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quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A benção, Francisco de Deus!




Por Pedro Nascimento Araújo

A simpatia ser uma das menos importantes qualidades do Papa Francisco é um indicativo da dimensão da importância de suas demais qualidades – afinal, é raro encontrar pessoas mais simpáticas que ele. Mas simpatia apenas não explica porque, em pleno Século XXI, a naturalmente inquieta juventude do inquieto mundo hodierno, acostumada a ter tudo em tempo real, ficou encantada por um homem de fala mansa que se veste como seus antecessores se vestiam há 2 milênios. Essa geração, que prefere escrever em instant messenger de smartphone a falar por telefone, simplesmente parou para ver e ouvir um homem velho, o último Rei absolutista do mundo. Curiosamente, o último Rei absolutista do mundo quase não possui territórios, mas é líder de mais de 1 bilhão de cristãos católicos e influencia mais de 1 bilhão de cristãos ortodoxos, protestantes, maronitas etc. Pois o último Rei absolutista do mundo, cujo exército é minúsculo (sua Guarda Suíça, com seus uniformes medievais desenhados por Michelangelo), é capaz, quando provido de força moral, como provou João Paulo II, de ser peça crucial na derrocada de um Império com um exército poderosíssimo: a União Soviética. Um Papa, portanto, é forte se tem força espiritual e lidera pelo exemplo – é bem verdade que nem sempre foi assim: houve épocas em que o Papa tinha exércitos e conquistava territórios; felizmente, atualmente seu poder é apenas espiritual, o que o torna muito mais forte.

Quem tem poder espiritual lidera pelo exemplo. E dar exemplo é algo que Francisco faz como ninguém. No Brasil, a sua atitude espartana é mais poderosa que um protesto de um milhão de pessoas nas ruas contra as mordomias dos políticos brasileiros. Por que? A lista é grande, mas, entre outros motivos, temos os que seguem. Porque o último Rei absolutista do mundo não deixa um helicóptero ligado o aguardando por mais de uma hora enquanto ele não resolve sair do Palácio Guanabara, como faz Sérgio Cabral – noves fora os voos para buscar o cachorro. Porque o último Rei absolutista do mundo não acha que uma suíte de 81 metros quadrados em um hotel de luxo em Durban é pequena para ela, desprezando o fato de que tal medida é o dobro do tamanho padrão dos apartamentos que seu governo dá ao povo por meio do Minha Casa Minha Vida, como faz Dilma Rousseff – noves fora a recusa em ficar hospedada nas Embaixadas do Brasil e preferir pagar hotéis. Porque o último Rei absolutista do mundo não se esconde em elevadores privativos, como faz Eike Batista, apenas para não ter de se encontrar com aqueles que comanda – noves fora o gosto pela ostentação. Porque o último Rei absolutista do mundo não usa um carro exclusivo para se locomover, preferindo andar no mesmo ônibus que seus subordinados, ao contrário de Renan Calheiros e Henrique Alves, que voam de jatinhos para compromissos particulares – noves fora as numerosas encrencas com a justiça que cada ambos possuem. O último Rei absolutista do mundo usa seu tempo para trabalhar, não para ficar matraqueando que foi melhor que seus antecessores, como faz Lula da Silva – noves fora a covardia de sempre aparecer nas horas dos aplausos e de sempre desaparecer nas horas das críticas. Porque o último Rei absolutista do mundo jamais desviará 2 milhões de dinheiro público, como Marquinho Mendes, ex-prefeito de Cabo Frio, fez e agora é obrigado a devolver pela justiça – noves fora a vida de nababo que ele continua levando mesmo sem ter ocupação definida. Em suma, o último Rei absolutista do mundo não precisa de exércitos, privilégios, mordomias, rapapés, mercês: precisa apenas do seu exemplo para ser mais que forte. Sem dizer uma única palavra a respeito das atitudes dos políticos brasileiros, Francisco mostrou para todo o Brasil o quão patéticos nossos líderes podem ser.

