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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

El Bloqueo



 

Por Pedro Nascimento Araujo 

Finalmente, o governo brasileiro saiu do imobilismo logístico e anunciou um crédito complementar que elevará o montante investido pelo BNDES em um complexo exportador com terminal portuário a ser construído ao custo de quase 1 bilhão de dólares – algo extremamente necessário para um país que precisa recuperar competividade internacional urgentemente. Esse país deveria ser o Brasil: o dinheiro é do povo brasileiro e a logística brasileira anda em petição de miséria, mas não é – trata-se de Cuba. Pior, o investimento em questão é um daqueles infames empréstimos de dinheiro nacional para governos internacionais que o governo brasileiro teve a petulância de tratar como sigilosos. Em visita à Ilha dos Irmãos Castro, Dilma Rousseff fez o de sempre: tratou os assassinos (a estimativa mais conservadora de todas, a do próprio Fidel Castro, fala em 4 mil fuzilamentos sumários no infame El Paredón) como amigos e reforçou o mito de Cuba ser vítima de um embargo americano que deliberadamente mantém o país pobre. Como, aparentemente, os mortos dos Irmãos Castro (e de Ernesto Guevara também: ele era um dos maiores entusiastas da prática) não importam para Dilma Rousseff (talvez porque não tenham sido mortos pela ditadura civil-militar brasileira) e a ausência de liberdade dos cubanos talvez seja o inconfessável sonho de consumo do PT, vamos analisar um pouco o mito de uma Cuba vítima no caso do embargo americano.

Primeiramente, é importante lembrar que El Bloqueo não surgiu do nada. A bem da verdade, El Bloqueo começou com um embargo à venda de armas ao país quando as forças de Fulgencio Batista e Fidel Castro lutavam pelo controle do país em 1958. Em 1960, quando o lado dos Irmãos Castro já havia vencido – não deixa de ser irônico observar que o embargo americano de armas prejudicou Fulgencio Batista; portanto, indiretamente, concorreu para a ascensão dos Irmãos Castro – e Fidel já era comandante de Cuba, ativos americanos no país passaram a ser nacionalizados sem o pagamento de indenizações. Como resposta, os americanos retiraram algumas vantagens tarifárias que os cubanos tinham na exportação de açúcar: em um período de escalada na Guerra Fria, a União Soviética não pestanejou e começou a comprar a produção que os americanos se recusavam a comprar. Veio, então, a Crise dos Mísseis (1962) e, no ano seguinte, John Kennedy congelou ativos cubanos nos EUA e estendeu o embargo para quase tudo (ajuda humanitária e medicamentos ficaram de fora), recursos cubanos no EUA foram congelados e o embargo mantém-se praticamente inalterado até hoje.

Cuba não foi o primeiro nem será o último país no mundo a cometer esse tipo de roubo (não há outro nome para desapropriar, nacionalizar ou coletivizar ativos de outros países sem pagar as devidas indenizações): o Brasil fez isso durante a presidência de João Goulart (Leonel Brizola, cunhado de Goulart e governador do Rio Grande do Sul, esteve à frente do processo com as nacionalizações de subsidiárias da Amforp e da ITT) e as relações com os EUA ficaram abaladas. Apenas no governo de Castelo Branco o Brasil pagou as indenizações e as relações econômicas se normalizaram. Portanto, não há nada de estranho na atitude americana em relação a Cuba e seu recado é claro: pague as indenizações que voltaremos a comerciar – exatamente como aconteceu com o Brasil. Afinal, no que tange aos americanos, o adágio de Calvin Coolidge (presidente dos Estados Unidos de 1923 a 1929), é sempre válido: o negócio dos EUA é fazer negócios (“The chief business of the American people is business”).

Durante a Guerra Fria, a União Soviética mais que supria as necessidades cubanas. Com isso, Cuba não buscou normalizar as relações com os Estados Unidos; do contrário, usou o embargo como pretexto para posar de vítima e acusar os EUA de querer derrubar o governo por asfixia comercial. As repetidas diatribes cubanas surtiram efeito: muita gente passou não apenas a simpatizar com uma emulação continental do embate bíblico entre Davi e Golias, como também a fazer confusão e imaginar que os Estados Unidos impuseram uma versão caribenha do Embargo Continental de Napoleão, quando, na verdade, apenas os EUA não negociam com Cuba. Assim, estendendo a versão romanceada de um entrevero comercial, Cuba, até hoje, usa El Bloqueo como subterfúgio argumentativo para suas contumazes violações de Direitos Humanos. Na prática, Cuba tem livre acesso ao comércio com quase 200 países no mundo, mas só fala daquele com o qual não tem acesso ao comércio por escolhas próprias, pois nunca considerou sequer negociar as indenizações. Tal estratégia, como dissemos, funciona: Dilma Rousseff pediu mais uma vez o fim de El Bloqueo durante uma visita ao país caribenho para participar de uma cúpula com países da América Latina e do Caribe – ou seja, as Américas sem os EUA e o Canadá. Se parece contrassenso anunciar que um bilhão de dólares serão tirados do bolso dos brasileiros para construir um complexo exportador portuário em um país que está sob um rigoroso embargo, é porque efetivamente o é: o embargo americano a Cuba simplesmente não funciona exatamente por ser um embargo apenas americano. Posando de vítima do embargo, Cuba recebe ajudas como a citada do BNDES e não aborda suas contumazes violações de DH. Pensando bem, talvez os Irmãos Castro só tenham conseguido manter viva sua decrépita ditadura por tanto tempo graças aos EUA, que lhes proporcionaram um bode expiatório perfeito: El Bloqueo.

Pedro Nascimento Araujo é economista.

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