aplausos dos presentes: “Venceremos!”. Infelizmente para a promoção dos direitos humanos no Estado do Rio de Janeiro, mais que dignidade, isenção e autoridade, a Comissão da Verdade do Estado do Rio de Janeiro perdeu respeito em Petrópolis no dia 11-Fev-2014.

Se, em Petrópolis, a escancarada ideologização da Comissão da Verdade do Estado do Rio de Janeiro causava espanto exibindo punhos cerrados, no Largo de São Francisco, sede da tradicional Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), o CoralUSP, regido por Eduardo Fernandes, conseguiu exatamente o oposto: arrancou aplausos e risos frouxos da plateia do sisudo Salão Nobre da USP ao cantar Beijinho no Ombro, um funk carioca do Gaiola das Popozudas. Naturalmente, a letra não pretende ser um hino como a Internacional; afinal, versos como “O meu sensor de periguete explodiu / Pegue a sua inveja e vá pra [CENSURADO]!” não são exatamente inspiradores, mas Beijinho no Ombro faz muito sucesso – e são bastante comuns letras bem mais explícitas no gênero e mesmo no próprio repertório do Gaiola das Popozudas. Há algumas versões do CoralUSP cantando Beijinho no Ombro disponíveis na internet – em todas, é possível perceber que, além de apresentar a técnica vocal apurada característica, a performance do CoralUSP foi divertidíssima: algumas cantoras iam para a frente do coral repetindo passos do funk carioca  – as partes nas quais elas tapam as bocas nas horas de cantar os palavrões são particularmente impagáveis. A plateia, que esperava por uma apresentação de um coral sem nada de diferente, ganhou a noite e cantou junto, aplaudindo feericamente o tempo inteiro. Não se tratou de algo inédito, nem no Brasil nem no mundo: há exemplos como os milhões de visualizações obtidos pela Marching 110, a banda da Ohio University que tocou e dançou Gangnam Style (hit mundial do sul-coreano Psy) no intervalo de um jogo de futebol americano em 2012, que atestaram o incremento na popularidade que um pouco de irreverência pode acrescentar a uma formação musical clássica. Assim, o CoralUSP acrescentou bom humor à sua apresentação no Salão Nobre da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo cantando Beijinho no Ombro e ganhou respeito no dia 20-Jan-2014.

Obviamente, não se busca, aqui, comparar obras e contextos diferentes: enquanto a Internacional é obra séria de pessoas sérias com objetivos sérios e que inspira pessoas no mundo inteiro há mais de um século, Beijinho no Ombro é apenas uma brincadeira que não influenciará ninguém e apenas divertirá os brasileiros durante um verão. O que se pretende é apontar o quão distintas foram as maneiras por meio das quais, em duas semanas, dois corais ganharam notoriedade nacional: o Nheeengarecoporanga, por meio dos punhos cerrados e da apologia da confrontação e o CoralUSP, por meio da irreverência e da simpatia. Ao final das contas, tanto literalmente (visualizações) quanto figuradamente (saiu engrandecido), a criatividade dos brasileiros é preferível ao rancor internacional. O bom humor venceu. Beijinho no ombro, Internacional!

Pedro Nascimento Araujo é economista.

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