Se nos exemplos Francisco é imbatível, nas atitudes e nas declarações ele não fica para trás. Em sua chegada ao Brasil, seu discurso no Palácio Guanabara, que durou metade do tempo do discurso da presidente Rousseff, foi mais uma demonstração de elegância: ele, o homenageado, falou menos que a anfitriã – e, quando o fez, falou sobre o assunto em tela, ao passo que ela procurou aproveitar os holofotes para se autopromover. Outras ocasiões se sucederam: Francisco recusou a segurança ostensiva e foi, literalmente, engolfado pelo carinho do povo brasileiro. Nada de vidros escuros, nada de cordões de isolamento. Todo brasileiro viu que o último Rei absolutista do mundo é um homem simples. Nada mais encantador. Qualquer autoridade brasileira quer carro exclusivo, vidros escuros, salas isoladas em aeroportos (quando não jatinhos): em suma, quer distância do povo – e ainda faz com que o povo pague pelo aparato que os mantém longe. O último Rei absolutista do mundo é firme em suas posições acerca da liberação das drogas e da violência contra menores de rua, ou ainda ao apoiar os protestos no Brasil, afirmando que espera que os jovens não continuem tentar buscar a utopia, ainda que errem às vezes e que seja necessário tomar cuidado com a manipulação da natural, desejada e poderosa indignação (um jovem que não se indigna não o “agrada”). O último Rei absoluto do mundo não acha que os homossexuais devam ser “curados” como quer o Pastor Marcos Feliciano, mas sim “integrados à sociedade”: segundo Francisco, se uma pessoa (no caso, homossexual) buscar Deus de coração, “quem seria eu para julgar essa pessoa?”, provando que o último Rei absolutista do mundo é humilde. Nossa lista é virtualmente infindável.

O mais importante: Francisco faz tudo isso seguindo os preceitos de Jesus Cristo. O Evangelho é seu norte. Ele age de acordo com as Escrituras. Basta procurar: todos os seus exemplos, todas as suas atitudes, todas as suas declarações – o que ele pensa, diz, faz: tudo está na Bíblia. E eis, talvez, a maior das qualidades de um homem com tantas qualidades: Francisco é coerente. Um Papa que é papa, no sentido de ser equivalente a pai: aquele que nos guia, nos ensina, nos apoia, nos repreende, nos perdoa, nos incentiva, nos ama. Com quem concordamos, discordamos, debatemos, concordamos novamente, discordamos novamente, debatemos novamente, mas nunca deixamos de dialogar com. Não é preciso concordar com Francisco em tudo para admirá-lo; na verdade, não é preciso ser Católico para admirá-lo – aliás, nem mesmo Cristão. Porque um homem coerente sempre será admirado por aqueles que concordam com ele. Se, além de coerente, esse homem for humilde, firme, simples, elegante e forte, será admirado também pelos que discordam dele. Há exatos 33 anos, João Paulo II foi o primeiro Papa a visitar o Brasil. Tudo o que foi escrito aqui sobre Francisco vale para João Paulo II. Com suas atitudes, como beijar o chão do Brasil tão logo desceu da aeronave, dar o Anel de Pescador para a Favela do Vidigal derreter e usar o ouro para melhorar a vida de seus habitantes, ou receber sindicalistas comunistas (ele, anticomunista convicto que sofreu na pela a perseguição comunista na Polônia, eleito Papa foi ao país no qual a Igreja Católica era perseguida e proclamou o emblemático discurso “Não tenham medo!”, inspiração para os levantes populares que culminariam com a queda do Império Soviético em 1991) no Morumbi e apoia-los em seu pedido de “liberdade” em pleno Regime Militar, João Paulo II é admirado até hoje no Brasil. Em 1980, Péricles de Barros fez uma música em homenagem à visita de João Paulo II que foi muito popular (até hoje, a torcida do Fluminense a canta nos estádios de futebol). A letra diz: “A benção, João de Deus! / A benção, João de Deus, / Nosso povo te abraça. / Tu vens em missão de paz. / Seja bem vindo.” No mundo todo, João Paulo II fez história ao inspirar a luta pela liberdade e contra a tirania comunista em seus 27 anos de pontificado. Francisco tem poucos meses como o último Rei absolutista do mundo, mas já seus exemplos, suas atitudes e suas declarações nos permitem desejar que seu pontificado seja fértil em inspirações de coerência, humildade, firmeza, simplicidade, elegância e força para o Brasil e para o mundo. A bênção, Francisco de Deus!

Pedro Nascimento Araujo é economista.

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