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quarta-feira, 28 de junho de 2017

A grande aposta de Doria. Por Pedro Nascimento Araujo


João Doria Júnior talvez não tenha percebido de imediato, mas ele penhorou todo seu futuro político em uma única ação: ao anunciar que acabará com a Cracolândia até o final de 2018, ele fez uma promessa perigosíssima. Para quem não é de São Paulo ou não costuma frequentar o Centro da maior cidade da América do Sul, o nome Cracolândia só é evocado quando alguma situação pouco usual tem o infame local como epicentro: em 2014, quando Loemy Marques, uma ex-modelo, foi localizada morando no local e virou carniça para alimentar programas sensacionalistas, ou há uma semana, quando uma operação policial desnudou o mito de que seria um local pacífico e dado ao auto-isolamento para pobres-diabos definharem até a morte longe das vistas da sociedade. Para quem é obrigado a frequentar os arredores daquele local, é fácil divisar a Cracolândia: trata-se de uma terra de ninguém em pleno centro da capital de facto do maior país do subcontinente. É um lugar com ruas interditadas para o tráfego de veículos e aonde o fluxo (como é chamado o frenesi de venda e consumo de drogas a céu aberto, com circulação de até mil pessoas por dia, que se afastam uma vez por dia para dar passagem a caminhões da prefeitura que lavam as ruas com potentes jatos de água e cujos vícios são bancados em grande parte pelo escambo de fruto de furtos) não para e há lonas fazendo as vezes de barracas no meio do asfalto, pessoas dormindo em barracos, construções abandonadas servindo de depósito ou moradia e mau odor nauseante que se pode perceber de longe; em suma, um cartão-postal da degradação humana causada pelas drogas – uma paisagem e um odor inesquecíveis para quem passa próximo do local pela primeira vez. Mas a Cracolândia não é só miséria humana: lá também se fazem grandes negócios; na verdade, estima-se que o Primeiro Comando da Capital (o famigerado PCC, principal facção criminosa do Brasil) venda lá 100 quilos de crack por mês – o que significa um faturamento de mais de 100 milhões de reais por mês. Como se vê, João Doria Júnior apostou tudo contra a banca: se ele realmente conseguir acabar com a Cracolândia, bancando a promessa do governador Geraldo Alckmin, seu mentor político, conseguirá se cacifar ainda mais para disputar o Palácio do Planalto em 2018.

A Cracolândia é um epicentro de criminalidade e insalubridade, de violação de direitos humanos, de abusos e violências contra menores, mulheres e minorias, de corrupção de agentes públicos e de tudo o mais de ruim que se possa vir a listar. Não há como se defender a existência de um local como tal: os efeitos deletérios da existência da Cracolândia para a sociedade simplesmente superam em muito os efeitos deletérios para a saúde individual de cada usuário de drogas. Para usar um termo caro aos economistas: as externalidades negativas do consumo coletivo de drogas na Cracolândia são muito maiores do que a soma das externalidades negativas dos consumos individuais de drogas – em outras palavras, o conjunto de viciados concentrados na Cracolândia faz mais mal à sociedade como um todo do que os viciados isoladamente. Por isso, acabar com a Cracolândia e dispersar os usuários para que cada um possa ou destruir sua vida individualmente ou se recuperar deveria ser uma obrigação dos governos. Uma boa comparação é dada pelas favelas do Rio de Janeiro: se fosse ou removidas ou transformadas em bairros (leia-se passarem a ser locais integrados à cidade, sem quaisquer dificuldades de acesso), o consumo de drogas provavelmente não se reduziria em um iota sequer, mas certamente a violência cairia sensivelmente na cidade como um todo pelo simples fato de não mais haver os portos seguros para bandidos os bandidos se refugiarem após cometer crimes – e isso para não falar em como os batalhões e delegacias deixariam de ser fonte de renda para policiais corruptos indicados por políticos idem. Ao dispersar o fluxo pela cidade de São Paulo, o fim da Cracolândia reintegraria uma das mais belas regiões da cidade à pujante metrópole. Falta a São Paulo – como, de resto, falta a virtualmente todas as grandes cidades brasileiras – uma restauração do Centro e sua incorporação à vida urbana como algo além de destino preferencial de trabalho pendular; aliás, é correto reconhecer que o Rio de Janeiro fez um notável progresso nesse sentido durante os mandatos de Eduardo Paes, mas a crise financeira aparentemente sem fim que assola o governo estadual arrisca botar tudo a perder pela galopante insegurança pública. De qualquer modo, se cumprir a promessa, João Doria Júnior entrará para a história como um prefeito que deixou um legado realmente positivo para a cidade de São Paulo. E ele precisa disso para concretizar seu nada secreto plano de disputar a presidência em 2018.

Conforme a Lava-Jato vai se consolidando, mais provável é a vitória de um outsider em 2018. Na verdade, já seria provável de qualquer maneira devido a um momento internacional de valorização de não-políticos, cujo marco maior foi a vitória de Donald Trump nas eleições americanas do final do ano passado e cuja confirmação mais recente foi dada pela vitória de Emmanuel Macron nas eleições francesas há uma semana. No Brasil, Doria é o novo na política, com o agravante de um pano de fundo de derretimento em praça pública da imagem dos políticos tradicionais em função de revelações seriais de maus feitos no âmbito da Lava-Jato. Esse é o caso de nomes como Lula da Silva e Aécio Neves, aqueles que, em mundo sem a Lava-Jato, seriam os principais antagonistas em 2018, mas também de muitos outros nomes. O prognóstico para políticos com experiência já seria péssimo normalmente, mas a Lava-Jato piorou ainda mais a situação. A última esperança de nomes como Lula da Silva é que literalmente todos os principais postulantes ao cargo de presidente estejam envolvidos em denúncias da Lava-Jato, o que levaria a um nivelamento por baixo que, no limite, faria os eleitores simplesmente desconsiderar a honestidade como uma qualidade a diferenciar candidatos. A mera existência de Doria muda sobremaneira tal cálculos. Apesar de ser prefeito da maior cidade do país, Doria continua se apresentando como empresário, não como político, ainda que, na prática, seja um – mas é um arrivista e, portanto, não tem qualquer envolvimento com a Lava-Jato. Portanto, para os políticos tradicionais, Lula da Silva à frente, seguido por Aécio Neves e demais pré-candidatos a 2018, o ideal é que Doria fracasse. Por isso, todos estão de olho nele após a promessa de acabar com a Cracolândia. Não é de se estranhar, inclusive, se houver instruções por parte daqueles que controlam militantes profissionais ou possuem apaniguados em cargos estratégicos a trabalharem para literalmente sabotarem a iniciativa. Como Doria não está na Lava-Jato, o melhor meio para enfraquecê-lo é pespegar-lhe uma pecha de incompetente. Doria flerta perigosamente com isso ao assumir publicamente o compromisso de acabar com a Cracolândia até o final de 2018: se lograr êxito, nada mais fez do o que havia prometido; se fracassar, entra enfraquecido na disputa por 2018. Se fosse político, não teria feito tão arriscada promessa: trabalharia em silêncio, sem o aparato que agora mobilizar-se-á contra ele, exibiria o resultado ao final do processo, e sairia consagrado. Às vezes, ser um político é uma virtude: um político não apostaria tudo em uma única rodada.

Pedro Nascimento Araujo é economista.

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